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Os 13 Mil Lugares Descritos na Mesma Ordem do Domesday Book

Como o levantamento inglês de 1086 repetiu os mesmos campos em cada verbete e anotou dois valores por terra, o de antes da conquista e o de agora.

Página do Great Domesday, em latim abreviado, no Arquivo Nacional britânico

Uma página do Great Domesday, de 1086

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Quem entrega relatório de várias unidades costuma se defender, na reunião de revisão, com a mesma desculpa: “Cada loja eu descrevi do jeito que fazia mais sentido.” Essa liberdade estraga o relatório. A loja de Curitiba começa pelo faturamento, a de Recife pelos funcionários, a de Belém pela reforma do telhado, e ninguém consegue comparar as três.

O leitor desse documento faz o trabalho que o autor pulou. Volta páginas, anota números num papel à parte, procura onde está o dado de março numa unidade e onde ele se escondeu na outra. Na terceira loja, desiste e pede uma planilha.

Em 1085, um rei com o mesmo problema, em escala de país, resolveu de outro modo. Guilherme, duque da Normandia, tinha tomado a coroa inglesa na batalha de Hastings, em 1066, e repartido as terras entre os barões que lutaram com ele. Dezenove anos depois, não sabia direito o que possuía, quem devia quanto ao tesouro, nem quanto o reino rendia.

Os homens dele percorreram a Inglaterra em 1086 com uma lista fixa de perguntas. O resultado ficou conhecido como Domesday Book (o Livro do Juízo Final) e descreve mais de 13 mil lugares, de vilas grandes a sítios de duas famílias. Os verbetes seguem os mesmos campos, na mesma sequência, com as mesmas abreviaturas em latim.

E todos trazem dois valores: quanto a terra rendia no tempo do rei Eduardo, o último rei anglo-saxão antes da conquista, e quanto rendia no dia da vistoria. Vinte anos de ocupação normanda cabem em dois números escritos um depois do outro, e o leitor do século XI ou do XXI enxerga na hora qual terra subiu e qual caiu.

O livro tem mais de novecentos anos e ainda se lê como tabela, embora tenha sido escrito como prosa corrida. Ninguém desenhou colunas no pergaminho. A ordem das perguntas fez o papel das colunas.

A Desmontagem abre o formulário dos comissários, campo por campo, e mostra quem respondia a cada pergunta.

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I  A Desmontagem

O formulário dos comissários

 
 

A resposta de ontem

Quem raspou as leis apagadas da estela de Hamurabi?

Foi Shutruk-Nakhunte, rei de Elam. Por volta de 1158 a.C., ele levou a estela da Babilônia para Susa como troféu de guerra e mandou alisar cerca de sete colunas para gravar uma inscrição própria. O texto elamita nunca chegou a ser entalhado, e as leis perdidas foram reconstruídas por cópias em tábuas de barro.

Na corte de Natal de 1085, em Gloucester, Guilherme I passou horas em “conversa muito profunda” com os conselheiros sobre o país, segundo a Crônica Anglo-Saxônica, o registro anual mantido por monges ingleses. Dali saiu a ordem do levantamento, e as equipes partiram nas primeiras semanas de 1086.

O reino foi dividido em circuitos, grupos de condados com uma equipe de comissários própria. Os comissários não andavam de casa em casa. Em cada hundred (a centena, subdivisão do condado com tribunal próprio), convocavam um júri que respondia sob juramento.

Pela vila, falavam o padre, o reeve (o administrador local do senhor) e seis camponeses. Os normandos recém-chegados tinham interesse em inflar ou esconder a própria terra; os ingleses do júri conheciam os limites de cada campo desde a infância. As duas versões se cruzavam no tribunal.

As perguntas sobreviveram numa cópia feita no mosteiro de Ely, a Inquisitio Eliensis (o Inquérito de Ely). Na ordem do documento, o júri dizia:

• O nome da propriedade e quem a tinha no tempo do rei Eduardo.

• Quem a tem agora.

• Quantas hides (a unidade de imposto sobre a terra) ela soma.

• Quantos arados trabalham na terra do senhor e quantos na dos camponeses.

• Quantos aldeões, cabaneiros, escravos e homens livres moram nela.

• Quanto há de bosque, prado e pasto, e quantos moinhos e viveiros de peixe.

• Quanto valia então e quanto vale agora.

A Crônica registrou o tamanho da devassa com uma queixa que atravessou os séculos:

“Tão minuciosamente mandou investigar, que não houve uma só hide, nem uma vara de terra, nem mesmo, e é vergonha contar, embora a ele não parecesse vergonha fazer, um boi, uma vaca ou um porco que não fosse posto no seu registro.”

Crônica Anglo-Saxônica, manuscrito de Peterborough, entrada do ano de 1085

 

As respostas subiram em rascunhos por circuito até Winchester, onde ficava o tesouro real. Ali, um escriba passou quase tudo a limpo no volume chamado Great Domesday (o Grande Domesday), condado por condado. A análise da caligrafia aponta uma mão só para a maior parte do texto.

Dentro do condado, a ordem também era fixa. Primeiro vinha uma lista numerada dos donos: o rei, depois bispos e abadias, depois os barões. Em seguida, as terras de cada dono, verbete atrás de verbete, sempre nos mesmos campos do formulário de Ely.

Três condados do leste, Essex, Norfolk e Suffolk, ficaram num volume menor, o Little Domesday (o Pequeno Domesday), que nunca foi condensado. Ali sobrevivem até as cabeças de gado e os porcos que a versão limpa cortou, prova de quanto o escriba principal enxugou o resto.

