|
|
A Nota de Rodapé que Toma o Livro
Como Pálido Fogo, de 1962, entrega o poema de 999 versos logo na abertura e deixa o comentarista dominar o volume pelas notas.
|
Um poema cercado de notas de rodapé
|
| ▼ |
|
"A nota de rodapé é só apoio, ninguém lê." A frase costuma sair de quem trata o aparato crítico como depósito do que não coube no corpo do texto. Aparato usado como depósito realmente não é lido. O mesmo aparato entregue a uma voz com interesse próprio passa a puxar a leitura sozinho, e o leitor se pega virando página atrás do comentário, sem pressa nenhuma de voltar ao texto comentado.
Em 1962 a editora nova-iorquina G. P. Putnam’s Sons publicou Pale Fire, de Vladimir Nabokov, um volume montado como se fosse edição crítica de um poema póstumo. O livro tem quatro partes na seguinte ordem: Prefácio, poema, Comentário e Índice remissivo. Nenhuma delas se apresenta como ficção; todas imitam o formato de um trabalho acadêmico comum.
O poema vem inteiro, sem cortes, logo depois do Prefácio. São 999 versos em dísticos rimados (pares de versos que rimam entre si), distribuídos em quatro cantos: o primeiro vai do verso 1 ao 166, o segundo do 167 ao 500, o terceiro do 501 ao 834, o quarto do 835 ao 999. O autor fictício se chama John Shade, professor num campus americano, e o assunto do poema é a filha morta, a insônia e a suspeita de que exista alguma ordem por trás do acaso.
Quem organiza o volume é Charles Kinbote, vizinho e colega de Shade, que assina o Prefácio, as notas e o Índice. O Comentário ocupa a maior parte do volume, muito além do que o poema tem de extensão. Verso a verso, Kinbote explica o que Shade quis dizer, e o que Shade quis dizer vai virando, nota após nota, a história de um rei deposto de um país chamado Zembla.
Vale ler o Prefácio e o primeiro punhado de notas seguidos, prestando atenção no ponto exato em que o comentário para de comentar.
Vamos desmontar.
Continue lendo ↓
|
| |
| | |
|
I A Desmontagem
I, O aparato que engorda até virar o livro
|
| |
| |
|
O Prefácio já entrega o mecanismo antes de qualquer verso. Kinbote descreve o manuscrito, conta como obteve as fichas de Shade, reclama dos outros professores do departamento, e no meio das providências técnicas encaixa uma instrução de leitura que ninguém pediu.
|
|
“Sem as minhas notas, o texto de Shade simplesmente não tem realidade humana alguma.”
Vladimir Nabokov, Pale Fire, G. P. Putnam’s Sons, 1962, no Prefácio assinado pelo comentarista Charles Kinbote.
|
|
| |
|
A mesma página recomenda ao leitor que compre um segundo exemplar do livro, para manter o poema aberto ao lado das notas, ou que recorte as páginas do poema e prenda as tiras no espelho. A recomendação parece serviço ao leitor e funciona como confissão: o organizador sabe que o volume não se lê em linha reta.
As primeiras notas ainda se comportam. Uma identifica o pássaro do verso de abertura, outra localiza a casa do poeta, outra corrige uma data. O formato é o de qualquer edição anotada: número do verso, trecho citado em negrito, explicação breve.
A degradação começa devagar. Uma nota sobre um detalhe qualquer da paisagem abre espaço para uma lembrança do comentarista, a lembrança pede um parágrafo de contexto, e o contexto vem de um reino distante que o poema nunca mencionou. Quando o leitor percebe, está lendo uma fuga de palácio por um túnel, com data, nome de guarda e descrição de armário.
Ao longo do Comentário, a matéria de Zembla se organiza numa narrativa contínua e cronológica: a revolução, a prisão do rei Carlos, o Amado, a travessia das montanhas, a chegada ao campus americano sob nome falso, e a aproximação lenta de um assassino chamado Gradus. Cada etapa dessa história aparece pendurada num verso que trata de outra coisa.
