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A Ordem de Não Chorar
Como um conto colombiano de 1962 leva mãe e filha de trem até um túmulo e diz a emoção inteira em instruções práticas.
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Mãe e filha num vagão de trem ao meio-dia
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"Aqui o leitor precisa entender o que ela está sentindo." A frase sai de quem acabou de escrever um gesto exato e, com medo de não ser compreendido, acrescenta embaixo a linha que traduz o gesto em sentimento. A linha traduzida apaga o gesto que funcionava.
Um conto publicado na Colômbia em 1962 trabalha pelo caminho oposto, e trabalha até o fim. Em "La siesta del martes" (A Sesta de Terça-Feira), recolhido no volume "Los funerales de la Mamá Grande" (Os Funerais da Mamãe Grande), uma mulher e a filha de doze anos viajam num vagão de terceira classe, atravessando plantações de banana sob o calor de meio-dia.
O vagão vem sem cortina, com fuligem entrando pela janela aberta. A mulher carrega um ramo de flores embrulhado em jornal e uma bolsa de verniz descascado. Come biscoitos de sal com a filha, sem pressa, olhando a monotonia verde da plantação.
As duas descem às duas da tarde numa cidade fechada pela sesta, o descanso do começo da tarde que esvazia a rua e cerra as portas. Atravessam até a casa paroquial e batem na porta de tela para pedir as chaves do cemitério à irmã do padre, que abre com cara de quem foi acordada.
O motivo da viagem chega sem alarde e sem cena de choque. Uma semana antes, de madrugada, a viúva Rebeca ouviu alguém forçando a porta da sua casa, apanhou um revólver que não disparava desde os tempos do marido e atirou no escuro do corredor. O rapaz atingido tinha vinte e dois anos e se chamava Carlos Centeno. É o filho da mulher do trem.
Entre o vagão e o portão do cemitério cabe a edição inteira, porque o narrador não escreve luto, não escreve dor e não escreve coragem em lugar nenhum da viagem. Escreve instruções práticas ditas em voz baixa por uma mãe para uma menina de doze anos.
Vamos desmontar a peça em partes.
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I A Desmontagem
I, As ordens ditas antes de descer
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Gabriel García Márquez, jornalista colombiano então com trinta e cinco anos, monta a cena com quatro instruções de mãe, e cada instrução carrega aquilo que o texto se recusa a nomear.
A primeira instrução é o pente. Antes de o trem entrar na estação, a mulher manda a menina pentear-se e calçar os sapatos, que ela tinha tirado por causa do calor. Uma família a caminho de um túmulo poderia chegar desgrenhada e ninguém estranharia. A ordem do pente informa que aquela visita tem protocolo, e que o protocolo é a armadura das duas contra a cidade que vai olhá-las da janela.
A segunda instrução adia o corpo. A mãe avisa que, se a filha tem alguma necessidade a resolver, resolva agora, no trem, porque depois não haverá parada. E completa que, dali em diante, não se bebe água nem com sede. Duas frases de logística medem a duração do que vem: uma travessia a pé sob o sol, sem pausa possível, com a cidade inteira acompanhando pelas frestas.
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“Se tiveres vontade de fazer alguma coisa, faze-a agora. Depois, não bebas água nem que estejas morrendo de sede. Sobretudo, não vás chorar.”
Gabriel García Márquez, A Sesta de Terça-Feira, em Os Funerais da Mamãe Grande, 1962.
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A terceira instrução fecha a série e é a que trata do rosto: não chorar. O texto não informa em nenhuma linha que a mulher está arrasada. Informa que ela previu a lágrima da filha e a proibiu antes que aparecesse. Proibição pressupõe a força daquilo que se proíbe, e o leitor calcula sozinho o tamanho da pressão que exige uma ordem daquelas.
A quarta instrução sai do vagão e aparece no diálogo com o padre. Ele pergunta se ela nunca tentou pôr o rapaz no bom caminho. A mãe responde que o filho era um homem muito bom, que obedecia, e resume a educação inteira numa regra de fome: ela dizia a ele que nunca roubasse nada que fizesse falta a alguém para comer, e ele fazia caso.
