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O Livro XII narra a conquista pelo lado dos vencidos. Os informantes de Tlatelolco descreveram a queda da capital, Tenochtitlan, cerca de três décadas depois de 1521, quando muitos participantes ainda viviam.
Na coluna náuatle, o massacre do Templo Maior, em 1520, ganha detalhe de testemunha. Durante a festa de Tóxcatl (celebração ao deus Tezcatlipoca), soldados de Pedro de Alvarado fecharam as saídas do pátio e atacaram os dançarinos desarmados. O texto nahua conta os golpes, os portões bloqueados, a fuga pelos muros.
A coluna espanhola resume o episódio em menos linhas e suaviza a culpa espanhola. Quem lia só a esquerda, na Europa, recebia uma versão mais curta e menos incômoda do mesmo dia.
O padrão se repete em outros livros. No Livro VI, os huehuetlahtolli (“a palavra dos antigos”, discursos de conselho que pais e governantes recitavam) ocupam páginas inteiras em náuatle. O espanhol condensa as orações e perde a cadência das repetições, que eram o recurso central desses discursos.
No Livro I, sobre os deuses, Sahagún fez o movimento inverso: acrescentou um apêndice em que refuta a religião descrita pelos informantes. A coluna espanhola, ali, diz mais do que os anciãos disseram, e o acréscimo carrega a opinião do frade.
Em 1585, o próprio Sahagún reescreveu o relato da conquista. No prólogo da nova versão, admitiu ter posto na primeira trechos mal postos e calado outros que deveriam constar. A revisão deixou os espanhóis em posição mais favorável.
Durante séculos, quase todo leitor conheceu o códice pela esquerda. O texto espanhol saiu impresso em 1829 e 1830, no México, editado por Carlos María de Bustamante. A coluna náuatle inteira só chegou ao inglês com a tradução de Arthur J. O. Anderson e Charles E. Dibble, publicada em volumes entre 1950 e 1982 pela School of American Research e pela Universidade de Utah.
A comparação sistemática ganhou força depois. Em 2019, a coletânea The Florentine Codex (O Códice Florentino), organizada por Jeanette Favrot Peterson e Kevin Terraciano e publicada pela University of Texas Press, reuniu estudos lendo as duas colunas lado a lado.
Sahagún viveu até 1590 sem ver a obra impressa. Em 1577, ano da conclusão, uma ordem do rei Filipe II mandou recolher os escritos sobre costumes indígenas, e o manuscrito seguiu para a Espanha por volta de 1580. Como chegou à coleção dos Médici, em Florença, nenhum documento conhecido esclarece. Hoje fica na Biblioteca Medicea Laurenziana.
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