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A Cidade Que o Leitor Constrói
Como Aqueles que se Afastam de Omelas, de 1973, entrega a decoração da cidade feliz ao leitor antes de mostrar o porão que a sustenta.
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A festa em cima, o porão embaixo
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"Descrevi a cidade em quatro páginas para o leitor acreditar nela." A frase sai de quem confunde volume de detalhe com adesão. Maquete pronta o leitor observa de fora, com as mãos no bolso, sem nada a fazer ali dentro. Existe um procedimento inverso, e ele foi levado ao limite num conto de poucas páginas publicado em 1973.
Naquele ano a editora Doubleday lançou New Dimensions 3 (Novas Dimensões 3), coletânea de ficção científica organizada por Robert Silverberg. Dentro dela estava "The Ones Who Walk Away from Omelas" ("Aqueles que se Afastam de Omelas"), de Ursula K. Le Guin, texto que receberia o prêmio Hugo de melhor conto em 1974.
O conto abre no Festival do Verão. Sinos tocando, barcos enfeitados no porto, procissão pelas ruas, crianças correndo nuas pelos Campos Verdes com cavalos de crina trançada esperando a corrida. A narradora descreve a cidade alegre por algumas centenas de palavras e então faz algo que quase nenhum narrador faz: para, admite que não sabe as leis nem o governo de Omelas e passa o serviço adiante.
Ela pede que o leitor imagine a cidade conforme o próprio gosto pedir. Se o leitor quiser trens sobre trilhos, que ponha trens. Se achar a alegria implausível sem uma droga local, existe a drooz (a substância doce e inofensiva que circula pelas ruas do conto). Se nada daquilo bastar, ela oferece acrescentar uma festa carnal ao roteiro, escrito com todas as letras e sem constrangimento.
A oferta não é retórica de aquecimento. A narradora repete que a cidade pertence a quem lê, autoriza acrescentar aquecimento central, metrô, banhos públicos e qualquer aparelho que o leitor considere indispensável para acreditar em gente feliz, e segue adiante com a versão que ele montar.
O leitor aceita o convite, escolhe o clima, mobília a praça, aprova a cidade. Só depois de aprovada a cidade a narradora avisa que falta mencionar um detalhe, e abre a porta de um porão.
Vamos desmontar a cena em peças.
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I A Desmontagem
I, O narrador entrega o pincel ao leitor
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Ursula K. Le Guin, escritora norte-americana então com quarenta e três anos, monta a armadilha do conto em cinco peças, e cada peça prepara a seguinte.
A primeira peça é a festa. O texto abre em movimento, com som e cor concretos: clarins, sinos, andorinhas, musgo entre as pedras, o mar ao norte da cidade. O leitor entra numa cena viva antes de receber qualquer ideia para discutir.
A segunda peça é a confissão. A narradora interrompe a descrição e declara não saber os detalhes do lugar: não sabe se há monarquia, bolsa de valores, polícia ou bomba. A confissão desarma a desconfiança habitual do leitor, porque narrador que admite limite parece estar contando a verdade sobre o resto.
A terceira peça é a oferta em escada. Ela começa cedendo detalhes pequenos, sobe para a tecnologia da cidade e termina no item que nenhum narrador costuma pôr à disposição de quem lê, a festa carnal do parágrafo seguinte. Cada degrau amplia a licença do leitor, e a cidade passa a ser feita com material trazido de casa por ele.
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“Se uma orgia ajudar, não hesitem.”
Ursula K. Le Guin, Aqueles que se Afastam de Omelas, 1973, conto publicado em New Dimensions 3.
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A quarta peça é a pergunta direta. Depois de oferecer até a festa carnal, a narradora pergunta ao leitor se ele acredita na cidade, no festival, na alegria daquela gente. E responde por ele: não, provavelmente não acreditam. A frase reconhece em voz alta a resistência que já estava na cabeça de quem lê.
