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O poema é de Matsuo Bashô (1644 a 1694), o poeta que fixou o haicai (poema curto japonês de 17 sons) como arte séria. Saiu em 1686 na antologia Kawazu Awase (Disputa das Rãs), reunida a partir de um concurso de poemas sobre rãs feito na cabana dele em Fukagawa, bairro à margem do rio Sumida, em Edo, a atual Tóquio.
No original: “Furuike ya / kawazu tobikomu / mizu no oto.” Palavra por palavra: velho tanque, ya; rã salta para dentro; som da água. São 5 sons, depois 7, depois 5.
A partícula ya é um kireji (palavra de corte, uma sílaba que encerra uma imagem e marca uma pausa). Não tem tradução direta para o português. Chega perto de um suspiro, de dois-pontos falados, de um “eis” que aponta e se cala. Tradutores para o inglês costumam resolver com um sinal de pausa ou só com a quebra de linha.
Repare no que o poema não tem. Nenhum verbo liga o tanque à rã. Nenhum adjetivo diz se a cena é triste, calma ou cômica. A única palavra de ação, tobikomu (saltar para dentro), pertence à segunda imagem. O tanque fica sozinho na primeira linha, parado como a própria água.
A história da flor amarela foi registrada pelo poeta Kagami Shikō, discípulo de Bashô, no tratado Kuzu no Matsubara, de 1692. Segundo Shikō, Bashô tinha primeiro as duas linhas finais, a rã e o som da água, e procurava a abertura.
Takarai Kikaku, outro discípulo, propôs yamabuki ya: a rosa-amarela-do-japão (arbusto de flor amarela da primavera), seguida da mesma partícula. Bashô recusou e escolheu furuike, velho tanque.
A flor era a imagem esperada. A poesia da corte casava rã e yamabuki havia séculos, e o leitor da época completaria o par de memória. O tanque velho não pertencia a esse repertório e obrigava quem lia a fazer a ligação sem roteiro.
A troca mexeu também no som do bicho. Na tradição clássica, a rã da poesia era a que canta. O prefácio da antologia Kokinshū, escrito por Ki no Tsurayuki por volta de 905, cita o canto da rã que vive na água como prova de que todo ser vivo faz poesia. A rã de Bashô não canta. Pula, e o único som do poema é a água.
O poema virou o mais conhecido do Japão. Em 1983, o tradutor Hiroaki Sato reuniu no livro One Hundred Frogs (Cem Rãs) mais de cem versões dele em inglês. Cada tradutor costurou as duas imagens à sua maneira, e nenhuma versão fecha sozinha o que a partícula deixa em aberto.
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