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A Desmontagem do Dia
A Comparação que Fere
A engenharia do símile-surpresa em Raymond Chandler, a comparação inesperada que carrega julgamento e humor num só golpe
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Bom dia, Engenheiro(a) da Escrita!
Chandler descreve um capanga com uma frase que ninguém pediu e todo mundo lembra. O sujeito era tão duro, escreve ele, que faria um bispo chutar um vitral de igreja. Você lê, ri, e sem perceber já sabe tudo sobre o homem.
A violência, o desconforto de estar perto dele, o veneno de quem narra. Um adjetivo levaria três palavras e não deixaria marca. A comparação errada deixou.
O problema que ela resolve é velho conhecido de quem já tentou descrever uma pessoa. O caminho comum é o adjetivo: ele era ameaçador, era grosseiro, era intimidante.
O adjetivo diz, mas não faz ver, e o leitor passa por cima dele como quem passa por uma placa de trânsito. Ninguém guarda um adjetivo. A frase escorrega pela página sem prender em lugar nenhum.
O leitor comum lê a linha do bispo e acha só que é engraçada. Sente uma piada e segue.
Mas a graça tem mecânica, e é uma das mais roubáveis que a prosa policial deixou à mostra.
Vamos desmontar.
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Pegue o símile que abre o caso e repare no que os dois termos têm em comum:
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"Ele não era mais perigoso que um puma engaiolado, contanto que houvesse grades entre você e ele."
A ameaça medida pela parede fina que a segura
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O primeiro termo é um homem numa sala. O segundo é um puma numa jaula. Chandler não compara aparências, compara a ameaça contida por uma parede fina, e a parede fina é a única coisa entre você e o estrago. A comparação não enfeita a cena, ela mede a tensão dela.
Repare no que Chandler ganhou. O símile não descreve, ele julga. Quando o narrador escolhe o puma engaiolado em vez de dizer perigoso, ele revela o que pensa do homem e o que pensa da própria segurança.
A imagem carrega uma posição, e a posição é a voz do detetive vazando pra dentro da descrição.
Então vem o golpe seco, a comparação que fecha um retrato inteiro numa linha:
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"Uma loura de deixar um bispo chutar um vitral de igreja."
A beleza medida pelo estrago que ela faz
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Um adjetivo diria bonita. A frase diz outra coisa: diz o efeito da beleza sobre o homem mais controlado que existe, e o efeito é a perda do controle. Chandler não descreve a mulher, descreve o estrago que ela faz.
O leitor monta a beleza sozinho, e o que ele monta é maior do que qualquer adjetivo entregaria.
Esse símile faz três coisas ao mesmo tempo.
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Primeiro, ele mostra sem nomear. O adjetivo nomeia a qualidade e para. O símile obriga o leitor a construir a imagem, e o que ele constrói pesa mais do que a palavra pronta, porque foi ele quem levantou.
A cena entra pela porta dos olhos, não pela dos rótulos.
Segundo, ele contrabandeia julgamento. A escolha do segundo termo nunca é neutra. Comparar a mulher a um vitral em chamas ou o capanga a um puma engaiolado é opinião disfarçada de descrição.
O narrador diz o que sente sem parar a cena pra confessar, e o leitor recebe o veredito junto com a imagem, sem perceber que foi julgado por ele.
Terceiro, ele ri e fere no mesmo golpe. A distância entre os dois termos, o homem e o puma, a loura e o bispo, é grande demais pra ser séria, e o exagero vira humor.
Mas o humor não alivia, ele afia. A piada faz o leitor baixar a guarda e a imagem entra fundo enquanto ele sorri. Comédia e crueldade cabem na mesma frase.
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Observe um detalhe fino. A distância entre os dois termos precisa ser certa: longe o bastante pra surpreender, perto o bastante pra fazer sentido no segundo seguinte. O bispo e o vitral estão a quilômetros da mulher bonita, mas o salto se resolve na hora, porque todo mundo entende o que é um homem sério perdendo a compostura.
E a jogada não é sorte de uma linha. Chandler comparava um saguão vazio a um golpe na barriga, um homem grande a um cavalo de carga usando terno, uma casa silenciosa a um necrotério com melhor mobília. Cada vez, o segundo termo é concreto, físico, e traz junto uma emoção que o primeiro não tinha.
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Chandler não diz que o homem é perigoso. Ele mostra o puma e a grade fina, e deixa o leitor sentir o medo com as próprias mãos.
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O princípio que opera nessas frases tem um nome:
Símile-Surpresa.
Uma comparação em que o segundo termo está longe o bastante do primeiro pra surpreender, mas perto o bastante pra fazer sentido na hora, e carrega junto um julgamento e um tom que o adjetivo não carregaria.
A imagem faz o trabalho da opinião sem a opinião aparecer.
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Quando precisar descrever, não alcance o adjetivo. Pergunte a que a coisa se parece, e force a resposta pra longe do óbvio. O segundo termo tem que ser concreto, algo que o leitor veja e sinta no corpo, e trazer embutida a emoção que você quer passar.
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E o ganho vai além da imagem. O símile-surpresa revela quem narra. A escolha do segundo termo, sempre, entrega o olhar de quem observa: um narrador que compara a mulher a um vitral em chamas não é o mesmo que compararia a uma flor. A comparação caracteriza duas pessoas de uma vez, a descrita e quem descreve, sem o narrador gastar uma linha se explicando.
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A ponto de fazer o quê
Pegue uma frase sua que use um adjetivo pra descrever alguém: ele era ameaçador, ela era linda, o quarto era triste. Apague o adjetivo. No lugar, complete a pergunta a ponto de. Ele era ameaçador a ponto de fazer o quê? Force três respostas, e jogue as duas primeiras fora, porque a primeira é sempre óbvia e a segunda quase. Fique com a terceira, a que te fez rir ou recuar.
Confira duas coisas: o segundo termo é concreto, uma coisa que se vê, e a distância entre os dois é grande mas se resolve na hora. Se o leitor precisa parar pra entender, aproxime. Se entende antes de terminar, afaste. Leia as duas versões em voz alta. Na do adjetivo, a frase passa e some. Na do símile, ela fere, faz rir, e fica.
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