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I A Desmontagem
A frase de duas metades
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Hamurabi, rei da Babilônia entre 1792 e 1750 a.C., mandou gravar a estela nos últimos anos do reinado, depois de unificar sob o seu governo as cidades do sul da Mesopotâmia. O texto está em acadiano, a língua semítica da corte babilônica, e se divide em três partes: um prólogo em que o rei lista as cidades e os deuses que o favorecem, o corpo das leis e um epílogo.
O corpo das leis é onde a forma aparece inteira. Quase todo artigo abre com šumma (a palavra acadiana para “se”), muitas vezes seguida de awīlum (homem livre, o cidadão de pleno direito). A frase que nasce dali tem duas metades, sempre na mesma ordem.
Os estudiosos chamam a primeira de prótase (a condição, a metade do “se”) e a segunda de apódose (a consequência, a metade do “então”). Na prótase, o verbo vem no passado: o caso já aconteceu. Na apódose, o verbo vem no futuro: a sanção está decidida antes do julgamento.
Na ordem da pedra, uma lei típica responde a quatro perguntas:
• Quem age: um homem livre, um subalterno, um escravo, um médico, um construtor.
• O que fez: arrombou, alugou, curou, construiu, acusou.
• Com que resultado: o boi perdeu o olho, a casa caiu, o paciente sobreviveu.
• O que segue: paga, devolve, perde a mão, é executado.
Os artigos também se agrupam por assunto, em blocos vizinhos: acusação falsa e juízes no começo, depois roubo, terras e campos, comércio, família, agressão, profissões e, na reta final, aluguel de animais e compra de escravos. Quem procura o caso do boi não percorre a pedra inteira; vai direto ao bloco dos animais.
O epílogo diz a quem a pedra se dirige:
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“Que o homem oprimido que tem uma causa venha diante da minha estátua de rei da justiça, mande ler a minha estela inscrita e ouça as minhas palavras preciosas, e que a minha estela lhe esclareça a causa.”
Hamurabi, epílogo do Código de Hamurabi, c. 1754 a.C., na tradução de Martha Roth, 1995
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O leitor previsto não era jurista. Era o queixoso comum, que talvez nem soubesse ler e ouviria o texto pela voz de um escriba. Para esse ouvinte, a repetição funciona como trilho: depois da terceira lei, ele já espera o “se” e sabe que a consequência vem logo atrás.
A estela foi achada entre dezembro de 1901 e janeiro de 1902 por uma expedição francesa dirigida por Jacques de Morgan, em Susa, no atual Irã, longe da Babilônia e partida em três pedaços. O dominicano Jean-Vincent Scheil publicou a tradução francesa ainda em 1902, e a numeração dele, de 1 a 282, segue em uso.
Na face da frente, perto da base, uma faixa de várias colunas aparece raspada até a pedra ficar lisa. As leis daquele trecho só chegaram até nós pelas cópias em barro, e a contagem de 282 inclui artigos reconstruídos por elas.
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A lei de Hamurabi tem a forma de uma frase só: a condição no passado, a consequência no futuro, e nenhuma palavra entre as duas para pedir licença.
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II A Engrenagem
O preço no lugar do adjetivo
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A segunda metade da fórmula carrega a autoridade. Ela não qualifica o ato. Quem arromba não comete um “crime hediondo”; arromba, e a pedra diz o que acontece em seguida.
O exemplo mais citado vem dos artigos 196 a 199. Se um homem livre fura o olho de outro homem livre, furam o olho dele. Se fura o olho de um muškēnum (o subalterno, homem livre de condição inferior), paga uma mina de prata, cerca de meio quilo. Se fura o olho do escravo de alguém, paga metade do preço do escravo.
Três frases, o mesmo verbo, a mesma ordem. Só a vítima muda, e a consequência muda junto. A hierarquia social da Babilônia cabe inteira nessa variação, sem que o texto declare em lugar algum que um homem vale mais que outro.
Os artigos do construtor repetem a escada:
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“Se um construtor construiu uma casa para um homem e não fez sólida a sua obra, e a casa que construiu desabou e causou a perda da vida do dono da casa, esse construtor será executado.”
Código de Hamurabi, artigo 229, c. 1754 a.C.
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O artigo 230 troca o dono pelo filho do dono, e quem paga é o filho do construtor. O 231 troca pelo escravo, e o construtor entrega um escravo equivalente. O 232 cobre os bens destruídos: o construtor repõe tudo e reergue a casa com recursos próprios. O leitor aprende a regra de cálculo sem que ninguém a enuncie.
O preço vale até para quem usa a lei. O artigo 1 trata de quem acusa outro homem de homicídio e não prova a acusação: o acusador é executado. A pedra abre punindo o uso leviano dela mesma, e o queixoso que se aproxima da estátua já sabe o risco de mentir.
A força da fórmula está na condição verificável. “A casa caiu” se confere olhando o entulho. O adjetivo pede julgamento: “grave”, “inaceitável”, “absurdo” mudam de peso conforme quem lê. A condição pede só um fato, e juiz e réu dificilmente discordam se o boi perdeu ou não o olho.
Hamurabi não inventou a forma. O Código de Ur-Nammu, de Ur, cerca de três séculos e meio mais antigo, já escrevia leis com “se” e multas em prata. A estela babilônica levou o molde mais longe e o manteve sem desvio por quase trezentos artigos, o que deu ao conjunto a voz de um sistema.
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Quando o texto fixa o preço do ato, o leitor deduz a gravidade sozinho, e nenhum adjetivo precisa dizer o que o número já disse.
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