|
|
Três Verbos Numa Linha Cada
Como Manuel Bandeira fez de uma nota policial sobre um carregador do morro da Babilônia um poema, só quebrando a linha.
|
O bar Vinte de Novembro, como o poema o sugere
|
| ▼ |
|
Poesia precisa de rima, de metro e de palavra bonita. É a frase de quem aprendeu literatura na escola e acha que o verso mora no vocabulário. Manuel Bandeira desmentiu a frase com uma nota de polícia, usando o vocabulário seco de um registro de jornal.
O poema saiu em Libertinagem, livro que o pernambucano publicou em 1930, no Rio de Janeiro. O título avisa de onde veio o material: Poema tirado de uma notícia de jornal. O personagem é um carregador de feira livre que mora num barracão sem número, no morro da Babilônia, e que certa noite entra num bar.
A história inteira cabe em seis versos. Não há adjetivo de pena, não há comentário do poeta, não há rima. Há um homem, um endereço, um bar, três ações e uma lagoa. Um repórter de plantão escreveria a mesma sequência em duas linhas corridas, e a nota sumiria na página entre o preço do feijão e o placar do futebol.
Bandeira não acrescentou fato. Mexeu em dois pontos: onde cada linha termina e o que vai sozinho na última linha. Com esses dois movimentos, quem passaria reto pela notícia para diante de cada verbo e sente o peso de um desfecho que o jornal trataria como rotina de plantão.
Quem escreve relatório, post ou email costuma acreditar no contrário: que a força está em achar a palavra rara e que o texto comum precisa ser enfeitado para prender. O poema de João Gostoso mostra que a disposição das palavras na página carrega sentido, às vezes mais do que a escolha delas.
O caso interessa a quem nunca vai escrever um verso. A mesma engrenagem decide se um parágrafo de relatório é lido ou pulado, se o aviso importante de um email chega a ser visto, se a frase principal de um post aparece no celular antes do botão de ver mais.
Na faixa I, os seis versos na íntegra, quem era João Gostoso segundo o poema e o que cada quebra de linha faz com o fato.
Continue lendo ↓
|
| |
| | |
|
I A Desmontagem
I, Seis versos tirados do jornal
|
| |
| |
|
Manuel Bandeira, nascido no Recife em 1886, tinha 44 anos quando Libertinagem chegou às livrarias. O livro reúne a fase modernista do poeta, a do verso livre (verso sem número fixo de sílabas e sem rima obrigatória), e o poema sobre João Gostoso está entre os mais curtos do volume. As barras abaixo marcam onde Bandeira quebra cada linha:
|
|
“João Gostoso era carregador de feira livre e morava no morro da Babilônia num barracão sem número / Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro / Bebeu / Cantou / Dançou / Depois se atirou na lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.”
Manuel Bandeira, Libertinagem, 1930.
|
|
| |
|
O primeiro verso é o mais longo e o menos poético. Tem sujeito, ofício, bairro e moradia, na ordem de um boletim de ocorrência. Barracão sem número é dado de cartório: o homem não tem endereço que um carteiro encontre.
O morro da Babilônia fica no Leme, zona sul do Rio. A feira livre é onde João Gostoso ganhava a vida levando no ombro as compras dos outros. O apelido, Gostoso, é o único traço afetivo do poema, e vem da rua, dos colegas de feira, nunca do poeta.
O segundo verso marca tempo e lugar: uma noite, o bar Vinte de Novembro. Ainda é prosa de notícia, com verbo no passado e complemento inteiro.
Então vem a quebra. Bebeu, Cantou, Dançou: três verbos, um por linha, sem objeto, sem advérbio, sem vírgula ligando um ao outro. Na nota de jornal, a sequência caberia numa oração só, lida num segundo. No poema, cada verbo ocupa uma linha e o branco à direita dele obriga o olho a descer. Quem lê atravessa três pausas antes de chegar ao desfecho.
As pausas mudam o que os verbos significam. Separados, eles deixam de ser um resumo da noite e viram três momentos de alegria, cada um com duração própria. O carregador sem número na porta ganha uma festa, e quanto mais curta a linha, mais tempo quem lê passa com ele feliz.
O último verso desfaz a leveza. Volta a ser comprido, volta à sintaxe de jornal e entrega o desfecho no mesmo tom neutro da abertura. A palavra depois cola o afogamento à dança sem explicar nada.
O poema não dá motivo. Bandeira não sugere dívida, briga ou desgosto; o texto para no afogamento e deixa a causa fora do papel, como a notícia deixava. Libertinagem também não informa o jornal nem a data da nota original: o título é a única indicação de origem que o poeta deixou no livro, e a leitura tem de se virar com os seis versos.
|
| |
|
Bandeira manteve os fatos da notícia e redistribuiu o tempo que quem lê passa em cada um.
|
|
| |
| | |
|
|
| |
|
II A Engrenagem
II, A linha que obriga a parar
|
| |
| |
|
O mecanismo pode ser chamado de pausa gráfica: o espaço em branco no fim da linha funciona como pontuação, mais forte que a vírgula. Na prosa, quem controla a velocidade da leitura são os sinais; no verso livre, quem controla é a margem.
Bandeira chegou ao recurso por escolha de campo. Em 1922, na Semana de Arte Moderna, no Theatro Municipal paulistano, Ronald de Carvalho leu ao público o poema Os sapos, em que Bandeira debochava dos parnasianos (os poetas da rima rica e do metro contado nos dedos). A plateia vaiou. Oito anos depois, o poema de João Gostoso levava a provocação ao limite: nem metro, nem rima, nem palavra nobre.
Três peças fazem a engrenagem girar.
A primeira é o contraste de comprimento. O verso inicial tem 17 palavras; o segundo, 9; os três seguintes, uma cada; o último, 11. O olho acostumado ao ritmo da notícia tropeça na linha curta, e o tropeço é o efeito.
A segunda é a falta de conectivo. Sem o e entre os verbos, cada ação fica solta, como item de lista. A gramática chama o recurso de assíndeto (a omissão proposital da conjunção entre termos em sequência), e ele acelera a frase na prosa; no verso, somado à quebra, faz o contrário e isola cada ação.
A terceira é o verso final longo e plano. Depois de três linhas curtas, a sentença comprida devolve o ritmo do jornal, e a volta ao tom neutro pesa mais do que um lamento pesaria. O poeta não usa ponto de exclamação nem adjetivo de dor; deixa a frase comum carregar a notícia.
|
| |
|
Linha curta faz sentir, linha longa faz saber: ponha na curta o que importa sentir e na longa o que importa saber.
|
|
| |
|
A manobra tem limite. Se todo verso for curto, a pausa vira tique e perde força. O poema funciona porque só três linhas, das seis, descem até uma palavra. Na prosa vale a mesma conta para o parágrafo de uma frase só: um por página chama atenção, dez seguidos cansam.
O recurso também exige material neutro em volta. As linhas curtas só brilham porque as longas são secas. Se o primeiro verso viesse cheio de adjetivo, a quebra dos três verbos pareceria mais um enfeite, e a nota policial perderia a frieza que a faz doer.
|
| | |
|