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O Ataque Escondido nas Remissões de Diderot

Como a Encyclopédie de 1751 mandava o leitor do verbete Antropofagia para Eucaristia e deixava a comparação sem escrever.

Volume antigo da Encyclopédie aberto num verbete com remissões

Remissões no pé de um verbete de 1751

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Quem quer criticar algo poderoso por escrito costuma se defender com uma frase: “Preciso dizer com todas as letras, senão ninguém entende.” Foi essa frase que transformou o texto num panfleto, fez o leitor desconfiado fechar a página na terceira linha e deu ao alvo da crítica a citação exata para responder.

A crítica escrita por extenso tem um defeito prático. Ela entrega pronta a conclusão que o leitor gostaria de tirar sozinho. Quem concorda já concordava antes, e quem discorda encontra na própria frase o ponto onde agarrar a briga.

Na França do século XVIII, o defeito tinha também um preço concreto. Livro que atacasse a Igreja ou o rei podia ser apreendido, o impressor podia perder a licença, e o autor podia ir parar numa cela. Escrever com todas as letras era pedir a fogueira para o papel.

Um grupo de escritores achou uma saída dentro do próprio formato que estava produzindo. Eles montavam um dicionário enorme, em ordem alfabética, e todo dicionário tem um recurso banal: a remissão, aquela indicação no pé do verbete que diz “veja também” e manda o leitor a outra palavra.

Ninguém lê uma remissão como argumento. Ela parece só arrumação, um serviço de biblioteca. Justamente por parecer arrumação, servia de esconderijo. O censor lia cada verbete separado e não achava nada. O leitor seguia a seta, juntava os dois textos na cabeça e encontrava sozinho a ideia que nenhum dos dois dizia.

O efeito é mais forte justamente porque a frase decisiva nunca foi escrita. Conclusão que a pessoa monta por conta própria vira convicção dela, e ninguém consegue apreender uma ligação feita dentro da cabeça do leitor.

A faixa I abre o verbete mais famoso desse jogo, mostra onde ele termina e para onde manda quem o lê.

Continue lendo ↓

 
 

I  A Desmontagem

I, Um verbete sobre comer gente

 
 

A obra é a Encyclopédie (Enciclopédia), dirigida pelo escritor Denis Diderot e pelo matemático Jean le Rond d'Alembert. O primeiro volume saiu em Paris em 1751, com o subtítulo de Dicionário Razoado das Ciências, das Artes e dos Ofícios.

O projeto começou modesto, como tradução de uma enciclopédia inglesa, a Cyclopaedia de Ephraim Chambers, de 1728. Nas mãos de Diderot virou outra obra: 17 volumes de texto, publicados até 1765, e mais 11 de pranchas ilustradas, concluídos em 1772.

Logo no volume 1, na letra A, aparece o verbete Anthropophagie (Antropofagia, o costume de comer carne humana). O texto é curto e sóbrio. Define a palavra, fala de povos antigos e distantes acusados da prática e não faz nenhuma menção à religião cristã.

O ataque está na última linha. Depois da definição, o verbete termina com uma lista de remissões: “Voyez Autel, Communion, Eucharistie” (veja Altar, Comunhão, Eucaristia). Três palavras do vocabulário católico, coladas no pé de um texto sobre canibalismo.

O leitor que segue a seta chega ao verbete Eucaristia. Lá encontra a doutrina da Igreja explicada com respeito: no sacramento, o pão e o vinho se tornam o corpo e o sangue de Cristo, e o fiel os recebe na boca.

Nenhuma das duas entradas compara uma prática com a outra. Antropofagia fala de canibais. Eucaristia fala do sacramento. A comparação só existe no caminho entre as páginas, no trajeto que o leitor fez com o dedo.

Um censor que lesse Antropofagia não acharia blasfêmia. Um teólogo que lesse Eucaristia acharia a doutrina correta. A acusação de que o rito da missa se parece com comer um corpo humano não aparece escrita em lugar nenhum da obra.

O verbete Altar e o verbete Comunhão completam o circuito. O primeiro trata do lugar onde se faz o sacrifício, o segundo do momento em que o fiel come. Lidos em sequência depois de Antropofagia, os três formam uma frase que a obra se recusa a imprimir.

Diderot sabia que a defesa funcionava. Se alguém o acusasse, bastava apontar os dois verbetes e pedir que mostrassem a frase ofensiva. Ela não estava lá.

 

A frase que acusa nunca foi impressa: quem a monta é o leitor, no caminho entre um verbete e outro.

 
 
 
 

II  A Engrenagem

II, A seta que o censor não lia

 
 

Diderot explicou o truque dentro da própria obra. No volume 5, de 1755, ele escreveu o verbete Encyclopédie, um texto longo sobre como o dicionário fora pensado, e dedicou uma parte às remissões. Sobre as que chamou de satíricas, disse:

“Elles attaqueraient, ébranleraient, renverseraient secrètement quelques opinions ridicules qu'on n'oserait insulter ouvertement.”

Denis Diderot, verbete Encyclopédie, 1755

 

Em português: elas atacariam, abalariam, derrubariam em segredo algumas opiniões ridículas que não se ousaria insultar abertamente. O plano estava declarado, impresso, e mesmo assim passava pela censura, porque o verbete descrevia o método sem apontar alvo.

