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O Discurso de Nixon Para 2 Astronautas Presos na Lua

Como William Safire escreveu, 2 dias antes do pouso, o luto por Armstrong e Aldrin, e pôs antes do texto a ligação para as esposas.

Memorando datilografado de 1969 com o discurso para o caso de desastre lunar

O memorando de William Safire, 1969

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Quem cuida de projeto arriscado costuma adiar o texto difícil com uma frase pronta: “Se der errado, a gente escreve na hora.” Na hora, ninguém escreve bem. O texto sai com pressa, com medo e na ordem errada, e as pessoas mais atingidas recebem a notícia junto com todo mundo.

A ordem errada pesa mais do que a frase mal escolhida. O comunicado vai para a lista geral antes da ligação para quem perdeu mais. O cliente descobre pelo site. A família descobre pela televisão.

Na Casa Branca de 1969, um redator fez o contrário. Dois dias antes do primeiro pouso tripulado na Lua, o redator de discursos do presidente Richard Nixon entregou um memorando de uma página com o título “In Event of Moon Disaster” (Em Caso de Desastre Lunar).

O papel previa o pior desfecho possível da missão Apollo 11. Neil Armstrong e Edwin Aldrin pousam, o motor de subida do módulo lunar falha, e os dois ficam na superfície, vivos, sem caminho de volta.

O discurso chora os dois enquanto eles ainda respiram. Fala de luto com verbos no presente, porque, na hipótese do texto, o presidente leria a mensagem ao país com os astronautas vivos, a 384 mil quilômetros da Terra, à espera do oxigênio acabar.

Antes da primeira linha do discurso, a página traz uma instrução de bastidor, sob um aviso em letras maiúsculas: o presidente deveria telefonar para cada uma das futuras viúvas. Só depois vinha o texto para a nação.

A ordem da folha é a decisão mais importante do documento. Quem perde mais ouve primeiro, pela voz do presidente, e o resto do planeta ouve depois, pela televisão. O redator resolveu a sequência com calma, numa sala de escritório, sem relógio correndo.

O pouso deu certo, o motor funcionou, e o memorando ficou guardado nos arquivos, sem uso, por três décadas. Lido hoje, ele ensina mais sobre escrever notícia ruim do que muito manual de comunicação de crise.

A Desmontagem abre a folha, mostra as três partes, quem encomendou o texto e por que um dos três tripulantes ficou fora dele.

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I  A Desmontagem

Três blocos numa página

 
 

William Safire, redator de discursos de Nixon, contou depois de onde veio a encomenda. O astronauta Frank Borman, comandante da Apollo 8 e na época elo da NASA com a Casa Branca, ligou para ele e sugeriu ao governo ter pronto um texto para o caso de a tripulação não decolar da Lua.

O risco tinha endereço preciso. O módulo lunar Eagle (Águia) dependia de um único motor de subida para sair da superfície, sem motor reserva. Se ele falhasse, nenhuma nave da época conseguiria descer para buscar os dois homens.

O memorando, datado de 18 de julho de 1969, foi endereçado a H. R. Haldeman, chefe de gabinete de Nixon. Ocupa uma página e se divide em três blocos, cada um com uma função própria e um destinatário diferente.

O primeiro bloco é logística. Sob o aviso “antes da declaração do presidente”, vem a linha:

“O presidente deve telefonar para cada uma das futuras viúvas.”

William Safire, memorando “In Event of Moon Disaster” a H. R. Haldeman, 1969

 

Safire escreveu “futuras viúvas” porque, no cenário do papel, as esposas ainda não tinham perdido ninguém. Janet Armstrong e Joan Aldrin receberiam a ligação com os maridos vivos na superfície lunar, antes de qualquer câmera de televisão.

O segundo bloco é o discurso em si, uma sequência de parágrafos curtos escritos para a voz do presidente. Ele nomeia Neil Armstrong e Edwin Aldrin e deixa de fora Michael Collins, o terceiro tripulante.

A ausência tem explicação técnica. Collins orbitava a Lua no módulo de comando Columbia e nunca desceria à superfície. No pior cenário, ele voltaria sozinho para a Terra, vivo. O texto chora apenas os dois que ficariam.

O terceiro bloco vale para o momento em que a NASA encerrasse a comunicação com os astronautas. Um clérigo deveria seguir o rito de um sepultamento no mar, entregando as almas dos dois “às profundezas mais profundas”, e encerrar com o pai-nosso.

A escolha do rito marítimo resolveu um problema prático. Marinheiro que falece em viagem longa não volta para a terra natal; o corpo é entregue à água com oração. Os dois astronautas também ficariam longe, sem corpo para enterrar, e o público já conhecia aquela cerimônia sem túmulo.

Cada bloco tem um leitor: o presidente lê o primeiro, a nação ouve o segundo, o clérigo conduz o terceiro. Safire separou os três na mesma folha para ninguém confundir instrução com discurso, nem ler em público a linha que era só para o gabinete.

A página põe a pessoa mais atingida antes do público: primeiro o telefone, depois o discurso, por último a oração.

 
 
 
 
 

II  A Engrenagem

O luto em quatro círculos

 
 

O discurso abre com uma frase de duas metades: “O destino quis que os homens que foram à Lua explorar em paz fiquem na Lua para descansar em paz.” Em inglês, as duas metades terminam na mesma expressão, “in peace” (em paz), e a repetição carrega o peso da frase.

Logo depois vêm os nomes e a situação sem eufemismo: Armstrong e Aldrin “sabem que não há esperança de resgate”. Safire mostra os homens cientes do próprio destino, e a frase seguinte oferece o consolo: há esperança para a humanidade no sacrifício deles.