O Índice remissivo fecha a armadilha. Ele indexa Zembla, o rei, os cortesãos e o próprio Kinbote com fartura de subentradas, enquanto o poeta assassinado recebe um verbete magro. Um índice é o lugar onde o organizador decide o que existe no livro, e a decisão está impressa ali.
|
|
Primeiro, a ordem de leitura deixa de existir. O texto manda o leitor pular do poema para a nota e da nota para outra nota, e o percurso vira escolha de quem lê, o que transfere a responsabilidade do trajeto para fora da página.
Segundo, o formato acadêmico funciona como salvo-conduto. Número de verso, itálico e abreviação criam a expectativa de neutralidade, e a expectativa sustenta por muito tempo o disparate que está sendo contado.
Terceiro, a desproporção é o enredo. Não existe cena em que alguém anuncie a tomada do volume; a tomada acontece em contagem de páginas, e o leitor mede sem precisar que expliquem.
|
|
| |
|
Falta o incômodo. O poema de Shade é bom o bastante para se sustentar sozinho, e o leitor que se apega a ele passa metade do livro irritado com o intruso. A irritação faz parte do projeto, mas custa leitores no caminho.
|
|
O comentário não contradiz o poema em nenhum momento; ele apenas ocupa mais espaço, e o espaço ocupado decide de quem é o livro.
|
|
| | |
|
|
| |
|
II A Engrenagem
II, A moldura que engole o quadro
|
| |
| |
|
O procedimento tem nome utilizável fora da literatura: aparato narrador. Você entrega o material principal completo e sem defesa, e depois constrói ao redor dele uma camada de serviço, notas, glossário, índice, legendas, com voz própria e interesse próprio.
|
|
Camada de serviço sem voz é apêndice; camada de serviço com voz é personagem.
|
|
Funcionar exige três elementos simultâneos. Material principal íntegro e publicável por conta própria, uma camada de serviço num formato que o leitor já reconheça, e um organizador com agenda visível para quem presta atenção.
Falhar é escrever a camada de serviço no mesmo registro do material principal. Sem a mudança de formato, o leitor lê tudo como um texto só, e a invasão vira apenas digressão do mesmo autor.
O primeiro teste é o da integridade do miolo. Publique o material principal sozinho e leia. Se ele não se sustenta sem o aparato, você não tem duas camadas, tem um texto capenga com muletas ao redor.
O segundo teste é o da desproporção medida. Conte as palavras das duas camadas. Aparato com o dobro ou o triplo do material comentado é o que produz a sensação de tomada; aparato do mesmo tamanho passa por edição caprichada.
O terceiro teste é o do formato emprestado. Mostre uma página do aparato a alguém e pergunte que tipo de documento parece. Se a resposta vier com o nome de um gênero real, nota de rodapé, verbete, ficha técnica, o empréstimo está funcionando.
O quarto teste é o da agenda vazando. Escolha três entradas ao acaso e sublinhe tudo que fala do organizador em vez de falar do material. Entradas em que essa marcação cresce ao longo do texto indicam progressão; marcação constante indica personagem parado.
O quinto teste é o do índice honesto. Monte a lista de entradas e conte quantas linhas cada assunto recebe. A lista denuncia o dono do livro mais rápido que qualquer parágrafo, e o leitor atento lê a denúncia.
O sexto teste é o da retirada do aparato. Apague a camada de serviço inteira e ofereça o material principal a um leitor novo. Se ele não sentir falta de nada, o aparato era enfeite; se ele perguntar quem escreveu as notas, você construiu um personagem.
|
|
Aparato que apenas explica pode ser cortado sem prejuízo; aparato que quer alguma coisa do leitor já é narrativa e não sai do livro.
|
|
|
Fora da ficção, o mesmo raciocínio governa relatório anotado, documentação de produto e curadoria de arquivo. Um anexo com comentários assinados por quem organizou o material rende mais leitura que o material cru, porque o leitor ganha companhia e passa a ter com quem discordar.
A conta serve também para newsletter com seção de comentários do editor e para catálogo de exposição. Quem escreve a legenda de uma peça decide o que o visitante vai lembrar dela, e a legenda cabe em quarenta palavras.
|
| | |
|