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A poesia sem-ena-werq (cera e ouro) nasceu dentro da Igreja Ortodoxa Etíope e, por séculos, foi matéria de escola. Os alunos estudavam numa qene bet (casa do qene, a escola do poema improvisado), muitas delas na região de Gojam, no noroeste do país, famosa pelos mestres do gênero.
O qene (poema curto, improvisado sobre um tema religioso) era composto em gueês, a língua antiga da liturgia etíope, e mais tarde também em amárico. O aluno passava anos ali: decorava modelos, aprendia métricas e treinava a composição de cabeça, sem papel.
O exercício seguia um roteiro. O mestre dava um tema, em geral a festa de um santo ou uma passagem bíblica. O aluno se afastava, compunha em silêncio e voltava para recitar. O mestre julgava a métrica, a rima e, acima de tudo, a qualidade do ouro escondido.
Um qene só com cera valia pouco. O verso de louvor que dizia apenas o óbvio passava por obra de iniciante. O elogio dos mestres ia para o poema em que o segundo sentido surgia inteiro, coerente, sem deixar a primeira leitura manca.
Os formados viravam debtera (letrado e cantor da igreja, sem ordenação de padre). Nos dias de festa, recitavam o qene durante a liturgia, diante da congregação, e o público mais instruído saía comentando o ouro escondido naquele dia.
O caminho até ali era longo. Antes do qene, o aluno passava pela escola de leitura e pelo canto litúrgico; só então entrava na casa do qene, onde o estudo podia durar muitos anos até o mestre liberar o aluno para ensinar.
A técnica se apoia numa particularidade da escrita. O amárico usa o fidel (o silabário etíope, em que cada sinal representa uma consoante com sua vogal). Esse sistema não marca a geminação (a consoante dobrada, pronunciada mais longa, como um “tt” falado devagar).
Na página, duas palavras de sentidos diferentes podem ter a mesma grafia, e só a pronúncia decide qual delas o poeta quis dizer. O poeta escolhia palavras assim e deixava a plateia decidir.
Havia outros truques no mesmo estojo. O poeta deslocava a fronteira entre duas palavras, para que a junção formasse uma terceira, ou usava um termo comum com um sentido raro conhecido só dos letrados. Em todos os casos, o ouro morava no som, nunca numa palavra extra.
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