O motor do texto está no quarto parágrafo. A mesma oração se repete quatro vezes, e a cada volta o círculo do luto cresce: “Serão chorados pelas famílias e amigos; serão chorados pela nação; serão chorados pelos povos do mundo; serão chorados por uma Mãe Terra que ousou mandar dois de seus filhos ao desconhecido.”

O recurso se chama anáfora (repetição da mesma palavra no começo de frases seguidas). Aqui ela age como uma câmera recuando: a casa, o país, o planeta e, na última volta, a própria Terra vista de fora, do lugar onde os dois estariam.

O leitor sente a escala sem receber estatística alguma. Nenhuma frase diz quantas pessoas assistiam à transmissão; a repetição faz o trabalho do número.

Em seguida o texto dá uma tarefa ao público. Na Antiguidade, escreve Safire, os homens olhavam as estrelas e viam heróis nas constelações; agora os heróis são de carne e osso. A frase transforma a Lua visível da janela num monumento.

O último parágrafo pega emprestado um verso conhecido de qualquer leitor inglês da época. Safire escreveu: quem olhar para a Lua nas noites seguintes saberá haver “algum canto de outro mundo para sempre da humanidade”. A fonte é um soneto da Primeira Guerra Mundial:

“Se eu morrer, pense apenas isto de mim: / há algum canto de um campo estrangeiro / para sempre Inglaterra.”

Rupert Brooke, “The Soldier” (O Soldado), 1914

 

Brooke escreveu o soneto no começo da guerra e não voltou. Faleceu em 1915, num navio a caminho de Galípoli, na Turquia, de uma infecção, e foi enterrado na ilha grega de Esquiro. O soldado do poema fica sepultado longe e transforma o chão estranho em pátria.

Safire trocou o campo estrangeiro pela superfície lunar e a Inglaterra pela humanidade inteira. O público de 1969 reconheceria o eco sem nota de rodapé, e o luto pelos astronautas herdaria a dignidade do luto pelos soldados.

O memorando ficou nos arquivos da presidência e voltou a circular em 1999, no trigésimo aniversário da missão. Hoje o original está nos Arquivos Nacionais americanos. Em 2019, o Centro de Virtualidade Avançada do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts) lançou o filme “In Event of Moon Disaster”, dirigido por Francesca Panetta e Halsey Burgund, em que um Nixon recriado por inteligência artificial lê o discurso que o presidente real jamais leu.

Repetir a mesma oração e alargar o objeto a cada volta faz o leitor sentir a escala sem precisar de um número.

 
 
 

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III  Na Oficina

O texto do pior dia, escrito antes

 
 

Todo projeto arriscado tem uma versão do memorando de Safire esperando para ser escrita: o aviso de atraso ao cliente, o recall de um produto, o comunicado de queda do sistema, a mensagem para a família de um paciente. Quase ninguém escreve antes.

O memorando mostra três escolhas copiáveis. Foi escrito com calma, dois dias antes do risco. Separa instrução de bastidor e texto público na mesma folha. E define quem ouve primeiro. Para montar o seu, quatro passos:

Passo a passo

 

1. Liste quem perde mais no pior cenário e escreva, no topo da página, a ordem em que cada pessoa recebe a notícia e por qual canal.

2. Escreva as instruções de bastidor em linhas curtas, separadas do texto público, como o “antes da declaração do presidente” de Safire.

3. Redija o texto público para o leitor que soube por último, com os nomes certos e sem eufemismo sobre o que aconteceu.

4. Date a página, guarde num lugar onde a equipe encontre e releia na véspera do risco.

 

Um exemplo de lançamento de sistema. Versão escrita na hora: “Tivemos uma instabilidade pontual e já estamos atuando.” Versão preparada, no topo: “Ligar para os três clientes com cobrança marcada para hoje antes do email.” Depois, o texto público: “O sistema ficou fora do ar das 9h às 11h. Cobranças marcadas para hoje saem amanhã, sem multa.”

A versão da hora usa “instabilidade pontual” para esconder o que caiu. A preparada diz o horário, o efeito e a solução, e os três clientes mais atingidos já ouviram tudo pelo telefone quando o email chega.

O texto escrito antes também sai melhor porque o redator trabalha sem plateia e sem cronômetro. Safire teve dois dias e um soneto de Brooke na memória; numa noite de crise, teria tido minutos e um telefone tocando.

Nixon nunca leu o discurso. Armstrong e Aldrin decolaram da Lua em 21 de julho de 1969, encontraram Collins em órbita e desceram de paraquedas no oceano Pacífico no dia 24. O papel cumpriu a função de todo plano de contingência bem feito: existir, pronto, e sobrar.

“Qual notícia ruim do seu trabalho ainda não tem texto pronto na gaveta?”

 

Teste hoje: escolha um risco real do seu mês e escreva só o topo da página, a lista de quem precisa saber primeiro, em ordem, com o canal ao lado de cada nome. Cronometre. O esperado é terminar em menos de dez minutos e achar pelo menos um nome que o comunicado geral alcançaria antes do telefonema.

 
★ RARO

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No memorando In Event of Moon Disaster, por que o redator deixou Michael Collins de fora do texto de luto escrito por Safire?

APorque ele usaria um paraquedas de emergência e pousaria sozinho na Terra antes dos outros dois
BPorque a NASA pediu para omitir o nome dele por sigilo da missão
CPorque ele orbitava a Lua no módulo de comando Columbia e voltaria vivo para a Terra
DPorque Frank Borman vetou a menção a ele no texto

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