 

O Domesday Book funciona porque o campo vem antes do conteúdo: toda terra responde às mesmas perguntas, na mesma ordem.

 
 
 
 

II  A Engrenagem

Dois valores por linha

 
 

O último campo do verbete é o que mais trabalha. A fórmula costuma abrir com T.R.E., abreviatura de tempore regis Edwardi (no tempo do rei Eduardo), seguida de valebat (valia) e de uma quantia em libras. Logo depois vem modo (agora) e a quantia de 1086.

Em muitos verbetes aparece um terceiro valor, o de quando o novo senhor recebeu a terra. A sequência vira uma pequena história em três tempos: antes da conquista, logo depois dela e vinte anos mais tarde.

O valor anotado era a renda anual que a terra dava ao senhor, e servia ao rei para saber quanto cada barão podia pagar. Os números não eram enfeite: o tesouro usava o livro para cobrar.

A posição fixa permite a leitura de relance. Quem procura a renda não lê o verbete inteiro, vai direto ao fim. Quem procura o antigo dono olha a primeira linha. O olho aprende o caminho no segundo verbete e o repete nos outros milhares.

O par de valores mostra o que nenhum cronista precisou narrar. No condado de York, muitos verbetes trazem só a palavra wasta (devastada) no lugar do valor de 1086. Eram as terras queimadas pelo exército de Guilherme em 1069 e 1070, na campanha contra a revolta do norte. Dezesseis anos depois, ainda não rendiam nada.

Em outros condados, a renda de 1086 supera a de 1066, sinal de senhores normandos que apertaram os camponeses ou ampliaram a lavoura. O leitor tira a conclusão sozinho, porque os dois números moram no mesmo lugar da linha.

O nome do livro veio depois, dos próprios ingleses. Cerca de um século após o levantamento, o tesoureiro Richard FitzNigel explicou o apelido num manual de finanças do reino:

“O livro é chamado pelos nativos de Dia do Juízo: porque suas sentenças, como as daquele último e severo exame, não admitem recurso.”

Richard FitzNigel, Diálogo do Tesouro (Dialogus de Scaccario), c. 1179

 

A autoridade vinha da forma. Num pleito de terra, o juiz abria o volume no condado certo, achava o dono e lia o campo. Nenhum advogado discutia onde estava a resposta.

O livro serviu de prova em disputas de propriedade por séculos. Hoje os dois volumes estão no Arquivo Nacional britânico, em Kew, perto de Londres, e a versão digitalizada permite procurar qualquer aldeia pelo nome.

 

Dois números na mesma posição, em todo verbete, contam uma história que parágrafo nenhum precisa narrar.

 
 

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III  Na Oficina

A ficha antes do texto

 
 

Qualquer texto que descreve três ou mais itens do mesmo tipo pede a solução dos comissários: relatório de lojas, comparação de fornecedores, parecer sobre candidatos, resenha de livros de uma mesma lista. O erro está em escrever item por item, deixando a ordem nascer do humor de quem escreve.

Os comissários de Guilherme decidiram as perguntas antes de sair a cavalo. O texto de quem escreve relatório pode nascer da mesma ficha, com quatro passos:

Passo a passo

 

1. Liste os campos que todo item precisa responder, antes de escrever a primeira frase.

2. Fixe a ordem dos campos e mantenha a mesma sequência em todos os itens, mesmo quando um deles parecer pedir outra.

3. Ponha o valor de antes e o de agora juntos, no mesmo campo e sempre na mesma ordem.

4. Quando faltar o dado, escreva “sem dado” no campo, como o escriba escreveu wasta, e nunca pule a linha.

 

Um exemplo com duas lojas. Versão solta: “Recife teve um bom trimestre, com equipe nova. Em Curitiba, a venda caiu um pouco, mas o time continua o mesmo.” Versão em ficha: “Recife: equipe, 12 pessoas; venda, R$ 410 mil no primeiro trimestre, R$ 470 mil no segundo. Curitiba: equipe, 9 pessoas; venda, R$ 380 mil no primeiro trimestre, R$ 350 mil no segundo.”

A segunda versão é mais seca e serve mais. O leitor compara as lojas sem voltar o olho, e a queda de Curitiba aparece no par de números, sem adjetivo.

A ficha também denuncia o que falta. Se um campo fica vazio em metade dos itens, ou a pergunta é ruim, ou a apuração ficou incompleta. Nos dois casos, o autor descobre antes do leitor.

O escriba de Winchester tinha milhares de verbetes e um pergaminho caro. A ordem fixa dos campos permitiu escrever pouco por terra e ainda assim deixar o reino inteiro comparável.

“Qual relatório seu obriga o leitor a procurar o mesmo dado num lugar diferente em cada item?”

 

Teste hoje: abra o último texto em que você descreveu três ou mais itens parecidos. Numere a ordem em que os dados aparecem em cada item e compare as sequências. Se elas não coincidirem, reescreva com a mesma ordem e o par antes e agora no fim de cada item. Depois, peça a alguém para achar o valor do terceiro item e cronometre: o esperado é a resposta sair em menos de dez segundos, contra a busca demorada da versão antiga.

 
 
 
Quiz da edição

No Domesday Book de 1086, os dois valores anotados em cada verbete de terra correspondiam a quê?

AValor da terra em 1066 e valor seis meses depois da conquista
BValor no tempo do rei Eduardo e valor no dia da vistoria, em 1086
CValor pago em impostos ao tesouro e valor de mercado da terra
DValor antes da revolta do norte e valor depois da devastação

Resultado da última edição: 100% acertaram.

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