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A Pergunta de Cícero que Encurralou Catilina

Como Cícero abriu a Primeira Catilinária falando direto com o réu sentado no Senado e tirou dele o lugar de plateia.

Cícero de pé apontando para Catilina sentado sozinho no Senado romano

Cícero diante de Catilina no Senado, 63 a.C.

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Quem precisa abrir um texto contra alguém costuma repetir para si uma frase prudente: “Primeiro apresento o caso, depois aponto o culpado.” Com ela, a abertura se enche de contexto e perde o rosto.

Monte a cena por esse roteiro. Um relatório sobre o gestor que sumiu com a verba da obra começa assim: “Nos últimos meses, foram identificadas irregularidades na gestão dos recursos.” Ninguém aparece na frase, nenhum rosto, nenhum nome. A acusação vem na terceira pessoa, contra um sujeito ausente.

O leitor recebe o caso como quem lê um boletim. Concorda que há um problema, guarda a informação e segue. O acusado, se estiver lendo, também segue tranquilo: o texto fala dele, mas não fala com ele.

No ano 63 a.C., um cônsul romano teve diante de si o caso mais grave da carreira e um detalhe que nenhum manual previa. O homem acusado de tramar contra a cidade tinha entrado no Senado e se sentado entre os senadores, calmo, como qualquer colega.

O cônsul podia ter começado pelos fatos, pela lei, pelos perigos. Começou por uma pergunta, feita na segunda pessoa, dirigida ao réu pelo nome, com os olhos dele na sala.

A pergunta não pedia resposta. Pedia que todos olhassem para o mesmo banco. Em poucas palavras, o acusado deixou de ser assunto e virou interlocutor, preso numa conversa que não escolheu e da qual não podia sair sem se entregar.

Calar parecia culpa. Responder obrigava a aceitar os termos da pergunta. Levantar e ir embora confirmava a acusação diante de todos. A primeira frase do discurso fechou as três portas antes que ele abrisse a boca, e o discurso ainda nem tinha chegado às provas.

A faixa I mostra quem eram os dois homens, o que tinha acontecido na véspera e as palavras exatas da abertura.

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I  A Desmontagem

Uma manhã de novembro no templo de Júpiter

 
 

A Primeira Catilinária é o discurso que Marco Túlio Cícero (106 a 43 a.C.), cônsul de Roma em 63 a.C., fez ao Senado em 8 de novembro daquele ano. O alvo era Lúcio Sérgio Catilina, patrício de família antiga que tinha perdido duas eleições seguidas para o consulado e, segundo Cícero, preparava um levante armado contra a república.

O Senado não se reuniu na cúria (o prédio habitual das sessões). Cícero convocou a sessão para o templo de Júpiter Estator, ao pé do monte Palatino, um lugar mais fácil de vigiar. Homens armados guardavam a entrada.

A véspera explica a pressa. Na madrugada de 7 de novembro, dois cúmplices de Catilina, o cavaleiro Caio Cornélio e o senador Lúcio Vargunteio, foram à casa de Cícero com ordem de atacá-lo durante a salutatio (a visita de cumprimento que os clientes faziam ao patrono logo cedo).

Cícero sabia do plano. Fúlvia, amante do conspirador Quinto Cúrio, tinha levado o aviso, e o cônsul mandou trancar a porta. Os dois voltaram sem entrar.

Ao mesmo tempo, na Etrúria, um ex-centurião chamado Caio Mânlio reunia tropas. Cícero conhecia os dois movimentos e tinha pouca prova escrita para apresentar. Catilina, mesmo assim, foi à sessão e ocupou seu lugar.

No original latino, a abertura diz: “Quo usque tandem abutere, Catilina, patientia nostra?” Em português: “Até quando, enfim, Catilina, abusarás da nossa paciência?” Seguem mais duas perguntas: até quando a fúria dele zombaria dos senadores, até onde chegaria a ousadia sem freio.

Repare na posição do nome. Catilina aparece no meio da primeira pergunta, no vocativo (o caso gramatical latino usado para chamar alguém diretamente), cercado pelo verbo e pelo objeto. O réu é chamado antes que qualquer fato seja apresentado.

Logo depois vem a exclamação que ficou mais famosa que o próprio discurso: “O tempora, o mores!”, em português “Que tempos, que costumes!”. Cícero lamenta que o Senado saiba de tudo, que o cônsul veja tudo, e que o acusado continue solto e ainda compareça às sessões.

A reação do réu está no historiador Caio Salústio Crispo, em A Conjuração de Catilina, escrita por volta de 42 a.C. Catilina se levantou, pediu de rosto baixo que os senadores não acreditassem em nada contra ele e lembrou a origem nobre da família.

Foi interrompido aos gritos de inimigo público e saiu da sessão. Na mesma noite deixou Roma e seguiu para o acampamento de Mânlio. Em dezembro, cinco cúmplices presos na cidade foram executados por decisão do Senado, e Catilina caiu em combate perto de Pistoia no início de 62 a.C.

 

Cícero chamou o réu pelo nome antes de apresentar uma única prova contra ele.

 
 
 
 

II  A Engrenagem

A segunda pessoa que prende o réu

 
 

O manual retórico romano mandava abrir de outro jeito. O exórdio (a abertura do discurso, a parte que prepara o ouvinte) devia buscar a captatio benevolentiae (a conquista da boa vontade de quem escuta): o orador se apresentava com modéstia, elogiava o público e anunciava o tema com calma.

O próprio Cícero ensinou a regra. No tratado De Inventione (Sobre a Invenção), escrito na juventude, por volta de 85 a.C., ele descreve o exórdio como a parte que deixa o ouvinte benévolo, atento e disposto a aprender.

