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A Sílaba de Bashô que Separa o Tanque da Rã

Como Matsuo Bashô cortou o haicai de 1686 com a partícula ya e deixou para o leitor ligar o tanque ao salto.

Velho tanque de pedra com uma rã saltando na água parada

O haicai da rã, publicado em Edo em 1686

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Quem junta duas imagens num parágrafo costuma se apoiar numa frase: “Preciso mostrar ao leitor como uma leva à outra.” Com ela, o texto se enche de pontes: porque, logo, como se, assim, o que mostra que.

Pegue uma cena simples. Um tanque parado, coberto de folhas. Uma rã que pula. O barulho da água. Quem escreve com medo de ser mal entendido monta assim: “O silêncio do velho tanque foi quebrado quando uma rã saltou, mostrando que a vida sempre interrompe a quietude.”

A frase está correta e não deixa nada para quem lê. A ligação entre o tanque e o salto já vem pronta, com a moral embrulhada no final. O leitor confere, concorda e segue adiante sem ter feito nenhum movimento por conta própria.

Há mais de três séculos, um poeta japonês resolveu a mesma cena com 17 sons e nenhuma ponte. Ele pôs o tanque numa linha, a rã e a água nas outras duas, e entre as imagens deixou só uma sílaba curta, que funciona como um corte de tesoura.

A sílaba não explica nada. Não diz que o silêncio foi quebrado, não tira lição nenhuma. Ela apenas separa. Quem lê fica com duas imagens lado a lado e precisa, sozinho, costurar uma na outra.

É nessa costura que o poema acontece. Um leitor ouve o silêncio que volta depois do barulho. Outro vê a idade do tanque contra a pressa do bicho. Um terceiro escuta só o som. O texto aguenta as três leituras porque não escolheu nenhuma no lugar delas.

O curioso é que a primeira linha quase foi outra. Um discípulo sugeriu uma flor amarela para abrir o poema, e o mestre recusou a sugestão sem hesitar.

A faixa I mostra o poema inteiro no original, conta onde ele saiu e quem propôs a flor.

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I  A Desmontagem

I, 17 sons numa cabana de Edo

 
 

O poema é de Matsuo Bashô (1644 a 1694), o poeta que fixou o haicai (poema curto japonês de 17 sons) como arte séria. Saiu em 1686 na antologia Kawazu Awase (Disputa das Rãs), reunida a partir de um concurso de poemas sobre rãs feito na cabana dele em Fukagawa, bairro à margem do rio Sumida, em Edo, a atual Tóquio.

No original: “Furuike ya / kawazu tobikomu / mizu no oto.” Palavra por palavra: velho tanque, ya; rã salta para dentro; som da água. São 5 sons, depois 7, depois 5.

A partícula ya é um kireji (palavra de corte, uma sílaba que encerra uma imagem e marca uma pausa). Não tem tradução direta para o português. Chega perto de um suspiro, de dois-pontos falados, de um “eis” que aponta e se cala. Tradutores para o inglês costumam resolver com um sinal de pausa ou só com a quebra de linha.

Repare no que o poema não tem. Nenhum verbo liga o tanque à rã. Nenhum adjetivo diz se a cena é triste, calma ou cômica. A única palavra de ação, tobikomu (saltar para dentro), pertence à segunda imagem. O tanque fica sozinho na primeira linha, parado como a própria água.

A história da flor amarela foi registrada pelo poeta Kagami Shikō, discípulo de Bashô, no tratado Kuzu no Matsubara, de 1692. Segundo Shikō, Bashô tinha primeiro as duas linhas finais, a rã e o som da água, e procurava a abertura.

Takarai Kikaku, outro discípulo, propôs yamabuki ya: a rosa-amarela-do-japão (arbusto de flor amarela da primavera), seguida da mesma partícula. Bashô recusou e escolheu furuike, velho tanque.

A flor era a imagem esperada. A poesia da corte casava rã e yamabuki havia séculos, e o leitor da época completaria o par de memória. O tanque velho não pertencia a esse repertório e obrigava quem lia a fazer a ligação sem roteiro.

A troca mexeu também no som do bicho. Na tradição clássica, a rã da poesia era a que canta. O prefácio da antologia Kokinshū, escrito por Ki no Tsurayuki por volta de 905, cita o canto da rã que vive na água como prova de que todo ser vivo faz poesia. A rã de Bashô não canta. Pula, e o único som do poema é a água.

O poema virou o mais conhecido do Japão. Em 1983, o tradutor Hiroaki Sato reuniu no livro One Hundred Frogs (Cem Rãs) mais de cem versões dele em inglês. Cada tradutor costurou as duas imagens à sua maneira, e nenhuma versão fecha sozinha o que a partícula deixa em aberto.

 

O poema gasta uma sílaba para separar o tanque da rã e nenhuma para explicar a ligação.

 
 
 
 

II  A Engrenagem

II, O corte que deixa o vão

 
 

O mecanismo tem termo próprio na poética japonesa: toriawase (combinação, o encaixe de duas imagens que não pertencem à mesma cena). O kireji é a dobradiça dessa combinação. Ele fecha a primeira imagem antes que a segunda comece, e o espaço entre elas fica vazio de propósito.

