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Engenharia da Escrita

A Desmontagem do Dia

O Você que Entra na Loja

A engenharia da segunda pessoa que transforma quem lê em personagem na abertura de um romance famoso

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Engenharia da Escrita 

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Uma poltrona vazia diante de um livro aberto sob um foco de luz numa livraria em penumbra e uma única engrenagem dourada na bancada de relojoeiro
 
 

Bom dia, Engenheiro(a) da Escrita!

Mandar o leitor entrar na cena em vez de mostrá-la é das decisões mais arriscadas da ficção. A segunda pessoa cobra caro e, quando funciona, apaga a distância entre página e pele. Vale estudar o mecanismo.

A primeira frase de um romance precisa fazer uma coisa difícil: criar um mundo e, ao mesmo tempo, convencer quem chegou a ficar nele. Quase todos os livros resolvem isso da mesma forma, abrindo uma janela e mostrando um personagem do lado de dentro.

O leitor olha de fora, como quem observa um aquário. Um romance famoso decide o contrário. Ele não mostra um personagem entrando numa cena. Ele manda o leitor entrar.

A abertura anuncia que você está prestes a começar a leitura, descreve a poltrona em que você se acomoda, a luz que você ajusta, a livraria onde você comprou o volume que segura nas mãos. O sujeito da história é a palavra você. E esse você é, sem disfarce, quem está lendo.

A diferença entre as duas aberturas é uma única decisão técnica. E a mecânica por trás dela é uma das mais úteis que um escritor pode aprender.

Vamos desmontar.

 
 
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I

A Desmontagem

 

Veja o que o texto faz com o leitor. Em vez de apresentar uma terceira pessoa que age na cena, ele dirige cada verbo a quem lê:

"Você está prestes a começar a ler o novo romance. Relaxe. Concentre-se. Afaste qualquer outro pensamento. Encontre a posição mais cômoda: sentado, esticado, encolhido, deitado."

Abertura de Se um Viajante numa Noite de Inverno

 

Repare no movimento. O texto não diz que um homem entrou na livraria e comprou o livro. Ele diz que você fez isso. O pronome de segunda pessoa não está pendurado como vocativo, do tipo leitor, preste atenção. Ele ocupa o lugar do protagonista.

Quem executa as ações da frase é o próprio destinatário da frase. Esse endereçamento direto, em que o texto trata quem lê como personagem da cena, tem nome técnico: narração em segunda pessoa.

Esse endereçamento faz três coisas ao mesmo tempo.

Primeiro, o você apaga a distância entre página e leitor. Uma narração em terceira pessoa mantém uma vidraça: existe o personagem lá dentro e existe você aqui fora, observando. Ao trocar ele entrou por você entra, o texto quebra a vidraça.

Não há mais um intermediário entre a ação e quem a recebe. A cena deixa de ser algo que você assiste e passa a ser algo que acontece com você.

Segundo, o verbo no imperativo transfere a ação para o corpo de quem lê. Quando o texto pede relaxe, concentre-se, encontre a posição mais cômoda, ele não descreve um gesto, ele solicita um.

O leitor, ainda que de leve, confere a própria postura na poltrona. A ordem na página vira movimento fora dela. A obediência mínima, quase involuntária, é o que prende: ao executar o primeiro pedido, você já aceitou ser o personagem.

Terceiro, o você é uma forma vazia que cada leitor preenche. Um nome próprio fecha o personagem: se a frase dissesse Marco entrou na loja, você seria sempre Marco, alguém que não é você. O pronome de segunda pessoa não tem rosto.

Ele é um molde que se encaixa em qualquer um que o leia, e por isso cada leitor o veste como se tivesse sido feito sob medida. Quanto mais genérica a descrição da poltrona e da luz, mais fácil reconhecer ali a sua própria poltrona, a sua própria luz.

 

Observe um detalhe fino. A parte que muda de leitor para leitor é tudo: a livraria, a posição do corpo, a hora do dia. A parte que permanece é apenas o pronome. Se o texto trocasse você por um nome a cada parágrafo, o efeito desmontaria, viraria um personagem comum visto de fora.

É a constância do você, repetido sem rosto, que mantém a porta aberta. O pronome fala antes da cena: ele diz que este lugar é o seu, qualquer que seja o leitor que o ocupe.

A segunda pessoa não descreve alguém entrando na loja. Ela entrega a você as chaves, acende a luz e diz que a poltrona já estava reservada, e quem lê senta sem perceber que foi conduzido até ali.

 
 
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II

A Engrenagem

 

O princípio que opera nessa abertura tem um nome:

Pronome de Convocação.

A ideia de que dirigir os verbos a você, em vez de a um personagem nomeado, converte quem lê de espectador em protagonista. O pronome de segunda pessoa funciona como a moldura vazia; as ações descritas são o que cada leitor pendura nela.

O leitor não observa um personagem, ele é convocado a ser o personagem, e age na cena antes de decidir se quis.

Quando você quer que o leitor sinta uma cena por dentro em vez de assisti-la por fora, troque a terceira pessoa pela segunda e deixe os detalhes genéricos o bastante para caberem em qualquer um. O pronome vazio vira a entrada; os gestos pedidos viram a posse.

 

O leitor para de olhar pela janela e passa a estar dentro do cômodo que você descreveu.

 
 
 
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III

Na Oficina

 

A cena que vira espelho

 

Pegue um trecho seu em que você descreve uma cena na terceira pessoa, alguém fazendo algo enquanto o leitor observa de longe, daqueles que ele lê sem nunca se sentir lá dentro.

Reescreva trocando o personagem por você e passando os verbos principais para o presente ou o imperativo, sem nomear ninguém. Depois corte qualquer detalhe específico demais que feche a cena num único dono, deixando só o que qualquer leitor reconheceria como seu.

Leia em voz alta antes e depois. A versão em segunda pessoa costuma transmitir uma presença que a outra só narrava, porque o leitor para de assistir a um estranho e passa a se ver fazendo o que a frase descreve.

 

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Verdadeiro ou Falso: na abertura em segunda pessoa, dirigir os verbos a "você" em vez de a um personagem nomeado transforma quem lê em protagonista justamente porque o pronome sem rosto funciona como um molde que cada leitor preenche com a própria cena.

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