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I A Desmontagem
O formulário dos comissários
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A resposta de ontem Quem raspou as leis apagadas da estela de Hamurabi? Foi Shutruk-Nakhunte, rei de Elam. Por volta de 1158 a.C., ele levou a estela da Babilônia para Susa como troféu de guerra e mandou alisar cerca de sete colunas para gravar uma inscrição própria. O texto elamita nunca chegou a ser entalhado, e as leis perdidas foram reconstruídas por cópias em tábuas de barro. |
Na corte de Natal de 1085, em Gloucester, Guilherme I passou horas em “conversa muito profunda” com os conselheiros sobre o país, segundo a Crônica Anglo-Saxônica, o registro anual mantido por monges ingleses. Dali saiu a ordem do levantamento, e as equipes partiram nas primeiras semanas de 1086.
O reino foi dividido em circuitos, grupos de condados com uma equipe de comissários própria. Os comissários não andavam de casa em casa. Em cada hundred (a centena, subdivisão do condado com tribunal próprio), convocavam um júri que respondia sob juramento.
Pela vila, falavam o padre, o reeve (o administrador local do senhor) e seis camponeses. Os normandos recém-chegados tinham interesse em inflar ou esconder a própria terra; os ingleses do júri conheciam os limites de cada campo desde a infância. As duas versões se cruzavam no tribunal.
As perguntas sobreviveram numa cópia feita no mosteiro de Ely, a Inquisitio Eliensis (o Inquérito de Ely). Na ordem do documento, o júri dizia:
• O nome da propriedade e quem a tinha no tempo do rei Eduardo.
• Quem a tem agora.
• Quantas hides (a unidade de imposto sobre a terra) ela soma.
• Quantos arados trabalham na terra do senhor e quantos na dos camponeses.
• Quantos aldeões, cabaneiros, escravos e homens livres moram nela.
• Quanto há de bosque, prado e pasto, e quantos moinhos e viveiros de peixe.
• Quanto valia então e quanto vale agora.
A Crônica registrou o tamanho da devassa com uma queixa que atravessou os séculos:
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“Tão minuciosamente mandou investigar, que não houve uma só hide, nem uma vara de terra, nem mesmo, e é vergonha contar, embora a ele não parecesse vergonha fazer, um boi, uma vaca ou um porco que não fosse posto no seu registro.”
Crônica Anglo-Saxônica, manuscrito de Peterborough, entrada do ano de 1085
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As respostas subiram em rascunhos por circuito até Winchester, onde ficava o tesouro real. Ali, um escriba passou quase tudo a limpo no volume chamado Great Domesday (o Grande Domesday), condado por condado. A análise da caligrafia aponta uma mão só para a maior parte do texto.
Dentro do condado, a ordem também era fixa. Primeiro vinha uma lista numerada dos donos: o rei, depois bispos e abadias, depois os barões. Em seguida, as terras de cada dono, verbete atrás de verbete, sempre nos mesmos campos do formulário de Ely.
Três condados do leste, Essex, Norfolk e Suffolk, ficaram num volume menor, o Little Domesday (o Pequeno Domesday), que nunca foi condensado. Ali sobrevivem até as cabeças de gado e os porcos que a versão limpa cortou, prova de quanto o escriba principal enxugou o resto.
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O Domesday Book funciona porque o campo vem antes do conteúdo: toda terra responde às mesmas perguntas, na mesma ordem.
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II A Engrenagem
Dois valores por linha
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O último campo do verbete é o que mais trabalha. A fórmula costuma abrir com T.R.E., abreviatura de tempore regis Edwardi (no tempo do rei Eduardo), seguida de valebat (valia) e de uma quantia em libras. Logo depois vem modo (agora) e a quantia de 1086.
Em muitos verbetes aparece um terceiro valor, o de quando o novo senhor recebeu a terra. A sequência vira uma pequena história em três tempos: antes da conquista, logo depois dela e vinte anos mais tarde.
O valor anotado era a renda anual que a terra dava ao senhor, e servia ao rei para saber quanto cada barão podia pagar. Os números não eram enfeite: o tesouro usava o livro para cobrar.
A posição fixa permite a leitura de relance. Quem procura a renda não lê o verbete inteiro, vai direto ao fim. Quem procura o antigo dono olha a primeira linha. O olho aprende o caminho no segundo verbete e o repete nos outros milhares.
O par de valores mostra o que nenhum cronista precisou narrar. No condado de York, muitos verbetes trazem só a palavra wasta (devastada) no lugar do valor de 1086. Eram as terras queimadas pelo exército de Guilherme em 1069 e 1070, na campanha contra a revolta do norte. Dezesseis anos depois, ainda não rendiam nada.
Em outros condados, a renda de 1086 supera a de 1066, sinal de senhores normandos que apertaram os camponeses ou ampliaram a lavoura. O leitor tira a conclusão sozinho, porque os dois números moram no mesmo lugar da linha.
O nome do livro veio depois, dos próprios ingleses. Cerca de um século após o levantamento, o tesoureiro Richard FitzNigel explicou o apelido num manual de finanças do reino:
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“O livro é chamado pelos nativos de Dia do Juízo: porque suas sentenças, como as daquele último e severo exame, não admitem recurso.”
Richard FitzNigel, Diálogo do Tesouro (Dialogus de Scaccario), c. 1179
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A autoridade vinha da forma. Num pleito de terra, o juiz abria o volume no condado certo, achava o dono e lia o campo. Nenhum advogado discutia onde estava a resposta.
O livro serviu de prova em disputas de propriedade por séculos. Hoje os dois volumes estão no Arquivo Nacional britânico, em Kew, perto de Londres, e a versão digitalizada permite procurar qualquer aldeia pelo nome.
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Dois números na mesma posição, em todo verbete, contam uma história que parágrafo nenhum precisa narrar.
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