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As Cidades em Ordem Matemática
Como As Cidades Invisíveis, de 1972, distribui 55 cidades em onze séries de cinco e emoldura cada bloco com o diálogo entre Polo e Kublai Khan.
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Uma cidade imaginária desenhada em planta
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"Vou escrever os capítulos na ordem que a inspiração pedir." A frase costuma vir de quem confunde liberdade com ausência de forma, e o resultado quase sempre é uma pilha de trechos bonitos que o leitor larga na página quarenta. Trecho curto sem lei de distribuição continua sendo trecho curto. O mesmo material submetido a uma regra aritmética passa a ter planta baixa, e o leitor sente a planta mesmo sem conseguir descrevê-la.
Em 1972 a editora italiana Einaudi publicou Le città invisibili, de Italo Calvino, um livro montado com 55 descrições de cidades que não existem. Nenhuma delas passa de duas páginas. Cada uma tem nome próprio feminino, Diomira, Isaura, Zenóbia, Ottávia, e todas aparecem como relato do viajante veneziano Marco Polo ao imperador Kublai Khan, que ouve sentado no jardim do palácio.
As 55 cidades não estão soltas. Elas se distribuem em onze famílias temáticas de cinco exemplares cada: as cidades e a memória, as cidades e o desejo, as cidades e os signos, as cidades sutis, as cidades e as trocas, as cidades e os olhos, as cidades e o nome, as cidades e os que já se foram, as cidades e o céu, as cidades contínuas e as cidades escondidas. Onze vezes cinco fecha exatamente em 55, sem sobra e sem remendo.
O texto exibe a conta em vez de escondê-la. Toda cidade aparece precedida do nome da família e do seu número de ordem dentro dela, do primeiro ao quinto, impresso na página como se fosse a etiqueta de uma peça de arquivo. O leitor sabe, a cada virada, em que gaveta acabou de entrar.
Por cima dessa distribuição corre um segundo sistema: as cidades se agrupam em nove capítulos, e cada capítulo abre e fecha com um trecho em itálico do diálogo entre o viajante e o imperador. O livro alterna, portanto, dois registros gráficos distintos na mesma página.
Vale abrir o índice e acompanhar como as onze famílias entram e saem de cena, e o que a moldura em itálico faz com o material que ela cerca.
Vamos desmontar.
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I A Desmontagem
I, O índice que trabalha à vista
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O índice do livro ocupa várias páginas e mostra tudo antes de o leitor começar: os nove capítulos numerados, os títulos de família com seus números de ordem, e as marcações da moldura em itálico. Nada fica escondido para ser revelado depois.
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“As cidades, como os sonhos, são construídas de desejos e de medos, ainda que o fio condutor de seu discurso seja secreto.”
Italo Calvino, Le città invisibili, Einaudi, 1972, na fala do viajante Marco Polo ao imperador Kublai Khan.
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O primeiro capítulo é maior que os do miolo: traz dez cidades. O nono e último também traz dez. Os sete capítulos entre eles trazem cinco cada. Dez mais dez mais trinta e cinco fecha nas 55 anunciadas.
O capítulo de abertura funciona como escada de subida. Ele apresenta a primeira família, depois a segunda, depois a terceira, e assim por diante, com os números de ordem crescendo enquanto novas famílias vão sendo introduzidas. Ao fim do primeiro capítulo, várias famílias já estão em campo, cada uma em estágio diferente.
Nos sete capítulos do miolo a regra fica visível. Cada um começa pela peça que encerra a família mais velha ainda aberta, número cinco, e termina estreando uma família nova, número um. Uma gaveta se fecha no início e outra se abre no fim, capítulo após capítulo.
O efeito de leitura é curioso. O leitor nunca recebe duas cidades seguidas da mesma família, e mesmo assim reencontra cada família de tempos em tempos, sempre um degrau adiante. O reencontro chega com espaçamento suficiente para o tema respirar e curto o bastante para a comparação acontecer sozinha.
O nono capítulo desmonta a escada. As famílias que restavam vão sendo encerradas uma a uma, em ordem, até que a última peça da última família fecha o volume. A simetria com o capítulo de abertura é exata: o que subiu ali desce aqui.
