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O Genro no Fim da Carta de Caminha

Como Pero Vaz de Caminha gastou 27 páginas servindo o rei antes de pedir, em 2 linhas, a volta do genro degredado.

Caravelas ancoradas na baía de Porto Seguro em 1500

A frota de Cabral no litoral da Bahia

▼
 

Quem precisa pedir um favor a um chefe costuma abrir assim: "Preciso te pedir uma ajuda." Foi a frase que derrubou metade dos pedidos que você já recebeu. O leitor ouve o pedido antes de ter motivo para atender.

Em 1º de maio de 1500, numa praia do sul da Bahia, um escrivão português de uns 50 anos fez o caminho contrário. Pero Vaz de Caminha viajava na frota de Pedro Álvares Cabral, a caminho da Índia, com nomeação para escrivão da feitoria (o entreposto comercial português) de Calicute.

A frota tinha avistado terra em 22 de abril. Durante dez dias, os navios ficaram ancorados na costa, os homens desceram à praia, trocaram objetos com os tupiniquins e rezaram uma missa num ilhéu da baía.

Caminha anotou tudo. Na véspera da partida, passou a limpo uma carta ao rei Dom Manuel I, datada "deste Porto Seguro, da vossa Ilha de Vera Cruz". O manuscrito ocupa 27 páginas.

A carta seguiu para Lisboa no navio de mantimentos comandado por Gaspar de Lemos, que voltou sozinho com a notícia enquanto o resto da frota tomava o rumo da África.

Quase tudo nela é relatório: a cor da pele dos homens da praia, os arcos e as setas, o osso que alguns levavam atravessado no lábio, as aves, as árvores, a água doce, o jeito como dormiam em redes.

Só no último parágrafo, depois de cumprir o dever inteiro, o escrivão pede uma mercê (um favor concedido pelo rei) em nome próprio: que Dom Manuel mande vir da ilha de São Tomé o genro dele, Jorge de Osório, preso ali em degredo.

A carta ficou esquecida nos arquivos da Torre do Tombo, em Lisboa, por mais de três séculos. O padre Manuel Aires de Casal a publicou em 1817, no livro Corografia Brasílica, e desde então ela é lida como a certidão de nascimento do Brasil.

Poucos leitores escolares chegam ao último parágrafo. A faixa I desmonta como o escrivão construiu as 27 páginas que carregam as 2 linhas finais.

Continue lendo ↓

 
 

I  A Desmontagem

I, Treze dias contados ao rei

 
 

A Carta de Pero Vaz de Caminha segue a ordem do calendário. Começa na saída de Lisboa, em 9 de março de 1500, passa pelas ilhas Canárias e por Cabo Verde e chega depressa ao dia 22 de abril, quando os marinheiros avistaram "um grande monte, muito alto e redondo".

O capitão-mor batizou o monte de Pascoal, porque era semana da Páscoa. A partir daí, Caminha desacelera. A viagem de mais de um mês cabe em poucas linhas; os dez dias em terra ocupam quase o manuscrito inteiro.

A escolha já organiza a leitura. O rei sabia navegar pelo mapa, ninguém precisava lhe contar o mar. Precisava ver a terra, e Caminha gasta o papel onde o rei não tinha olhos.

A carta abre com uma desculpa calculada. Caminha lembra que o capitão-mor e os outros capitães também escreviam a Dom Manuel, e diz que contará o que viu "assim como eu melhor puder, ainda que, para o bem contar e falar, o saiba pior que todos fazer".

Todo o relatório depende dessa modéstia. Quem se declara o pior narrador da frota promete ao leitor fatos no lugar de enfeite, e Caminha cumpre: repete muitas vezes que não põe nada além do que viu e pareceu.

Os detalhes vêm miúdos e verificáveis. Ele conta que dois homens da terra foram levados a bordo da nau do capitão, dormiram no convés sobre um tapete, cuspiram o vinho que lhes deram e apontaram para um colar de ouro como quem diz que havia ouro na terra.

Caminha descreve também a missa rezada por frei Henrique de Coimbra no domingo de Páscoa, 26 de abril, e conta que os homens da praia imitavam os portugueses, ajoelhando e erguendo as mãos quando eles o faziam.

Logo depois, Caminha corrige a própria leitura do gesto. Escreve que os portugueses entendiam assim "por assim o desejarmos", admitindo ao rei que a vontade de achar metal enfeitava a tradução dos sinais.

O escrivão também registra o que não sabe. Não encontrou ouro nem prata, não viu boi, galinha ou cabra, não sabe se a terra tem metal por dentro. A lista do que faltou dá peso à lista do que achou.

No fim do relatório vem a avaliação do território, que o rei esperava:

“Águas são muitas; infindas. E em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo.”

Pero Vaz de Caminha, Carta a El-Rei Dom Manuel, 1500

 
 

Caminha gasta a carta inteira no interesse do rei e só usa o próprio nome na última frase útil.

