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33% escolheram Dicionário de Johnson. Sai em 03/10.
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15 Vozes em Volta de um Caixão
Como Faulkner dividiu o enterro de Addie Bundren entre 15 narradores e deu à própria morta um capítulo inteiro.
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Os Bundren levam Addie até Jefferson
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No outono de 1929, William Faulkner trabalhava no turno da noite da usina que fornecia energia à Universidade do Mississippi, em Oxford. Abastecia a caldeira com carvão no começo do expediente e, quando o fogo pegava ritmo, sobravam horas de silêncio.
Nessas horas ele escrevia. Virava um carrinho de mão de boca para baixo, apoiava o papel no fundo de ferro e enchia folhas com uma letra miúda, que quase só ele conseguia decifrar depois.
Tinha 32 anos, casara em junho com Estelle Oldham e precisava de dinheiro. O romance anterior, O Som e a Fúria, saíra no começo de outubro e vendia pouco.
Em 25 de outubro de 1929, datou a primeira página de um manuscrito novo. Em 11 de dezembro, datou a última. Foram menos de sete semanas, e ele diria anos depois que quase não mexeu no texto ao passar a limpo.
Na entrevista a Jean Stein para a revista The Paris Review, em 1956, Faulkner resumiu a intenção: queria escrever, de caso pensado, um tour de force (uma proeza de técnica, feita para mostrar do que o ofício é capaz).
A trama cabe numa linha. Uma família pobre do interior do Mississippi atravessa o condado com o caixão da mãe numa carroça, para cumprir a promessa de enterrá-la na cidade de Jefferson, onde está a família dela.
O difícil era a outra parte: quem contaria a viagem. Faulkner recusou o narrador único e recusou também a voz de fora que tudo sabe. Entregou a história a quinze pessoas, e nenhuma delas enxerga a viagem inteira.
Um leitor escreveu à casa que o narrador não pode nunca mentir para o leitor. O livro de Faulkner põe a regra à prova: cada voz diz a verdade que conhece e cala a que prefere guardar. Na faixa I, o mapa de quem fala e do que cada um esconde.
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I A Desmontagem
I, Um nome no alto de cada capítulo
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Enquanto Agonizo (As I Lay Dying), romance de William Faulkner publicado em outubro de 1930 pela editora Jonathan Cape & Harrison Smith, tem 59 capítulos. Cada um abre com um nome próprio, e o texto que segue é a voz daquela pessoa, sem ninguém que a apresente.
A morta é Addie Bundren, mulher de Anse, um lavrador teimoso que foge de todo esforço. Os cinco filhos narram: Cash, o carpinteiro; Darl, o que vê demais; Jewel, o do cavalo; Dewey Dell, a única moça; Vardaman, o caçula.
Os outros narradores são de fora da casa: os vizinhos Vernon e Cora Tull, o médico Peabody, o reverendo Whitfield e gente da estrada, como os fazendeiros Samson e Armstid e os balconistas de farmácia Moseley e MacGowan.
Darl fala mais que todos, em 19 dos 59 capítulos. Jewel, o filho que mais sofre, fala uma única vez, logo no começo, com raiva de Cash por serrar as tábuas do caixão debaixo da janela da mãe ainda viva.
A distribuição já é leitura. Quem tem mais capítulos manda na ordem dos fatos; quem tem menos precisa ser visto pelos outros. O leitor conhece Jewel quase só pelo que Darl conta dele.
Agora, o que cada voz esconde. Dewey Dell está grávida de Lafe, um rapaz da colheita de algodão, e quer chegar a Jefferson para comprar um remédio que desfaça a gravidez. Narra vários capítulos e nunca diz a palavra: rodeia o segredo como quem conversa sozinha.
Anse repete a todos que vai a Jefferson para honrar a mulher. Só no último capítulo, narrado por Cash, o leitor descobre o resto: ele comprou dentadura nova com o dinheiro que a filha guardava e voltou para a carroça com outra esposa.
Cora Tull, a vizinha devota, é a voz que mais erra. Jura que Darl era o filho que Addie amava de verdade e que Jewel é um ingrato. Ela acredita no que diz, e o capítulo da própria Addie desmente as duas certezas.
Darl tem o problema oposto: sabe demais. Narra a agonia da mãe com detalhe de testemunha, Dewey Dell abanando o leque, Cash serrando no quintal, quando está longe dali, na estrada com Jewel, levando uma carga de madeira para ganhar três dólares.
Faulkner nunca explica como Darl sabe. A crítica divide a cena entre clarividência e imaginação, e o livro deixa a resposta em aberto de propósito: o leitor só confirma, pelos outros narradores, que tudo aconteceu como Darl contou.
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Nenhuma das 15 vozes falsifica o que viu. Cada uma engana pelo que deixa de fora.
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II A Engrenagem
II, A morta toma a palavra
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O capítulo de Addie Bundren é o 40 dos 59. Quando ele aparece, ela está no caixão há dias, a carroça já atravessou o rio cheio, as mulas se afogaram e Cash quebrou a perna tentando salvar a carga.
Faulkner não justifica a voz. Não há sonho, fantasma nem carta encontrada entre os papéis. O capítulo leva o nome dela no alto, como todos os outros, e ela fala no passado, de alguém que já não tem o que perder.
Conta que foi professora antes de casar, que batia nos alunos para sentir que existia na vida deles, que aceitou Anse porque ele apareceu. Depois do primeiro filho, concluiu que as palavras não davam conta da vida:
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“Foi então que aprendi que as palavras não servem para nada; que as palavras nunca cabem nem mesmo naquilo que tentam dizer.”
William Faulkner, Enquanto Agonizo, 1930
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Então entrega o segredo que nenhuma outra voz narrou. Jewel é filho do reverendo Whitfield, com quem ela teve um caso. E a promessa do enterro em Jefferson foi uma vingança contra Anse, exigida quando Darl nasceu.
Uma página de Addie reorganiza os 39 capítulos anteriores. A fúria de Jewel, a preferência da mãe por ele, as provocações de Darl, que pergunta ao irmão quem é o pai dele: o leitor volta ao começo com outra chave na mão.
O capítulo seguinte é do próprio Whitfield. Ele cavalga até a casa decidido a confessar o adultério diante do marido, atravessa o rio cheio, e ao saber que Addie já não pode revelar nada, desiste da confissão e agradece a Deus pela piedade.
O capítulo mais curto é o 19, de Vardaman. Na tarde em que a mãe se apaga, o menino pescou um peixe grande e teve de limpá-lo no quintal. Ele junta os dois acontecimentos na cabeça, e o capítulo inteiro diz apenas:
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“Minha mãe é um peixe.”
William Faulkner, Enquanto Agonizo, 1930
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Uma frase isolada faz o que um parágrafo de explicação não faria: mostra o luto de uma criança pelo único instrumento que ela tem. Depois, Vardaman fura a tampa do caixão com a verruma de Cash (a broca manual de carpinteiro) para a mãe respirar, e dois furos atingem o rosto dela.
Cash ganha um capítulo curto de outra espécie: uma lista numerada, de 1 a 13, das razões para ter feito o caixão em chanfro (com as bordas cortadas em ângulo). É como ele ama a mãe, pela carpintaria.
O livro termina com Darl, a voz que mais sabia, entregue pela família a dois guardas que o levam ao hospício estadual em Jackson, depois de ele incendiar o celeiro de Gillespie para queimar o caixão. Os Bundren o entregam para não pagar o prejuízo.
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Cada voz fala pelo instrumento que tem: Cash pela carpintaria, Vardaman pela comparação, Addie pela confissão que só a morta pode fazer.
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