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33% escolheram O Terceiro Homem. Sai em 22/09.
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Menos Dez Por Cento
Como um bilhete rabiscado no rodapé de uma carta de recusa deu ao autor de Sobre a Escrita a conta que ele passou a aplicar em todo original.
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O bilhete à mão no rodapé da recusa
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O autor entrega o original e diz a frase de praxe: "Já cortei tudo que dava para cortar." Ela sai de quem releu três vezes, achou cada parágrafo necessário e tomou a familiaridade com o texto por medida de tamanho justo. Quem lê depois devolve outro recado.
O recado chega com frequência às respostas desta newsletter. Na avaliação de uma edição recente, três leitores escreveram que houve excesso de argumento e que dava para ser mais conciso. Outros quinze pediram que o exercício da oficina saísse aplicado ao livro que estão escrevendo agora, com o corte feito na frente deles, e não descrito em tese. As duas anotações pedem a mesma ferramenta.
O pedido dos quinze e a queixa dos três descrevem o mesmo impasse por dois lados. Quem escreve um livro chega ao fim do capítulo sem saber medir o que produziu, e quem lê sente o peso antes de conseguir apontar a linha sobrando. Nenhum dos dois consegue resolver com uma leitura a mais.
Cortar por gosto raramente resolve, porque o gosto do autor foi formado durante a escrita. Cada frase que ficou de pé tem uma justificativa pronta na cabeça de quem escreveu: aquela explicação evita uma dúvida, aquele reforço protege contra a má interpretação, aquele exemplo serve ao leitor distraído. O autor que revisa perguntando "posso tirar?" ouve o próprio texto respondendo que não a cada parada.
Existe um instrumento antigo que contorna a pergunta sem tentar vencê-la, e ele não pede julgamento nenhum: pede aritmética. O instrumento cabe numa linha, foi escrito à mão no rodapé de uma carta de recusa e ficou guardado por décadas pelo escritor que o recebeu, até virar página de livro no ano 2000.
Na faixa I, o bilhete inteiro, quem o escreveu, o que ele diagnostica e por que a última linha dele resolve o que as outras duas não resolviam.
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I A Desmontagem
I, O bilhete no rodapé da recusa
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Aos catorze anos, Stephen King pregou na parede do quarto, na casa da família em Durham, no estado americano do Maine, um prego onde espetava as cartas de recusa que as revistas de ficção devolviam pelo correio. Aos dezesseis, o prego não aguentava mais o peso do maço e foi trocado por um espeque maior. Todas as cartas eram impressas, iguais, sem uma palavra dirigida a ele.
Uma delas veio diferente. No rodapé do formulário impresso havia um bilhete escrito à mão por um editor que King não nomeia em "Sobre a Escrita" (On Writing), o livro de memórias e ofício que ele publicou em 2000. O bilhete tem três movimentos em quatro linhas.
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“Não está ruim, mas está INCHADO. Você precisa cortar para caber. Fórmula: 2ª versão = 1ª versão menos 10%. Boa sorte.”
Stephen King, Sobre a Escrita, 2000.
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O primeiro movimento é o diagnóstico, e ele cabe em um adjetivo, escrito em caixa alta. O editor não lista defeitos, não aponta a cena fraca, não discute personagem. Nomeia um estado do texto, inchaço, que qualquer autor consegue reconhecer sem discordar, porque inchaço descreve volume e não qualidade.
O segundo movimento é a ordem de serviço. Revisar para o tamanho, e nada além. O editor separa a revisão de tamanho da revisão de mérito, e manda fazer uma só. Quem tenta melhorar o texto e encolhê-lo na mesma passada acaba reescrevendo frases boas e mantendo as ruins, porque a atenção fica dividida entre dois critérios que competem.
O terceiro movimento sobrevive ao esquecimento quando os outros dois já sumiram, e sobrevive por ter um número dentro. A fórmula transforma a opinião do editor em tarefa com fim: existe um alvo, existe uma hora de parar e existe um jeito de saber se o trabalho foi feito. King guardou o papel e passou a aplicar a conta em todo original, inclusive nos romances que já vendiam milhões de exemplares quando o bilhete já tinha décadas.
Repare no que a fórmula deixa de fora. Ela não diz o que cortar. Não dá lista de alvos preferenciais, não condena advérbio, não manda enxugar diálogo. O editor confiou ao autor a escolha das palavras e tirou dele apenas uma decisão, a de quando parar. É a decisão que o autor, sozinho, nunca toma.
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Um bilhete que diagnostica sem número vira opinião sobre o texto; o mesmo bilhete com uma porcentagem vira tarefa com hora de terminar.
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II A Engrenagem
II, A cota que decide sozinha
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O procedimento tem nome utilizável fora da ficção: corte por cota. Você define em palavras, antes de começar, quanto o texto precisa perder, e a revisão passa a ser a busca por onde tirar aquele volume, com o total fechando no fim.
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A porcentagem funciona porque tira do autor a pergunta que ele não consegue responder sozinho: este parágrafo merece ficar?
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A troca de pergunta é o mecanismo inteiro. "Posso tirar esta frase?" convida à defesa, e a defesa sempre vence, porque quem escreveu conhece a intenção de cada linha. "De onde saem as cem palavras que faltam?" convida à comparação, e a comparação obriga a ordenar o texto do mais dispensável para o menos, uma operação que o autor faz bem.
A cota também resolve o problema de parada. Revisão por gosto termina quando o autor cansa, e o cansaço chega em lugares diferentes a cada dia. Revisão por cota termina quando o contador de palavras mostra o número combinado, e o resultado independe do humor de quem revisa.
A execução pede três passadas separadas, nesta ordem, porque cada uma tem um alvo próprio e misturá-las devolve a indecisão.
A primeira passada tira modificador. Advérbio que repete o verbo, adjetivo que repete o substantivo, intensificador que não muda o sentido da frase. Costuma render pouco volume, entre dois e três por cento, e serve para aquecer o olho.
A segunda passada tira reforço. Frase que repete a frase anterior com outras palavras, exemplo adicional que ilustra o que o primeiro exemplo já ilustrou, explicação preventiva contra uma dúvida que o leitor não teve. Esta passada é a que responde à queixa de excesso de argumento: o argumento não sobra por ser longo, sobra por aparecer duas vezes, e a segunda vez quase sempre tem menos força que a primeira.
A terceira passada tira estrutura. Parágrafo inteiro, cena inteira, digressão inteira. Dói mais e entrega mais volume, e vem depois das outras duas por um motivo prático: quando o modificador e o reforço já saíram, o parágrafo dispensável aparece sem disfarce.
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A revisão por gosto termina quando o autor cansa; a revisão por cota termina quando o contador marca o número combinado, e o número não muda de humor.
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O instrumento tem dois limites conhecidos. Abaixo de quinhentas palavras a cota vira duas frases e a conta perde a serventia; nesse tamanho, trabalhe cortando frase inteira, sem porcentagem. E em texto de procedimento, com passo a passo que o leitor executa com a mão, a cota corta segurança: ali o volume protege contra erro, e a conta se aplica só à parte narrativa.
Dez por cento é um piso, não um teto. Quem termina a terceira passada com quinze ou vinte por cento a menos e o texto de pé encontrou um texto que estava mais inchado que a média, e a descoberta é boa notícia.
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