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O poema se chama beba coca cola, sem o hífen da marca, e foi escrito em 1957 por Décio Pignatari (1927 a 2012), poeta nascido em Jundiaí, no interior paulista, tradutor e professor de semiótica (o estudo dos signos e de como eles produzem sentido).
Pignatari escrevia em grupo. Em 1952, com os irmãos Augusto e Haroldo de Campos, lançou a revista Noigandres (palavra provençal de sentido incerto, que o poeta americano Ezra Pound usou num dos seus Cantos). Dali saiu a poesia concreta (poesia que trabalha a palavra pelo som, pela forma das letras e pelo lugar na página, sem o verso tradicional).
O movimento estreou em público pouco antes do poema. Em dezembro de 1956, o Museu de Arte Moderna de São Paulo abriu a Exposição Nacional de Arte Concreta, com quadros, esculturas e poemas impressos em cartaz; no começo de 1957, a mostra seguiu para o Rio.
O alvo escolhido era um imperativo famoso. Desde os primeiros anúncios, ainda no século 19, a fabricante pedia em inglês Drink Coca-Cola (beba Coca-Cola), e a versão em português circulava no Brasil em cartazes e revistas. Um verbo, um nome de marca, nenhum argumento.
O poema tem sete linhas. A primeira repete o slogan sem mudar nada: “beba coca cola”. A segunda abre com “babe”, feita com as letras de beba em outra ordem, o que se chama anagrama (palavra montada com as letras de outra). Babe vem do verbo babar, e o convite para beber vira ordem de babar.
A terceira linha recua para “beba coca”, como o anúncio que volta ao ar. A quarta junta as peças trocadas: “babe cola caco”. Caco é o anagrama de coca e nomeia o pedaço que sobra de vidro ou de louça quebrada.
Seguem duas linhas de uma palavra só, “caco” e depois “cola”. Isolada, cola perde o parentesco com a noz-de-cola (a semente africana que deu nome ao refrigerante) e fica com o sentido de grude, a cola de colar.
A sétima linha escreve “c l o a c a”, com as letras afastadas, como quem soletra devagar. Cloaca vem do latim e nomeava os esgotos de Roma, como a Cloaca Máxima, o canal principal da cidade antiga. Na zoologia, é também a abertura por onde aves e répteis eliminam os restos do corpo.
A palavra final soma as quatro letras de coca com o l e o a de cola. O poeta precisou só reordenar o que a marca já tinha posto na boca do leitor.
Lido em sequência, o poema percorre o corpo: a boca bebe, a boca baba, sobra o caco, a cola gruda, e o resto desce para o esgoto. O anúncio de bebida termina descrevendo a digestão inteira com o vocabulário do anúncio.
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