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Construção, de 1971, Gira na Última Palavra

Chico Buarque narra três vezes a queda de um operário, embaralha as palavras finais dos versos e muda o homem da cena.

Operário no alto de um andaime de obra, com tijolos empilhados e o céu ao fundo

Andaime de obra contra o céu do entardecer

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Professor de redação risca a palavra repetida e anota na margem: “Repetiu, troque por um sinônimo.” O conselho falha quando a repetição faz parte do projeto. Há texto em que o autor mantém o vocabulário de propósito e muda o sentido só pela posição das palavras.

Faça a prova com uma frase inventada agora. Escreva: “Ele entrou na sala como se fosse o dono.” Troque só a última palavra: “Ele entrou na sala como se fosse o réu.” O verbo, a sala e a comparação continuam no lugar. O homem mudou de postura e de destino, e a mudança coube numa palavra.

A parte repetida funciona como moldura (o trecho fixo da frase, reaproveitado sem alteração), e a última palavra funciona como peça móvel. Quem lê guarda a moldura na memória logo na primeira leitura e vigia só o ponto que troca. Por esse motivo a troca pesa tanto: o leitor já sabe onde olhar.

Tente uma terceira versão: “Ele saiu da sala como se fosse o dono.” Um verbo mudou na moldura, e a palavra final voltou ao lugar de origem. A frase agora conta outra cena, a do réu absolvido ou a do dono despejado. O leitor reconstrói o caso pela peça que já conhecia.

Numa canção de 1971, Chico Buarque levou o procedimento ao extremo. Contou a história de um homem três vezes, com quase as mesmas palavras, e mexeu sobretudo nos finais de verso. O vocabulário quase não cresce de uma rodada para outra; o homem da cena muda inteiro.

Para quem escreve, o caso ensina a controlar o sentido sem trocar de palavras: escolher o que fica parado, escolher o que se move e deixar o leitor perceber o movimento.

A Desmontagem abre a canção bloco por bloco e mostra as peças que nunca se movem e as que trocam de lugar a cada rodada.

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I  A Desmontagem

Três subidas no mesmo andaime

 
 

Construção é a faixa-título (a música que dá nome ao disco) do álbum que Francisco Buarque de Hollanda, o Chico Buarque, lançou em 1971, com arranjo de orquestra do maestro Rogério Duprat. A gravação passa de seis minutos e narra um dia só.

O protagonista é um operário da construção civil, e a letra nunca diz o nome dele. Ele aparece pelos verbos no passado que abrem quase todos os versos: amou, beijou, subiu, ergueu, sentou, comeu, bebeu, dançou, tropeçou, flutuou. O dia vai do beijo na mulher à queda do alto da obra.

A letra também não diz se ele escorregou ou pulou. Chico deixou a causa fora do texto: o verso registra que ele “tropeçou no céu” e “flutuou no ar”, imagens que servem às duas leituras. A canção trata a queda como fato consumado e gasta os versos com o efeito dela.

Cada verso termina numa proparoxítona (palavra com a sílaba forte na antepenúltima, como “sábado” e “máquina”). São versos longos, de doze sílabas poéticas (as que o ouvido conta até a última sílaba forte), e a maioria repete o mesmo desenho: gesto no passado, complemento e uma comparação.

O primeiro bloco tem 17 versos e abre assim: “Amou daquela vez como se fosse a última / Beijou sua mulher como se fosse a última” (Chico Buarque, Construção, 1971). Dez dos 17 passam por “como se”.

A primeira metade narra o gesto; a palavra final diz a que o gesto se parece. O operário sobe a obra “como se fosse máquina”, senta para descansar “como se fosse sábado” e come feijão com arroz “como se fosse um príncipe”.

Nos três últimos versos, o homem vira objeto. Cai “feito um pacote flácido”, agoniza no passeio público e, no verso derradeiro, morre “atrapalhando o tráfego”. A queda vale pelo incômodo que causa a quem passa.

O segundo bloco repete os 17 começos na mesma ordem e embaralha as palavras finais. Treze delas já estavam na letra, algumas com outro gênero ou número, e só mudaram de verso. Quatro chegam novas: “pródigo”, “lógico”, “máximo” e “próximo”.

O percurso de três delas mostra o efeito. “Tímido”, que era o passo do homem atravessando a rua, vira o pacote no chão. “Bêbado”, que era a comparação do tropeço no céu, vira o passo na rua. E o último verso troca o tráfego pelo “público”: o corpo deixa de ser obstáculo no trânsito e vira espetáculo para quem assiste.

O terceiro bloco encolhe para sete versos e recombina finais dos dois anteriores. O homem agora beija a mulher “como se fosse lógico”. As paredes que ele ergueu ficam “flácidas”, o adjetivo que antes era do corpo. E o incômodo muda de alvo mais uma vez: ele morre “atrapalhando o sábado”.

Depois do terceiro bloco, a gravação emenda estrofes de Deus lhe Pague, outra faixa do mesmo disco; a desmontagem de hoje fica nos 41 versos de Construção.

Construção conta o mesmo dia três vezes: o começo do verso fica parado, e a palavra final, trocada de lugar, muda quem é o homem da cena.

 
 
 
 
 

II  A Engrenagem

A palavra muda de dono

 
 

A engrenagem de Construção tem duas peças: uma moldura que o ouvido decora e uma ponta que se move. A moldura é o começo do verso, idêntico nos dois primeiros blocos. A ponta é a proparoxítona que termina o verso. Com a moldura parada, a atenção do ouvinte cai inteira sobre a ponta, e qualquer troca ali soa como notícia.