A quinta peça é o porão. Num cômodo sem janela, debaixo de um dos belos prédios públicos de Omelas ou no subsolo de uma casa espaçosa, há uma criança sentada. Três passos de comprimento, dois de largura, esfregões velhos num canto, chão de terra úmida. A criança tem perto de dez anos e parece ter seis. Recebe meia tigela de fubá com gordura por dia e repete que vai se comportar. Toda a felicidade da cidade, a saúde das crianças, a colheita, o clima ameno e a sabedoria dos estudiosos dependem daquela criança continuar exatamente ali, sem uma palavra gentil.
Le Guin contou, na nota que acompanha o conto em As Doze Moradas do Vento, de 1975, que a ideia veio do ensaio "O Filósofo Moral e a Vida Moral", de William James, de 1891, e que o nome Omelas nasceu de uma placa de estrada lida pelo retrovisor: Salem, Oregon, ao contrário.
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O consentimento entra no leitor pela mão dele mesmo. Quem mobiliou a praça, escolheu o clima e autorizou a festa assinou embaixo da cidade antes de conhecer o preço cobrado no subsolo.
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II A Engrenagem
II, A cumplicidade construída
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O procedimento tem nome utilizável fora do conto: construção cúmplice. Você recusa o inventário completo, entrega ao leitor as decisões de superfície e guarda para depois o fato que muda o significado de tudo que ele acabou de escolher.
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Cena montada pelo autor o leitor julga; cena montada pelo leitor o leitor defende.
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Funcionar exige três condições simultâneas. As escolhas cedidas precisam ser reais e reversíveis, do tipo que o leitor faria sozinho. O fato guardado precisa reorganizar o sentido do que veio antes, nunca apenas somar informação. E a entrega precisa acontecer depois da adesão, com a cidade já aprovada.
Falhar tem forma reconhecível. O autor avisa no primeiro parágrafo que algo terrível se esconde por trás da alegria, o leitor lê a descrição da festa com o dedo no gatilho e chega ao porão sem ter apostado nada. Sobra denúncia, some cumplicidade.
O primeiro teste é o do inventário. Conte quantos itens do cenário você fixou e quantos deixou o leitor escolher. Cenário cem por cento fixado não deixa espaço para ninguém entrar.
O segundo teste é o da reversibilidade. Confira se as escolhas que você cedeu poderiam ser outras sem quebrar o texto. Trens, clima e mobília aceitam variação; o porão não aceita, por isso o porão fica com o autor.
O terceiro teste é o do momento. Localize a linha em que o leitor já comprou o cenário. A informação decisiva entra depois dessa linha, nunca antes.
O quarto teste é o da resistência nomeada. Verifique se o texto diz em voz alta a objeção que o leitor está formulando em silêncio. Objeção nomeada pelo autor perde a força de arma e vira ponte.
O quinto teste é o da conta que sobra. Meça o que o leitor tem a perder quando o fato guardado aparece. Se ele não perde nada, porque nada investiu, a revelação acerta o vazio.
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Quem descreve tudo entrega um quadro; quem cede a decoração entrega uma escritura assinada.
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O raciocínio governa texto longe da ficção: apresentação de projeto que deixa o cliente escolher o escopo antes de mostrar a restrição de prazo, artigo técnico que faz o leitor prever o resultado do experimento antes do gráfico, relatório que pede ao conselho o palpite sobre o número antes de abrir a planilha.
Le Guin não resolve o dilema pelo leitor. No fim, algumas pessoas de Omelas visitam o porão, voltam para casa em silêncio e depois de alguns dias saem da cidade sozinhas, atravessam os portões e seguem na direção das montanhas. O conto declara que o destino delas não pode ser descrito e que talvez nem exista, e mesmo assim as pessoas que partem parecem saber para onde vão. O que aconteceria com a cidade se a criança fosse solta fica sem resposta dentro do texto, por escolha declarada da autora, que trata a saída como pergunta entregue a quem lê.
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