A moldura em itálico entra em todas as junções. Antes das cidades e depois delas, o viajante e o imperador conversam sobre tabuleiros de xadrez, mapas, línguas que nenhum dos dois domina e a suspeita de que os relatos possam ser invenção. O itálico marca o registro no olho antes de a leitura começar.
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Primeiro, a etiqueta na página troca o esforço do leitor. Ele deixa de tentar adivinhar por que aquela cidade veio agora e passa a comparar a peça atual com as anteriores da mesma família, que é o trabalho que o livro quer dele.
Segundo, a moldura em itálico dá contexto sem interromper. As cidades ficam intactas, sem nenhum parágrafo de transição costurando uma na outra, porque a costura foi movida para outro plano tipográfico.
Terceiro, a distribuição cria memória de longo alcance. Duas peças da mesma família separadas por sessenta páginas conversam entre si, e cabe ao leitor perceber a conversa, o que fixa a leitura melhor que qualquer resumo.
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Falta a parte inconveniente. Um esquema desse tipo exige que todas as peças estejam prontas antes da montagem final, e obriga o autor a produzir sob encomenda a peça que a grade pede, mesmo sem vontade naquele dia.
Calvino contou em Lezioni americane, de 1988, que trabalhava com pastas separadas por assunto e que os textos foram escritos ao longo de anos, sem ordem definida. A grade apareceu na hora de organizar as pastas cheias, não na hora de começar.
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A ordem foi imposta depois, sobre material já escrito, e é essa inversão, não a inspiração de cada cidade, que produz a sensação de projeto do começo ao fim.
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II A Engrenagem
II, A grade que distribui o material
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O procedimento tem nome utilizável fora da literatura: grade de rodízio declarada. Você separa o material em famílias de tamanho igual, define uma regra fixa de alternância entre elas e imprime a etiqueta da família na superfície do texto, à vista de quem lê.
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Repetição sem espaçamento cansa; espaçamento sem etiqueta se perde.
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Funcionar exige três elementos simultâneos. Famílias com o mesmo número de peças, uma regra de alternância que ninguém precise decorar, e uma marca visível que diga a que família cada peça pertence.
Falhar é escolher famílias desiguais. Uma com onze peças e outra com duas quebram o rodízio na metade, e o autor acaba enfiando duas peças seguidas da família gorda, que é justamente o que a grade existia para evitar.
O primeiro teste é o da divisão exata. Conte suas peças e procure dois números inteiros cujo produto dê o total. Sobra na conta significa que você ainda vai cortar peça ou escrever peça, e é melhor descobrir agora que na diagramação.
O segundo teste é o da etiqueta legível. Escreva a marcação de uma peça e mostre a alguém que não leu o material. Se a pessoa não souber dizer que aquilo indica família e posição, a marcação está decorativa.
O terceiro teste é o do espaçamento sentido. Meça quantas páginas separam duas peças consecutivas da mesma família. Distância curta demais faz o leitor achar que está lendo repetição; distância longa demais apaga o vínculo.
O quarto teste é o dos dois registros. Confira se o material de ligação está tipograficamente separado do material principal, por itálico, corpo diferente ou fundo próprio. Ligação no mesmo registro obriga o leitor a descobrir sozinho quem fala, e ele erra.
O quinto teste é o da simetria de pontas. Compare a primeira seção com a última. Se a abertura introduz famílias e o fecho não as encerra na ordem inversa, o volume termina com gavetas abertas e o leitor sente falta sem saber de quê.
O sexto teste é o da retirada da grade. Embaralhe as peças ao acaso e leia dez páginas. Se a leitura embaralhada render tanto quanto a ordenada, sua grade era enfeite de sumário e não estava produzindo nenhuma comparação.
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Grade que sobrevive ao embaralhamento nunca organizou nada, apenas rotulou um material que já estava disperso.
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Fora da literatura, o mesmo raciocínio governa curso, podcast e série de conteúdo. Doze aulas divididas em quatro trilhas de três, com a trilha nomeada na tela de cada aula, ensinam mais que doze aulas em fila, porque a terceira aula de uma trilha chega carregando as duas anteriores.
A conta serve também para arquivo de newsletter e catálogo de produto. Quem chega no meio entende a lógica do conjunto pela peça que tem na mão, e a etiqueta de família entrega essa lógica sem exigir leitura de tudo.
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