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O Relatório que Volta a Errar
Como os relatórios de Flores para Algernon, de 1966, sobem e caem na própria ortografia e entregam a virada antes de qualquer frase.
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O relatório manuscrito e o rato branco, 1966
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Na última página do romance, o narrador escreve um bilhete curto e erra outra vez a palavra flores.
Duzentas páginas antes, ele tinha aprendido a grafar essa palavra certa. Aprendeu vírgula, ponto e vírgula, oração subordinada, e depois desaprendeu tudo na mesma ordem.
O livro é Flores para Algernon, de Daniel Keyes, publicado em 1966 a partir de um conto de 1959. Ele é feito inteiro de relatórios de progresso escritos pelo próprio Charlie Gordon, um homem de 32 anos submetido a uma cirurgia experimental que leva o QI dele de 68 a 185.
O problema que a manobra ataca aparece em qualquer texto com narrador. Alguém muda de estado ao longo da página, e quem escreve precisa fazer o leitor sentir a mudança sem parar a história para anunciar o que está acontecendo.
A saída comum é o boletim. Um médico entra e dá o diagnóstico, um parágrafo de balanço resume o que mudou, uma frase declara em nome do narrador: eu já não conseguia me concentrar como antes.
O preço é sempre o mesmo. O leitor recebe a informação e anota, e anotar não é sentir; o texto continua liso enquanto o conteúdo dele afirma que houve terremoto.
Keyes resolve por fora. Ele deixa a mudança acontecer na superfície do texto, na ortografia, na pontuação, no tamanho da frase e no vocabulário, e o leitor lê a alteração antes de qualquer linha informar.
A dose não é aleatória. Ela sobe devagar, estabiliza no topo e desce pela mesma escada, e cada degrau fica visível a olho nu na página.
O leitor não é avisado da queda. Ele vê a queda na forma das palavras e entende o que vem antes de o enredo confirmar.
Comece pelo inventário do que muda de fato na página, item por item, do primeiro relatório ao último.
Vamos desmontar.
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I A Desmontagem
A grafia sobe antes do enredo
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Comece pelo inventário, que é a parte medível de fora. O documento que abre o romance se chama relatório de progresso, e o cabeçalho já vem errado, nas duas palavras, numa versão fonética copiada de ouvido.
A data sai torta na mesma linha. O corpo do texto não tem uma vírgula sequer, e as frases se emendam com "e", na ordem em que os fatos aconteceram.
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"progris riport 1 martch 3. Dr Strauss says I shoud rite down what I think and remembir and evrything that happins to me from now on."
Daniel Keyes, Flores para Algernon, 1966, relatório de progresso 1. Em tradução literal: relatório de progresso 1, 3 de março. O dr. Strauss diz que eu devo escrever o que eu penso e lembro e tudo que acontece comigo de agora em diante.
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Desmonte o relatório em peças. Primeira peça: o erro é fonético e obedece a uma regra própria. O narrador escreve o que ouve, e a grafia torta soa como uma pessoa, nunca como falha de digitação.
Segunda peça: a pontuação quase não existe. Sem vírgula e sem subordinada, o pensamento chega em bloco único, e a sintaxe informa o alcance do raciocínio sem uma linha de laudo.
Terceira peça: o vocabulário é curto e concreto. Entram as palavras do dia a dia da padaria onde ele trabalha, e todo termo técnico aparece deformado, do jeito que ele pegou de ouvido no consultório.
Quarta peça: o narrador registra fatos que não entende. Ele anota a fala do médico e a risada dos colegas sem interpretar nada, e o leitor entende a cena melhor do que quem a escreve.
Depois da cirurgia, o inventário muda item por item. A ortografia se corrige antes da sintaxe, a vírgula chega antes do ponto e vírgula, a subordinada vem depois, e o vocabulário técnico entra por último.
A curva não sobe em bloco, sobe em camadas. Cada camada nova é um degrau visível na página, e quem lê mede o avanço sem que ninguém diga um número.
No topo, o texto troca de gênero. Os relatórios viram prosa analítica, com termos de neurocirurgia, e o narrador passa a corrigir por escrito os erros dos próprios médicos.