O mecanismo tem três peças.

A primeira é a separação física. Cada verbete fica no seu volume, em ordem alfabética. Antropofagia está no A, Eucaristia está no E, e os dois saíram em anos diferentes. Quem lê um não tem o outro aberto na mesa.

A segunda é a aparência de serviço. Uma remissão parece ajuda ao leitor, igual à nota de rodapé ou ao índice. Ninguém espera opinião numa lista de palavras.

A terceira é o salto que o leitor faz sozinho. Ao juntar dois textos sem ligação aparente, ele pergunta por que foram ligados. A resposta que ele encontra fica com cara de descoberta própria.

Outro exemplo da própria obra mostra a peça funcionando contra um alvo diferente. O verbete Cordeliers, sobre a ordem franciscana, é respeitoso. Mas remete ao verbete Capuchon (capuz), que narra com ironia as brigas entre frades sobre o formato do capuz do hábito. O ridículo fica num verbete, a ordem fica no outro.

O método teve limite, e o limite veio de dentro da casa. Em 1759, o governo francês cassou a licença de impressão da obra, e o papa Clemente XIII a condenou no mesmo ano. A Encyclopédie seguiu sendo impressa às escondidas, com volumes datados de forma vaga.

Em 1764, Diderot descobriu que o editor André Le Breton, com medo da prisão, vinha cortando trechos das provas já revisadas, sem avisar ninguém, para amaciar os volumes finais. Diderot reclamou por carta, furioso, e seguiu no projeto. Os cortes não foram desfeitos em vida dele.

Mesmo cortada, a obra chegou ao fim com as remissões quase todas no lugar. Le Breton procurava frases perigosas, e as remissões não tinham frase nenhuma. A lista no pé de Antropofagia saiu intacta, porque nela só havia três substantivos.

 

A remissão ataca porque o censor lê um verbete por vez, e o leitor lê os dois juntos.

 
 

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III  Na Oficina

III, A seta no seu texto

 
 

A remissão satírica funciona em qualquer texto onde duas partes podem ficar separadas: um artigo com links, uma apresentação de slides, um capítulo e o seguinte, um post e o comentário fixado abaixo dele. O princípio continua o de Diderot: as duas peças ficam inocentes sozinhas e só acusam quando o leitor as junta.

O recurso falha em três situações:

• Quando a ligação é óbvia demais. Se o leitor vê a conclusão antes de seguir a seta, a remissão vira insinuação barata, e ele se sente empurrado.

• Quando a ligação é fraca demais. Se os dois textos não guardam nenhum ponto em comum visível, o leitor segue a seta, não acha nada e conclui que o autor errou o endereço.

• Quando a segunda parte não existe. Diderot mandava a um verbete que estava lá, com a doutrina escrita. Remissão para algo que o leitor precisa adivinhar não funciona.

Para usar a técnica num texto seu, siga quatro passos:

Passo a passo

 

1. Escreva a conclusão que você quer que o leitor tire, numa frase, num papel à parte. Ela não vai entrar no texto.

2. Divida essa conclusão em dois fatos que, lidos sozinhos, sejam neutros e verdadeiros.

3. Escreva cada fato no seu lugar, com tom sóbrio, sem adjetivo que entregue a intenção.

4. Ligue os dois só por uma indicação curta, como “veja também” ou um link, sem comentário.

 

Depois de pronto, entregue as duas partes a alguém e pergunte o que ela entendeu. Se a pessoa repetir a frase do papel à parte com as palavras dela, a remissão encaixou.

Se ela não chegar à conclusão, os dois fatos estão longe demais: aproxime o vocabulário, repetindo nos dois textos uma palavra que sirva de ponte, como o corpo em Antropofagia e em Eucaristia.

Se ela disser a conclusão antes de ler a segunda parte, a primeira já entrega tudo. Tire dela o adjetivo mais carregado e teste outra vez.

Um cuidado de honestidade: os dois fatos precisam ser verdadeiros por inteiro. A força da remissão de Diderot vinha de cada verbete aguentar sozinho uma leitura hostil. Fato distorcido para caber na ligação derruba o texto inteiro na primeira checagem.

“Que opinião sua ganharia força se o leitor a encontrasse sozinho?”

 

Teste hoje: escolha uma opinião que você defende e escreva dois parágrafos de 3 linhas cada, um com cada fato, sem a conclusão. Mostre os dois a 3 pessoas e anote quantas dizem a sua conclusão sem você explicar. Duas em três já indicam que a remissão funciona.

 
 
 
O Teste do Texto de Ouro: oito testes, um por dia: O teste da primeira frase, O teste do sujeito escondido, O teste do parágrafo que não anda, O teste da palavra gorda, O teste do ritmo lido em voz alta, O teste da promessa cumprida, O teste do exemplo concreto, O teste do corte final. Começar pelo dia 1.

Começar pelo dia 1 →

 
Quiz da edição

Em 1764, quem vinha cortando trechos das provas já revisadas da Encyclopédie, sem avisar ninguém, para amaciar os volumes finais?

AEphraim Chambers
BClemente XIII
CAndré Le Breton
DDenis Diderot

Resultado da última edição: 2 de 2 acertaram.

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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