|
A Primeira Catilinária é o discurso que Marco Túlio Cícero (106 a 43 a.C.), cônsul de Roma em 63 a.C., fez ao Senado em 8 de novembro daquele ano. O alvo era Lúcio Sérgio Catilina, patrício de família antiga que tinha perdido duas eleições seguidas para o consulado e, segundo Cícero, preparava um levante armado contra a república.
O Senado não se reuniu na cúria (o prédio habitual das sessões). Cícero convocou a sessão para o templo de Júpiter Estator, ao pé do monte Palatino, um lugar mais fácil de vigiar. Homens armados guardavam a entrada.
A véspera explica a pressa. Na madrugada de 7 de novembro, dois cúmplices de Catilina, o cavaleiro Caio Cornélio e o senador Lúcio Vargunteio, foram à casa de Cícero com ordem de atacá-lo durante a salutatio (a visita de cumprimento que os clientes faziam ao patrono logo cedo).
Cícero sabia do plano. Fúlvia, amante do conspirador Quinto Cúrio, tinha levado o aviso, e o cônsul mandou trancar a porta. Os dois voltaram sem entrar.
Ao mesmo tempo, na Etrúria, um ex-centurião chamado Caio Mânlio reunia tropas. Cícero conhecia os dois movimentos e tinha pouca prova escrita para apresentar. Catilina, mesmo assim, foi à sessão e ocupou seu lugar.
No original latino, a abertura diz: “Quo usque tandem abutere, Catilina, patientia nostra?” Em português: “Até quando, enfim, Catilina, abusarás da nossa paciência?” Seguem mais duas perguntas: até quando a fúria dele zombaria dos senadores, até onde chegaria a ousadia sem freio.
Repare na posição do nome. Catilina aparece no meio da primeira pergunta, no vocativo (o caso gramatical latino usado para chamar alguém diretamente), cercado pelo verbo e pelo objeto. O réu é chamado antes que qualquer fato seja apresentado.
Logo depois vem a exclamação que ficou mais famosa que o próprio discurso: “O tempora, o mores!”, em português “Que tempos, que costumes!”. Cícero lamenta que o Senado saiba de tudo, que o cônsul veja tudo, e que o acusado continue solto e ainda compareça às sessões.
A reação do réu está no historiador Caio Salústio Crispo, em A Conjuração de Catilina, escrita por volta de 42 a.C. Catilina se levantou, pediu de rosto baixo que os senadores não acreditassem em nada contra ele e lembrou a origem nobre da família.
Foi interrompido aos gritos de inimigo público e saiu da sessão. Na mesma noite deixou Roma e seguiu para o acampamento de Mânlio. Em dezembro, cinco cúmplices presos na cidade foram executados por decisão do Senado, e Catilina caiu em combate perto de Pistoia no início de 62 a.C.
|