Quando a curva vira, Keyes desmonta o texto na ordem inversa, e a inversão faz três coisas ao mesmo tempo.
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Primeiro, ela devolve o sintoma à superfície. A subordinada some, a vírgula rareia e a palavra volta à grafia fonética, na ordem exata em que cada camada tinha sido conquistada.
Segundo, ela informa antes do enredo. O leitor percebe a regressão na forma das frases páginas antes de o narrador aceitar o que está acontecendo com ele.
Terceiro, ela põe o leitor na posição de quem cuida. Quem lê enxerga a queda que o narrador ainda nega, e a distância entre os dois faz a última página pesar.
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Observe o que Keyes não fez. Não abriu capítulo de balanço clínico, não trouxe narrador em terceira pessoa para explicar a curva, não pôs o médico anunciando que o efeito seria temporário.
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O leitor não descobre a virada porque uma frase avisou: descobre porque a palavra que já tinha sido escrita certa aparece errada de novo.
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II A Engrenagem
Deixe a superfície registrar o estado
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O gesto tem nome técnico, e o nome nasceu como advertência. Yvor Winters chamou de falácia da forma imitativa, em Primitivismo e Decadência, de 1937, o texto que imita o próprio assunto até virar aquilo que descreve. A lei por trás do efeito, quando ele funciona, cabe numa frase curta:
Não anuncie a mudança de estado do narrador, deixe a superfície do texto mudar junto com ele.
A diferença entre o texto que informa a mudança e o texto que a exibe.
Mudança declarada é informação. Quando a página escreve ele já não pensava com a mesma clareza, o leitor guarda o dado, e o dado não altera a experiência de ler a linha seguinte.
Mudança inscrita na forma é prova. A palavra errada não pede que ninguém acredite nela, ela está ali, e quem lê faz o diagnóstico sozinho antes de qualquer personagem falar.
A escala precisa de degraus nomeáveis. Ortografia, pontuação, tamanho de frase, subordinação e vocabulário sobem e descem em ordem fixa, e a ordem faz a mudança parecer processo, não interruptor.
O movimento precisa começar devagar. Se a forma muda tudo de uma vez, o leitor lê o efeito como truque de diagramação; se muda uma camada por vez, ele nem repara que está medindo.
A superfície tem que continuar legível. Keyes erra na fonética, que o leitor decodifica em voz alta sem esforço, e nunca no que travaria a leitura.
O método cobra o preço que Winters apontou. Página que imita a confusão corre o risco de ficar confusa, e o recurso pede dose medida e prazo curto.
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"P.S. please if you get a chanse put some flowrs on Algernons grave in the bak yard."
Daniel Keyes, Flores para Algernon, 1966, último relatório de progresso. Em tradução literal: P.S. por favor se você tiver uma chance ponha umas flores no túmulo do Algernon no quintal.
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O bilhete final não explica nada. Ele mostra as palavras erradas de novo e o narrador ainda cuidando do rato, e a frase que o leitor precisaria ouvir nunca é escrita porque a grafia já disse.
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Anunciar a mudança pede a confiança do leitor: inscrever a mudança na forma dispensa a confiança, porque a prova está na própria linha.
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William Faulkner usou a mesma peça em 1929. Em O Som e a Fúria, a primeira parte é narrada por Benjy sem marcação de tempo, e o salto de cena ocupa o lugar da data porque o narrador não organiza cronologia.
Anthony Burgess montou um dialeto inteiro em 1962. Em Laranja Mecânica, o narrador fala nadsat, e o leitor aprende a gíria na mesma velocidade em que se acostuma com a violência que ela descreve.
Emma Donoghue apertou o vocabulário em 2010. Em Quarto, o narrador de cinco anos nomeia os objetos com maiúscula e sem artigo, Cama, Tapete, Armário, e a sintaxe entrega o tamanho do mundo dele sem uma linha de explicação.
Nos três casos a peça é a mesma. O estado de quem narra não é declarado no conteúdo, é imposto à forma, e o leitor recebe a informação pela superfície que já está lendo.
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