 
 
 
 

II  A Engrenagem

II, O crédito antes da conta

 
 

A frase que fecha a parte oficial vem de um escrivão que já tinha provado serviço. Caminha diz que o melhor fruto da terra seria salvar aquela gente, pela conversão, e que o rei devia semear ali a fé. É o último argumento público da carta.

Só então o texto vira. O escrivão diz ter servido o rei naquele cargo e em qualquer outra tarefa, e emenda o pedido:

“A Ela peço que, por me fazer singular mercê, mande vir da ilha de São Tomé a Jorge de Osório, meu genro, o que d'Ela receberei em muita mercê.”

Pero Vaz de Caminha, Carta a El-Rei Dom Manuel, 1500

 

A engrenagem tem três dentes. O primeiro é o crédito: 27 páginas de serviço entregue antes de qualquer conta. O rei lê o favor depois de receber, sem custo, o melhor relato da terra nova.

O segundo é a proporção. O pedido ocupa uma frase só, sem explicar o crime, sem defender o genro, sem argumento jurídico. Uma defesa longa convidaria o rei a julgar o caso de novo; a frase curta pede apenas bondade.

O terceiro é a posição. O pedido vem depois da avaliação econômica e da missão religiosa, os dois assuntos que interessavam a Dom Manuel, e antes da data e da assinatura. O rei termina a leitura com o nome de Jorge de Osório na memória.

São Tomé, no golfo da Guiné, era destino de degredo (pena de exílio forçado em terra distante) desde o fim do século XV. A Coroa mandava para a ilha condenados que trabalhariam no povoamento e nos engenhos de açúcar.

A carta não diz qual crime Jorge de Osório cometeu. Caminha também não conta há quanto tempo o genro estava lá nem o nome da filha casada com ele.

E o desfecho do pedido ninguém conhece. Nenhum documento encontrado até hoje mostra se Dom Manuel mandou buscar Jorge de Osório. O arquivo guarda a carta, e a resposta do rei, se existiu, não chegou aos historiadores.

O próprio Caminha nunca soube. Seguiu com Cabral para a Índia, assumiu o posto em Calicute e perdeu a vida em dezembro de 1500, quando moradores da cidade atacaram a feitoria portuguesa. Tinha mandado a carta poucos meses antes.

 

Quem pede depois de entregar pode pedir curto, porque o texto anterior já argumentou por ele.

 
 

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III  Na Oficina

III, O pedido no último parágrafo

 
 

O método de Caminha serve para qualquer email em que você precisa de algo de quem lê: um aumento, uma indicação, um prazo, uma apresentação a alguém.

III, O pedido no último parágrafo

 

1. Escreva primeiro o que o leitor precisa receber, com fatos verificáveis. Caminha contou a terra; você conta o resultado do trimestre, a solução do problema, o relatório pedido.

2. Declare o que você não sabe. Uma lacuna admitida faz o leitor confiar no restante, como a falta de ouro fez o rei confiar nas águas infindas.

3. Ponha o pedido no último parágrafo, em uma ou duas frases, com o nome da pessoa ou do item pedido por extenso.

4. Corte a defesa. Se o pedido precisa de três parágrafos de justificativa, ele pede outro email, e não carona no relatório.

 

Veja a operação num email de trabalho. Primeira versão: "Oi, Renata. Preciso te pedir uma ajuda com a vaga do meu irmão na sua equipe. Aproveito para mandar o relatório de setembro em anexo."

Segunda versão, à maneira de Caminha: "Renata, o relatório de setembro está em anexo. As vendas do Sul subiram 14% em relação a agosto, puxadas por Curitiba; o Nordeste ficou parado e ainda não sei explicar por quê."

A mesma segunda versão segue com dois parágrafos de dados, um de próximos passos e termina: "Se houver espaço na seleção da vaga de analista, peço que você olhe o currículo do meu irmão, Rafael Duarte, que segue também anexo."

Na primeira, Renata lê um favor e depois um anexo. Na segunda, lê trabalho útil, uma admissão honesta e, no fim, um nome. O pedido chega com crédito acumulado.

Um aviso sobre a proporção. O método funciona quando o relatório vale por si. Um texto inflado só para esconder o pedido no fim vira manobra, e o leitor percebe pela gordura.

Cuide também do tom da última frase. Caminha escreve "receberei em muita mercê", reconhecendo que o rei pode negar. Pedido que soa como cobrança anula o crédito que as páginas anteriores juntaram.

"Qual pedido você vem adiando porque não sabe onde colocá-lo no email?"

 

Teste hoje: escreva o email desse pedido duas vezes, uma com o favor na primeira linha e outra com o favor na última, depois de um parágrafo útil. Leia as duas em voz alta e conte quantas frases de justificativa cada uma precisou.

 
 

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Na carta de 1500, Pero Vaz de Caminha pede ao rei que resgate o genro dele, Jorge de Osório, de qual lugar?

ADa ilha de São Tomé, no golfo da Guiné
BDe Cabo Verde
CDas ilhas Canárias
DDe Calicute, na Índia

Resultado da última edição: 5 de 5 acertaram.

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