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O Parágrafo Que Muda de Exemplar
Como o Dicionário Khazar, de 1984, saiu em duas tiragens iguais palavra por palavra, com um parágrafo divergente perto do fim.
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Dois exemplares abertos lado a lado
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"Mandei o mesmo arquivo para os dois leitores, para a leitura sair igual." A frase sai de quem trata o exemplar impresso como embalagem neutra do texto. O objeto que chega à mão de quem lê pode ser peça de engenharia, e não recipiente. Um romance publicado em Belgrado em 1984 levou a ideia ao extremo.
Naquele ano a editora Prosveta pôs nas livrarias Hazarski rečnik (Dicionário Khazar), de Milorad Pavić, professor de literatura sérvia na Universidade de Belgrado. O subtítulo anunciava o projeto sem rodeio: romance-léxico em cem mil palavras, ou seja, um romance montado como verbete de dicionário.
O livro não tem capítulos na ordem habitual. Ele se organiza em três dicionários sobre um povo desaparecido, o Livro Vermelho com as fontes cristãs, o Livro Verde com as fontes islâmicas e o Livro Amarelo com as fontes hebraicas, cada um com entradas em ordem alfabética e remissões cruzadas. Quem lê escolhe por onde entrar e em que ordem seguir.
Nas notas preliminares, sob o título de instruções de uso, o autor avisa que o volume foi impresso em dois exemplares, um masculino e um feminino. Palavra por palavra, os dois correm idênticos por quase todo o livro. Perto do fim, um parágrafo muda.
O aviso entrega a existência da divergência e esconde o conteúdo dela. Quem comprou um exemplar fica com metade da informação, e não existe errata, apêndice nem nota de rodapé que resolva a pendência dentro do próprio volume. A livraria vendia as duas versões lado a lado, com a indicação impressa na capa, e o comprador levava uma delas sem saber o que estava deixando na prateleira.
Pavić escreve na mesma nota que o leitor curioso pelo trecho ausente precisa procurar alguém que tenha o outro exemplar, sentar ao lado dessa pessoa e ler as duas passagens juntos. A leitura termina, por projeto, num encontro entre duas pessoas.
Vamos desmontar a cena em peças.
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I A Desmontagem
I, O aviso que divide a tiragem
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Milorad Pavić, escritor e historiador da literatura sérvia, então com cinquenta e cinco anos, monta o efeito em cinco peças, e cada peça segura a seguinte.
A primeira peça é o formato. Dicionário se lê por salto: entra-se por uma entrada, segue-se uma remissão, abandona-se o percurso no meio. Quem abre o livro já está com a mão no comando da ordem de leitura e aceita, sem estranhar, que o volume seja um objeto manipulável.
A segunda peça é o aviso antecipado. Antes do corpo do texto, nas instruções de uso, o autor declara as duas tiragens e declara também o tamanho da divergência: um parágrafo. Nenhuma pista sobre o conteúdo, nenhuma página indicada. O leitor começa o romance já sabendo que carrega um exemplar incompleto de informação.
A terceira peça é a semelhança quase total. Capa, sumário, entradas, apêndices e a ordem dos três livros coloridos correm iguais. A marca do exemplar aparece na indicação de compra, não no miolo. Quem lê passa centenas de páginas sem encontrar sinal da bifurcação, e a expectativa vai se acomodando até virar esquecimento.
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“Este dicionário foi impresso em dois exemplares, o masculino e o feminino.”
Milorad Pavić, Dicionário Khazar, 1984, notas preliminares.
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A quarta peça é a posição do trecho divergente. Ele fica no Livro Vermelho, no fim do relato de Dorothea Schultz, a estudiosa que, em Istambul, recebe das mãos do doutor Abu Kabir Muawia as fotocópias de documentos sobre os khazares. Nos dois exemplares os dedos dela tocam o polegar dele, e a personagem sente que passado e futuro se encostaram naquele contato.
Daí em diante os dois textos seguem caminhos distintos. Num exemplar a personagem mergulha na leitura, perde o fio das linhas, volta a si e conclui que aprendeu mais com o que deixou de ler do que com o que leu. No outro, o mesmo toque no polegar acende um pensamento de outra ordem: ela poderia puxar o gatilho da arma que carrega, ali mesmo, naquele segundo.
A quinta peça é a instrução de encerramento. O autor não promete revelar a variante em edição futura nem em posfácio. Ele manda o leitor atrás de outra pessoa. O livro só fecha em par, e a última operação de leitura acontece fora da página, com dois exemplares abertos na mesma mesa.
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Um parágrafo trocado converte quem lê em portador de informação parcial e o empurra para procurar outro leitor. A curiosidade deixa de ser sentimento privado e vira tarefa com endereço: encontrar quem tem o volume complementar.
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II A Engrenagem
II, A variante pareada
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O procedimento tem nome utilizável fora do romance: variante pareada. Você publica duas versões idênticas de um mesmo texto, declara na abertura que existe um trecho divergente, coloca esse trecho depois do ponto em que o leitor já investiu horas e não oferece nenhum meio interno de resolver a pendência.
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Texto igual para todos se comenta; texto que diverge por uma linha se compara em voz alta, com o outro exemplar na mesa.
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Funcionar exige quatro condições ao mesmo tempo. A declaração vem no começo, porque divergência descoberta por acaso vira suspeita de erro gráfico. A divergência mora perto do fim, porque o leitor precisa ter investido antes de sentir falta. O trecho divergente muda o sentido de um gesto já visto, sem alterar o enredo, porque enredo diferente cria dois livros e destrói a comparação. E o volume não traz em lugar nenhum a outra versão, porque a ausência é o motor.
Falhar tem forma reconhecível. Alguém troca a cor da capa, a dedicatória ou a ilustração de guarda, anuncia duas edições e ninguém procura ninguém. Divergência decorativa produz item de colecionador. Divergência que altera o significado de uma cena produz conversa.
O primeiro teste é o da declaração. Confira se o leitor sabe da existência do trecho ausente antes de começar. Segredo não declarado não gera busca, gera reclamação com a gráfica.
O segundo teste é o do relógio. Meça quantas páginas o leitor percorre antes de chegar à bifurcação. Perto do começo, ele abandona sem prejuízo; perto do fim, larga o livro devendo uma linha.
O terceiro teste é o da equivalência. Verifique se as duas versões continuam plausíveis como final do mesmo percurso. Nenhuma delas pode parecer a versão certa, sob pena de a outra virar rascunho.
O quarto teste é o da dependência. Procure qualquer caminho interno que resolva a curiosidade sem uma segunda pessoa. Se existir, o leitor usa esse caminho e ninguém sai da cadeira.
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Ausência declarada vale mais que revelação entregue: o leitor só levanta da poltrona quando falta uma linha que ele sabe que existe.
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O raciocínio governa texto longe da ficção: manual de treinamento distribuído em dois cadernos com um passo divergente, para as duplas conferirem juntas; relatório entregue às duas áreas com um parágrafo de conclusão distinto, que só se resolve na reunião; material de curso em que cada aluno recebe um exemplo próprio e a turma monta o quadro completo somando os exemplos.
Um ponto segue sem resposta pública. Pavić nunca explicou o critério que definiu qual passagem entraria em qual tiragem. Em entrevistas ele repetia que a divergência trata de como homem e mulher percebem o mundo, sem descrever a decisão de escrita, e nenhum caderno de trabalho publicado registra o momento em que ele separou as duas versões. Documentado está o texto das duas tiragens e a nota de instruções; o método interno segue fora de registro, e o próprio autor tratava a pergunta como parte do jogo.
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