Bashô tratava o corte como função, sem prendê-lo a uma lista de palavras. O discípulo Mukai Kyorai anotou no Kyoraishō (Notas de Kyorai), terminado por volta de 1704, uma lição do mestre: usadas para cortar, todas as 48 sílabas do silabário japonês servem de corte; usadas sem esse fim, nenhuma serve.

O efeito no leitor tem três tempos. Primeiro ele recebe a imagem parada, o tanque, e a partícula manda segurar. Depois chega o movimento, a rã. Por último vem o som, e só então a primeira imagem ganha sentido.

O tanque era silencioso, e o barulho da água prova o silêncio que havia antes e volta logo depois. Nenhuma dessas conclusões está escrita no poema. O leitor as produz, e o que ele produz por conta própria fica com ele por mais tempo.

Quem levou a ideia para fora da literatura foi o cineasta soviético Sergei Eisenstein. No ensaio O Princípio Cinematográfico e o Ideograma, de 1929, ele comparou o haicai à montagem (a colagem de dois planos de filme em sequência): dois planos lado a lado geram, na cabeça do espectador, uma terceira ideia que nenhum deles contém.

O próprio Bashô explicava o método pela observação:

“Do pinheiro, aprenda com o pinheiro; do bambu, aprenda com o bambu.”

Matsuo Bashô, registrado por Hattori Dohō em Sanzōshi (Três Cadernos), 1702

 

A lição explica por que o corte funciona. O poeta observa o objeto até ele falar por si e depois sai da frente. O tanque e a rã entram no poema sem opinião anexada.

Se Bashô tivesse escrito que o salto quebrou a paz, a imagem carregaria a opinião dele, e o leitor só poderia concordar ou discordar. Sem a opinião, sobra ao leitor o trabalho mais interessante: decidir o que as duas imagens têm a ver.

Há um limite. O corte só funciona quando as duas imagens têm um fio escondido. Aqui, o tanque e o som são a mesma água vista em dois momentos, parada e agitada. Duas imagens sem fio algum geram confusão, e o leitor desiste antes de tentar a costura.

 

A partícula fecha a primeira imagem e deixa a ligação com a segunda por conta de quem lê.

 
 

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III  Na Oficina

III, O corte no seu parágrafo

 
 

O corte de Bashô cabe em prosa. Serve para a abertura de uma crônica, a última linha de um relato, a legenda de uma foto, a passagem entre duas cenas de um conto. Onde houver duas imagens e a vontade de explicar a ponte entre elas, há lugar para cortar.

Em português, a partícula vira pontuação ou quebra: o ponto final, os dois-pontos, a linha em branco. O sinal escolhido importa pouco. Importa a função: fechar uma imagem antes de abrir a outra, sem conectivo.

O recurso falha em três situações:

• Quando as imagens não têm fio. Um tanque e uma rã dividem a água; um tanque e um carro de corrida não dividem nada, e o leitor fica sem por onde começar a costura.

• Quando a frase seguinte explica o corte. Cortar e logo depois escrever “o que mostra que” desfaz o vão que a pontuação abriu.

• Quando as imagens são abstratas. “Saudade. Tempo.” não dá ao leitor nada para ver. Cada lado do corte precisa de um objeto concreto: um tanque, uma xícara, uma porta.

Para aplicar o corte, siga quatro passos:

Passo a passo

 

1. Escolha um parágrafo seu em que duas imagens aparecem ligadas por porque, então, como se ou assim.

2. Reescreva cada imagem numa frase curta e concreta, com um objeto que se possa ver ou ouvir.

3. Apague o conectivo e a conclusão que vinha depois dele. Separe as duas frases com ponto final ou com uma linha em branco.

4. Ponha primeiro a imagem parada e depois a que se move, na ordem do tanque e da rã.

 

Um exemplo de relato pessoal. Versão com ponte: “A cozinha da minha avó estava vazia, o que me fez perceber o quanto ela fazia falta.” Versão cortada: “A cozinha da minha avó. A chaleira ainda no fogão, fria.”

A segunda versão não escreve falta nem perceber. A chaleira fria faz o trabalho, e quem lê sente a ausência antes de dar a ela uma palavra.

Depois de cortar, mostre o trecho a alguém sem contexto e peça que diga em uma frase o que entendeu. Se a pessoa nomear a ligação que você apagou, o corte funcionou.

Se ela descrever só as duas imagens soltas, falta fio entre elas: troque uma das imagens por outra que divida algo com a primeira, como a chaleira divide a cozinha.

“Que conectivo do seu último texto você teria coragem de apagar?”

 

Teste hoje: pegue o último texto que você escreveu e conte quantas vezes aparecem porque, então, logo e como se. Corte metade, separe as imagens com ponto final e releia. Se o texto ficou mais curto e nenhuma frase perdeu o sentido, o corte encaixou; se 2 ou mais frases ficaram sem pé, devolva o conectivo só nelas.

 
 
 
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Quiz da edição

No texto, qual discípulo de Bashô propôs a yamabuki (flor amarela) para abrir o poema, sugestão que o mestre recusou?

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CKagami Shikō
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