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33% escolheram Dicionário de Johnson. Aqui está.
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O Verbete Lexicógrafo do Dicionário de Johnson
Como o Dicionário de Johnson, de 1755, transformou a definição do próprio ofício num autorretrato de uma linha.
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O Dicionário de Johnson, Londres, 1755
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Quem se apresenta por escrito costuma começar assim: "Sou um profissional apaixonado por palavras." A frase serve para qualquer pessoa e, por servir para todas, não descreve nenhuma. O leitor passa por ela sem enxergar um rosto.
Em 1755, um dicionário inglês resolveu o mesmo problema dentro de um verbete. O autor precisava definir o próprio ofício, e a palavra da vez era lexicographer (lexicógrafo, quem escreve dicionários).
A definição tem duas partes. A primeira é a que se espera de qualquer obra de consulta: escritor de dicionários. A segunda ninguém esperava: um trabalhador braçal inofensivo, que se ocupa de rastrear a origem das palavras e detalhar o que elas significam.
O livro era o Dicionário da Língua Inglesa, publicado em Londres em abril de 1755, em dois volumes de formato grande, depois de quase nove anos de trabalho. O nome na capa era o de Samuel Johnson, um escritor do interior que vivia de encomenda e de dívida.
Johnson não escreveu uma apresentação pessoal. Escreveu uma definição técnica, no mesmo formato das outras quarenta mil entradas do livro, e deixou o cansaço de quase uma década vazar por uma palavra só: drudge (o burro de carga, quem faz o serviço pesado e repetitivo).
A linha funciona porque obedece à forma do dicionário até a última vírgula. Tem classe gramatical, tem sujeito genérico, tem o tom seco de toda entrada. O leitor leva meio segundo para perceber que o verbete fala de quem o escreveu.
Quem abre o dicionário atrás de um sentido sai com dois: o da palavra e o do homem que passou nove anos curvado sobre ela, num sótão de Londres, cercado de fichas.
A faixa I separa as duas metades da definição e mostra em que ponto exato a frase vira retrato.
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I A Desmontagem
I, Uma definição em duas metades
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Samuel Johnson nasceu em Lichfield, na Inglaterra, em 1709, filho de um livreiro. Em 1746, assinou contrato com um grupo de livreiros de Londres, entre eles Robert Dodsley, para escrever sozinho um dicionário da língua inglesa. O contrato valia 1.575 guinéus (a moeda de ouro inglesa da época), e dali saía também o salário dos ajudantes.
Prometeu entregar em três anos e levou quase nove. Trabalhou com seis amanuenses (copistas que passavam as fichas a limpo) num sótão da casa de Gough Square, em Londres, recortando trechos de autores ingleses para abonar cada sentido.
O verbete que interessa aqui aparece assim na edição de 1755:
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“LEXICOGRAPHER. A writer of dictionaries; a harmless drudge, that busies himself in tracing the original, and detailing the signification of words.”
Samuel Johnson, A Dictionary of the English Language, 1755
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Em português: escritor de dicionários; um trabalhador braçal inofensivo, que se ocupa em rastrear a origem e detalhar o significado das palavras.
A desmontagem começa pelo ponto e vírgula. Antes dele está a definição que qualquer colega de ofício assinaria. Depois dele vem o julgamento, e o julgamento entra pela mesma porta, com a mesma pontuação e o mesmo tom.
A segunda metade também tem estrutura própria. Abre com duas palavras de avaliação, harmless (inofensivo) e drudge (burro de carga), e volta logo ao vocabulário técnico: origem, significado, palavras. O autorretrato fica imprensado entre dois pedaços de descrição profissional.
O adjetivo inofensivo é a parte mais afiada. O lexicógrafo decide o que cada palavra quer dizer para um país inteiro, e Johnson o pinta como alguém incapaz de fazer mal a uma mosca. A ironia está na distância entre o poder do cargo e a modéstia do retrato.
Johnson repetiu o gesto em outros pontos do livro. Na entrada de Grub Street, uma rua de Londres, explicou que ali moravam escritores de histórias pequenas, dicionários e poemas passageiros, e se incluiu de novo na turma. Na entrada do adjetivo dull (maçante), deu como exemplo de uso a frase "fazer dicionários é um trabalho maçante".
Em todos os casos, a regra é a mesma. A voz pessoal nunca sai do formato do verbete. Ela usa a classe gramatical, a definição e o exemplo de uso, que são as peças obrigatórias da página, como esconderijo.
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O autorretrato cabe num ponto e vírgula: a definição técnica vem primeiro, e o julgamento sobre si entra pela mesma porta, no mesmo tom.
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II A Engrenagem
II, A piada guardada na moldura
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O mecanismo tem três peças. A primeira é a moldura neutra. Um dicionário promete imparcialidade, e o leitor chega a ele com a guarda baixa, sem esperar opinião. Qualquer voz pessoal, nesse ambiente, salta da página.
A segunda peça é a palavra deslocada. Drudge pertence ao vocabulário da roça e do serviço braçal, e aparece no meio de uma definição sobre um ofício intelectual. O choque entre os dois registros, o da enxada e o da biblioteca, cria a imagem que o leitor guarda.
A terceira peça é o retorno ao técnico. Depois da palavra deslocada, a frase volta para origem e significado, como se nada tivesse acontecido. O leitor fica com a sensação de ter visto algo que o autor fingiu não mostrar.
Johnson sabia que o ofício era visto assim, e abriu o prefácio do dicionário reclamando dele:
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“It is the fate of those who toil at the lower employments of life, to be rather driven by the fear of evil, than attracted by the prospect of good.”
Samuel Johnson, Prefácio ao Dicionário da Língua Inglesa, 1755
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Em português: é o destino de quem labuta nos empregos mais baixos da vida ser empurrado pelo medo do mal, e não atraído pela esperança do bem. Logo adiante, no mesmo prefácio, ele põe o escritor de dicionários entre esses infelizes.
O prefácio diz a queixa em várias páginas. O verbete diz a mesma queixa em meia linha, e é a meia linha que os leitores citam até hoje. A versão curta vence porque obriga o leitor a fazer a ligação sozinho.
A autodepreciação funciona porque tem lastro. Johnson errou no livro e admitiu em uma linha também. Definiu pastern, a quartela (parte da pata do cavalo entre o casco e a articulação), como o joelho do cavalo. Uma leitora perguntou o motivo do erro, e ele respondeu: "Ignorância, senhora, pura ignorância." A cena está em A Vida de Samuel Johnson, de James Boswell, publicada em 1791.
O mesmo tom aparece em verbetes que não falam dele. Oats (aveia) é definida como o grão que na Inglaterra se dá aos cavalos e que na Escócia sustenta o povo. É opinião sobre os escoceses, vestida de definição agrícola.
O recurso tem um limite claro. Se toda entrada brincasse, a moldura deixaria de ser neutra e nenhuma piada se destacaria. Os verbetes com voz pessoal são poucos no meio de dezenas de milhares de entradas sérias, e é a seriedade das outras que dá força a eles.
O dicionário também saiu caro para o comprador. Os dois volumes custavam 4 libras e 10 xelins na primeira edição, preço de objeto de luxo, e venderam devagar. Johnson só ganhou folga financeira em 1762, quando o rei George III lhe concedeu uma pensão anual de 300 libras.
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A voz pessoal só aparece porque o resto da página fica calado.
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