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Construção é a faixa-título (a música que dá nome ao disco) do álbum que Francisco Buarque de Hollanda, o Chico Buarque, lançou em 1971, com arranjo de orquestra do maestro Rogério Duprat. A gravação passa de seis minutos e narra um dia só.
O protagonista é um operário da construção civil, e a letra nunca diz o nome dele. Ele aparece pelos verbos no passado que abrem quase todos os versos: amou, beijou, subiu, ergueu, sentou, comeu, bebeu, dançou, tropeçou, flutuou. O dia vai do beijo na mulher à queda do alto da obra.
A letra também não diz se ele escorregou ou pulou. Chico deixou a causa fora do texto: o verso registra que ele “tropeçou no céu” e “flutuou no ar”, imagens que servem às duas leituras. A canção trata a queda como fato consumado e gasta os versos com o efeito dela.
Cada verso termina numa proparoxítona (palavra com a sílaba forte na antepenúltima, como “sábado” e “máquina”). São versos longos, de doze sílabas poéticas (as que o ouvido conta até a última sílaba forte), e a maioria repete o mesmo desenho: gesto no passado, complemento e uma comparação.
O primeiro bloco tem 17 versos e abre assim: “Amou daquela vez como se fosse a última / Beijou sua mulher como se fosse a última” (Chico Buarque, Construção, 1971). Dez dos 17 passam por “como se”.
A primeira metade narra o gesto; a palavra final diz a que o gesto se parece. O operário sobe a obra “como se fosse máquina”, senta para descansar “como se fosse sábado” e come feijão com arroz “como se fosse um príncipe”.
Nos três últimos versos, o homem vira objeto. Cai “feito um pacote flácido”, agoniza no passeio público e, no verso derradeiro, morre “atrapalhando o tráfego”. A queda vale pelo incômodo que causa a quem passa.
O segundo bloco repete os 17 começos na mesma ordem e embaralha as palavras finais. Treze delas já estavam na letra, algumas com outro gênero ou número, e só mudaram de verso. Quatro chegam novas: “pródigo”, “lógico”, “máximo” e “próximo”.
O percurso de três delas mostra o efeito. “Tímido”, que era o passo do homem atravessando a rua, vira o pacote no chão. “Bêbado”, que era a comparação do tropeço no céu, vira o passo na rua. E o último verso troca o tráfego pelo “público”: o corpo deixa de ser obstáculo no trânsito e vira espetáculo para quem assiste.
O terceiro bloco encolhe para sete versos e recombina finais dos dois anteriores. O homem agora beija a mulher “como se fosse lógico”. As paredes que ele ergueu ficam “flácidas”, o adjetivo que antes era do corpo. E o incômodo muda de alvo mais uma vez: ele morre “atrapalhando o sábado”.
Depois do terceiro bloco, a gravação emenda estrofes de Deus lhe Pague, outra faixa do mesmo disco; a desmontagem de hoje fica nos 41 versos de Construção.
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