Os objetos trabalham junto com as ordens. O ramo de flores embrulhado em jornal precisa ser molhado na pia da casa paroquial, porque as flores vieram murchando desde a saída. A bolsa de verniz descascado guarda o dinheiro contado da viagem. A mulher conta ao padre que o filho boxeava por dinheiro, que voltava das lutas com os dentes arrebentados, e que ela gastava com dentista o que ele ganhava no ringue.
Nada disso vem adjetivado. O padre registra no caderno, com a caneta quase sem tinta, nome e dados da família. A irmã dele espia a rua pela janela e avisa que tem gente do lado de fora. Os fatos entram em fila, em temperatura de cartório, e o leitor sente a temperatura oposta.
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Instrução prática dita em voz baixa carrega mais emoção que o adjetivo que a descreveria, porque quem lê precisa completar a conta sozinho.
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II A Engrenagem
II, A instrução no lugar do adjetivo
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O procedimento tem nome utilizável fora da ficção: instrução carregada. Você entrega a emoção da cena por meio de uma ordem prática que a situação exige, e deixa o nome do sentimento fora da página.
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Sentimento nomeado o leitor lê e concorda; sentimento deduzido de uma ordem o leitor descobre, e descoberta gruda.
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O mecanismo pede três condições ao mesmo tempo. A ordem precisa ser necessária dentro da cena, porque instrução decorativa vira pose de autor. A ordem precisa custar alguma coisa a quem obedece, porque exigência sem preço não revela pressão nenhuma. E a ordem precisa sair de alguém que conhece o terreno melhor que o leitor, porque a autoridade de quem fala é o que torna a exigência plausível.
A terceira condição é a que mais falha. A mãe do conto já atravessou aquela rua antes, já sabe o que uma cidade pequena faz com a família de um rapaz baleado na madrugada, e é esse conhecimento prévio que transforma "não chore" numa previsão, não num capricho.
O primeiro teste é o da necessidade. Pergunte se a ordem seria dita naquela situação por uma pessoa real com pressa. Se soa a lição de moral, o texto está falando com o leitor por cima do ombro da personagem.
O segundo teste é o do preço. Verifique o que obedecer custa. Beber água com sede é barato; renunciar à água sob o sol de meio-dia custa, e o custo é a unidade de medida do que está em jogo.
O terceiro teste é o do silêncio ao redor. Confira se algum parágrafo próximo explica a ordem. Se existe uma frase dizendo que a mãe segurava a dor com dignidade, ela rouba do leitor o trabalho que faria a cena valer.
O quarto teste é o da moldura física. Procure os objetos que sustentam a instrução: o pente, os sapatos, as flores no jornal, a bolsa. Ordem sem objeto por perto costuma ser ideia do autor disfarçada de fala.
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A emoção que o leitor deduz de uma exigência concreta pesa mais que a emoção que o narrador anuncia, e a anunciada cancela a deduzida quando as duas aparecem juntas.
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O raciocínio governa texto longe de conto literário. O relatório que descreve a decisão tomada às seis da manhã com o telefone na mão, sem qualificar a decisão de corajosa; o email de demissão que informa quem avisa quem, e em que ordem, sem parágrafo sobre o quanto aquilo é difícil; a página de produto que descreve o procedimento de troca, sem adjetivar o atendimento de humano.
O conto responde onde a viagem termina, e responde pela metade de propósito. O padre entrega as chaves, oferece um guarda-sol e sugere esperar o sol baixar, porque a vizinhança inteira já está na rua olhando a porta da casa paroquial. A mãe recusa o guarda-sol, toma a menina pela mão, pega o ramo de flores e sai para a rua. O texto acaba aí. Se as duas chegaram ao túmulo, se a multidão abriu caminho ou fechou, García Márquez não escreve, e não escreve porque a última exigência da mãe, cumprida diante de uma cidade inteira, já é o desfecho que interessa.
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