Na Primeira Catilinária, ele pulou a etapa. O professor de retórica Quintiliano, na Institutio Oratoria (A Formação do Orador), de cerca de 95 d.C., cita a abertura como exemplo de exórdio abrupto, aceitável quando a gravidade do momento dispensa a preparação.

A ferramenta tem nome: apóstrofe (a figura em que o orador interrompe a fala ao público e se dirige a uma pessoa específica). Aqui ela vem somada à interrogação retórica (pergunta feita para afirmar, sem esperar resposta). Cada uma sozinha é comum. Juntas, na primeira linha, mudam a posição de todos na sala.

Os efeitos são três:

• O réu perde a plateia. Sentado como senador, Catilina era ouvinte. Chamado pelo nome, vira alvo, e cada palavra seguinte cai sobre ele.

• O público vira testemunha. Os senadores deixam de julgar uma narrativa e assistem a um homem sendo interpelado diante deles.

• A pergunta já contém a acusação. “Abusarás da nossa paciência” pressupõe o abuso. Para negar, Catilina teria que discutir o “até quando”, e qualquer resposta aceitaria a premissa.

O pronome possessivo também trabalha. “Nossa paciência” reúne todos os presentes num grupo e deixa um homem só fora dele. A gramática da frase divide a sala em nós e tu.

A divisão saiu da frase e chegou aos bancos. Mais adiante no discurso, Cícero aponta os assentos ao redor do acusado:

“Com a tua chegada, aqueles bancos se esvaziaram.”

Marco Túlio Cícero, Primeira Catilinária, 63 a.C.

 

Os ex-cônsules sentados perto de Catilina tinham se afastado quando ele entrou. Cícero transforma o gesto deles em prova: a sala inteira já tinha julgado o réu, e o orador só dá voz ao julgamento.

Há um limite. A apóstrofe funciona porque o alvo estava ali, a poucos metros, com o rosto visível para todos. Dirigida a alguém ausente, a mesma pergunta soa como encenação.

Há também uma lacuna que os historiadores admitem. O texto que lemos foi publicado por Cícero em 60 a.C., três anos depois, como ele conta numa carta ao amigo Ático. Salústio confirma que o discurso existiu e foi publicado mais tarde, mas ninguém sabe quanto da versão escrita repete a fala do dia. A abertura pode ter sido polida na revisão.

 

A apóstrofe transforma o réu sentado em interlocutor e a plateia em testemunha.

 
 

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III  Na Oficina

A pergunta ao leitor sentado

 
 

A abertura de Cícero cabe fora do Senado. Serve para a carta ao síndico, o email difícil ao fornecedor, o artigo de opinião contra uma decisão pública, a crônica que cobra um vizinho. Onde houver um responsável e a tentação de falar dele na terceira pessoa, há lugar para a pergunta direta.

No papel, o banco do Senado vira o destinatário. A carta e o email têm alguém que vai ler; o artigo tem um alvo conhecido do público. A pergunta precisa de um rosto possível do lado de lá da página.

O recurso falha em três situações:

• Quando o alvo é vago. “Até quando, autoridades, vamos tolerar o descaso?” não chama ninguém. Sem um destinatário que o leitor reconheça, a pergunta vira desabafo.

• Quando a pergunta não contém a acusação. “Você sabe o que fez?” deixa o fato de fora. A pergunta de Cícero já carregava o abuso dentro do verbo.

• Quando o texto inteiro grita. Uma pergunta forte na abertura pede um corpo firme e frio em seguida. Cícero perguntou três vezes e depois passou a listar o que sabia, com datas e nomes.

Para aplicar a apóstrofe, siga quatro passos:

Passo a passo

 

1. Escolha um texto seu que critique alguém e que hoje comece pelo contexto.

2. Identifique o responsável e escreva o tratamento dele: o nome, o cargo ou o “senhor” que o leitor reconheceria.

3. Reescreva a primeira frase como pergunta na segunda pessoa, com o tratamento no meio e a acusação dentro do verbo.

4. Logo abaixo, entregue os fatos em ordem, um por frase, sem adjetivo.

 

Um exemplo de carta de condomínio. Versão em terceira pessoa: “Há meses o portão da garagem apresenta defeitos que prejudicam os moradores.” Versão com apóstrofe: “Quantas vezes mais, senhor síndico, vamos empurrar o portão da garagem com as mãos?”

A segunda versão não usa “defeito” nem “prejudicar”. As mãos no portão fazem a acusação, e o síndico, ao ler, já está dentro da cena.

Depois de reescrever, leia só a primeira frase para alguém que não conhece o caso e pergunte quem está sendo cobrado. Se a pessoa responder na hora, a apóstrofe encontrou o alvo.

Se ela hesitar, o tratamento está vago ou a acusação ficou fora do verbo: volte ao passo 2 e troque o cargo genérico por um que só caiba numa pessoa.

“Quem merece ser chamado pelo nome na primeira linha do seu próximo texto?”

 

Teste hoje: pegue a primeira frase do último email em que você reclamou de algo e reescreva como pergunta direta ao destinatário. Mostre as duas versões a alguém e cronometre quantos segundos a pessoa leva para dizer quem é o responsável. Se a versão com pergunta levar menos de 3 segundos e a original mais, a apóstrofe funcionou; se as duas empatarem, falta pôr a acusação dentro do verbo.

 
 
 

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Quiz da edição

Onde Cícero convocou a sessão do Senado em que fez a Primeira Catilinária?

ANa cúria, o prédio habitual das sessões
BNo templo de Júpiter Estator, ao pé do monte Palatino
CNo Fórum Romano, ao ar livre
DNa própria casa de Cícero

Resultado da última edição: 56% acertaram.

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46 avaliações · 23 leitores · 26/09 a 09/10

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