A proparoxítona ajuda a ponta a aparecer. Em português, a maioria das palavras leva a sílaba forte na penúltima, como “casa” e “tijolo”; a proparoxítona é minoria e soa marcada. Na canção, cada verso sobe até a sílaba forte e desce em duas fracas: “má-qui-na”, “sá-ba-do”, “trá-fe-go”. Quarenta e um versos com a mesma descida fazem o ouvido esperar o tombo antes de ouvir a palavra.

A segunda peça trabalha na gramática. Adjetivo e comparação se prendem ao termo mais próximo na frase. Quando a palavra final muda de verso, ela muda de dono e leva o sentido junto: o que era qualidade de uma pessoa vira qualidade de um objeto, de uma hora do dia, de um gesto.

O percurso mais nítido é o de “máquina”. No primeiro bloco, o operário sobe a obra como se fosse máquina, e a comparação mora no trabalho, onde parece natural. No segundo, ele “bebeu e soluçou como se fosse máquina”: a comparação invade o descanso. No terceiro, o verso que abria a canção volta assim: “Amou daquela vez como se fosse máquina” (Chico Buarque, Construção, 1971).

A palavra subiu do andaime ao gesto mais íntimo do homem em três degraus, sem nenhuma explicação. A letra nunca diz que o trabalho desumaniza o operário. A posição da palavra diz por ela.

As quatro palavras novas do segundo bloco abrem um segundo sentido cada uma. Cada filho do operário vira “o pródigo”, eco do filho pródigo da parábola bíblica, o que gasta a herança longe de casa e volta. “Próximo” serve para o vizinho e para quem vem depois na fila, e o operário dança “como se fosse o próximo”. O verso deixa as duas leituras abertas.

Fora da canção, a engrenagem vira regra de três partes. A moldura precisa voltar sem variação, para o leitor parar de lê-la e vigiar só a ponta. A ponta precisa ocupar sempre o mesmo lugar, onde a frase tem peso. E a peça trocada precisa sair de um estoque que o leitor já conhece: ele reconhece a palavra e estranha o lugar.

A terceira parte explica por que tanta repetição não cansa: quase tudo na letra é reaproveitado, e a novidade de cada verso cabe na posição de uma palavra.

Com a moldura do verso parada, a palavra final carrega sozinha a mudança de sentido: ao trocar de dono, ela leva o significado para outro canto da cena.

 
 
 

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III  Na Oficina

Moldura parada, ponta solta

 
 

A engrenagem de Construção funciona em prosa, sem rima e sem métrica. Serve à crônica que retoma uma imagem no último parágrafo, ao discurso que repete uma estrutura para comparar casos e à carta que volta a uma frase para mostrar o que mudou.

O defeito comum é a repetição por descuido. A mesma palavra volta em pontos diferentes da frase, sem padrão, e o leitor sente cansaço. Na canção, a repetição tem lugar marcado: a moldura no começo, a peça móvel no final. O leitor entende a regra e vigia o ponto certo.

Um exemplo em prosa mostra o desenho. “Ela abriu a loja como quem abre um presente.” Na segunda rodada, a mesma moldura recebe outra ponta: “Ela abriu a loja como quem abre um processo.” Uma palavra de distância, e a dona da loja já carrega uma dívida, um medo e talvez um advogado.

Para montar a sua versão, cinco passos:

Passo a passo

 

1. Escreva quatro frases sobre uma só pessoa, todas com a mesma moldura: um gesto no passado, um complemento e “como quem” seguido de uma palavra de peso.

2. Sublinhe as quatro palavras finais. Elas formam o estoque da rodada.

3. Reescreva as quatro frases com a moldura intacta e embaralhe as palavras finais entre elas, sem acrescentar nenhuma nova.

4. Leia as duas versões em sequência e marque a frase em que o sentido mudou mais: ela aponta a palavra mais forte do estoque.

5. Faça uma terceira rodada com duas frases só e leve a palavra marcada no passo 4 para o gesto mais íntimo da pessoa, como Chico fez com “máquina”.

 

O passo 3 segura o exercício. Sem palavra nova, a mudança de sentido só pode vir da posição, e o autor descobre onde a frase guarda o peso. Se a troca não altera nada, a moldura está fraca: a primeira metade precisa de um gesto concreto, que a palavra final possa contaminar.

O passo 5 imita o terceiro bloco da canção. A rodada curta funciona porque o leitor já viu a palavra duas vezes e reconhece o caminho dela. Na prosa, duas frases bastam para completar o arco.

A técnica tem limite. Moldura repetida chama atenção para si e pede texto curto. Num relatório ou num manual, cansaria quem procura informação; ela rende no texto que o leitor percorre pelo prazer do ritmo.

Teste hoje: escreva as quatro frases do passo 1 e a versão embaralhada do passo 3. Mostre a primeira versão a uma pessoa e a segunda a outra, e peça a cada uma três adjetivos para a personagem. Conte quantos adjetivos coincidem entre as duas listas; o resultado esperado é no máximo um, com o mesmo vocabulário nas duas versões.

 
 
 
 

Quiz da edição

No álbum de 1971, quem assinou o arranjo de orquestra da faixa Construção?

ATom Jobim
BRogério Duprat
CFrancis Hime
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