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O Trem Que Não Estava Lá
Como a primeira frase de País das Neves, sem sujeito em japonês, perdeu o viajante ao ganhar um trem em inglês.
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A saída do túnel Shimizu, no país das neves
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Toda frase precisa de sujeito, senão fica solta. É a correção que muito professor de redação escreve na margem, e ela teria estragado a abertura mais conhecida da literatura japonesa.
Em 1935, Yasunari Kawabata começou a publicar em revistas os trechos de um romance sobre um homem de Tóquio que vai de trem a uma vila de águas termais nas montanhas nevadas. A primeira edição em livro saiu em 1937. A versão definitiva, em 1948, com o título Yukiguni (País das Neves).
A frase que abre o romance não diz quem atravessa o túnel. Não há trem, não há viajante, não há pronome. Há um túnel comprido na fronteira entre duas províncias, a travessia e, logo depois dela, a neve.
Vertida palavra por palavra, ela soa assim: atravessado o longo túnel da fronteira, era o país das neves. O japonês aceita a lacuna sem estranhamento. Quem lê entra no vagão sem ser apresentado a ninguém, e a brancura surge como surge para quem está sentado à janela.
Em 1956, o americano Edward Seidensticker publicou a versão inglesa pela editora Knopf, de Nova York. O inglês não aceita frase declarativa sem sujeito. O tradutor precisou escolher um, e escolheu o trem.
Com a escolha, a câmera sai do vagão. O leitor de língua inglesa vê a composição deixar a boca do túnel, como quem observa da encosta. A travessia deixa de ser vivida e passa a ser assistida.
A tradução levou o romance a leitores ocidentais antes do Nobel de Literatura que Kawabata recebeu em 1968. A frase inicial, porém, virou caso clássico de estudo sobre o que some quando uma língua obriga a dizer quem faz a ação.
Para quem escreve em português, o caso interessa por um detalhe: a nossa língua aceita a lacuna japonesa quase sem ajuste. O sujeito pode ficar calado, e quase ninguém usa essa porta.
Na faixa I, a frase original desmontada peça por peça, e quem é o homem que ela esconde.
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I A Desmontagem
I, Um túnel sem viajante
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País das Neves, romance de Yasunari Kawabata, acompanha as visitas de Shimamura, um diletante de Tóquio que vive de herança e escreve sobre balé ocidental sem nunca ter visto um espetáculo, a uma vila termal na região de neve do Japão. Ali ele mantém um caso com Komako, gueixa de montanha, e se deixa fixar por outra mulher, Yoko, que conhece no trem.
A frase de abertura, na transliteração do japonês, é esta:
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“Kokkyō no nagai tonneru o nukeru to yukiguni de atta.”
Yasunari Kawabata, Yukiguni (País das Neves), 1948.
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São quatro peças. Kokkyō (fronteira entre províncias) aponta a linha antiga entre Kōzuke e Echigo, hoje as províncias de Gunma e Niigata. Nagai tonneru (longo túnel) é o túnel Shimizu, aberto pela ferrovia em 1931 por baixo das montanhas que separam as duas regiões.
Nukeru to (ao atravessar, e então) amarra a travessia ao que vem depois, como quem diz que a saída revelou alguma paisagem. Yukiguni de atta (era o país das neves) fecha com um verbo de estado: o lugar simplesmente estava ali, esperando quem saísse da escuridão.
Nenhuma das quatro peças nomeia quem viaja. A gramática japonesa trata o recurso como omissão do sujeito: quando o contexto deixa claro quem age, o falante cala a pessoa. Na primeira linha de um romance não há contexto anterior, e a omissão obriga quem lê a ocupar o lugar vazio.
O ocupante oficial é Shimamura. Ele só ganha nome algumas frases adiante, quando uma moça sentada no vagão se levanta e abre a janela diante dele. Até ali, quem vê a neve branca sob o céu noturno é quem está com o livro nas mãos.
Kawabata sabia o peso daquela linha. Levou treze anos, de 1935 a 1948, publicando, cortando e remontando os capítulos. A abertura sobreviveu a todas as versões, e a ausência do viajante nela nunca foi corrigida.
O romance inteiro trabalha com o mesmo olhar sem dono. Pouco depois do túnel, a janela do trem escurece e vira espelho, e Shimamura vê o rosto de Yoko refletido no vidro, sobreposto às luzes do campo que passam por fora. A cena é narrada como imagem; só depois o texto conta quem é a moça.
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Sem sujeito, a frase entrega a quem lê o lugar de quem vê.
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II A Engrenagem
II, O trem que o inglês exigiu
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Seidensticker resolveu a primeira frase assim:
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“The train came out of the long tunnel into the snow country.”
Edward Seidensticker, Snow Country, 1956.
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Em português, a frase inglesa diz que o trem saiu do longo túnel para dentro do país das neves. A informação está inteira. O lugar de quem olha mudou.
O linguista japonês Yoshihiko Ikegami, professor da Universidade de Tóquio, descreveu as duas posturas em Suru to naru no gengogaku (A linguística do fazer e do tornar-se), de 1981. Para ele, o japonês tende a narrar a cena como algo que acontece diante de alguém que está dentro dela; o inglês tende a narrar um agente fazendo uma ação, visto de fora.
Três perdas cabem na troca.
A primeira é a posição da câmera. Com o trem como sujeito, o leitor passa a ver a composição por fora, pequena na paisagem. No original, ele está sentado no banco, e o túnel acaba na cara dele.
A segunda é a ordem da revelação. Nukeru to cria uma pausa: primeiro a escuridão, depois o clarão. A versão inglesa transforma o país das neves em destino de um movimento, um complemento de lugar na cauda da frase, e a surpresa vira endereço.
A terceira é o verbo. Yukiguni de atta é um estado, algo que já estava ali. Came out é uma ação do trem. O mundo de Kawabata aparece; o de Seidensticker é alcançado.
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Quem escolhe o sujeito da frase escolhe onde o leitor fica de pé.
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O inglês não deixava saída limpa. Um pronome como we (nós) ou I (eu) inventaria um narrador que o livro não tem. Uma construção passiva soaria como relatório de ferrovia. O trem era a opção menos intrusiva, e o tradutor pagou o preço conhecido.
O português tem a saída que faltou a ele. A nossa gramática chama de sujeito oculto (o sujeito que a terminação do verbo indica sem escrever) e de oração sem sujeito (a que descreve um estado, como em "era noite") as formas que dispensam quem age. "Atravessado o longo túnel da fronteira, era o país das neves" é português correto e mantém o leitor no banco.
O recurso existe na língua, mas a escola ensina a desconfiar dele, e o texto de trabalho quase sempre abre com "eu" ou com "nós". Na prática, a câmera fica fora da cena, como na versão inglesa, sem que nenhum idioma tenha exigido isso.
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