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I A Desmontagem
A colher nivelada com a faca
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A resposta de ontem Em que ano o ensaio de oito pernas saiu dos exames chineses? Em 1901. O decreto saiu em nome do imperador Guangxu, com a imperatriz viúva Cixi no comando, dentro das Novas Políticas da dinastia Qing, e trocou o ensaio de oito pernas por dissertações sobre política e história. Quatro anos depois, em 1905, outro decreto aboliu os próprios exames imperiais. |
O livro se chama The Boston Cooking-School Cook Book (O Livro de Receitas da Escola de Culinária de Boston), saiu em 1896 pela editora Little, Brown and Company e foi escrito por Fannie Merritt Farmer, diretora da Boston Cooking School, a escola mantida desde 1879 pela Associação para a Educação da Mulher de Boston.
A autora não começou pelas receitas. Antes delas, o livro explica os alimentos, o fogão e, num capítulo próprio, como medir. A instrução central é seca e se repete para cada utensílio:
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“Uma xícara se mede rasa. Uma colher de sopa se mede rasa. Uma colher de chá se mede rasa.”
Fannie Merritt Farmer, The Boston Cooking-School Cook Book, 1896 (tradução livre)
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O livro descreve o gesto. Enche-se a colher com o ingrediente seco, ergue-se a colher cheia e passa-se a lâmina de uma faca rente à borda, para tirar o excesso. Meia colher se mede rasa e depois se divide no comprimento. Um quarto sai dividindo a metade na largura.
A farinha recebe cuidado extra. Farmer manda peneirar antes de medir e pôr na xícara às colheradas, sem sacudir nem apertar. Farinha socada no fundo da xícara pesa mais que farinha solta, e o bolo sai seco.
Depois vem a tabela de equivalências: três colheres de chá fazem uma colher de sopa, dezesseis colheres de sopa fazem uma xícara, duas xícaras fazem um pint (medida inglesa de líquido, quase meio litro). Com a tabela, qualquer receita do livro pode ser dobrada ou cortada pela metade sem perder a proporção.
As receitas seguem a mesma lei. Onde o caderno antigo diria um pedaço de manteiga, o livro de Farmer diz quantas colheres. Onde diria farinha até dar o ponto, diz quantas xícaras. Os ingredientes aparecem primeiro, com a quantidade, e o leitor separa tudo antes de acender o forno.
Farmer não inventou a xícara de medida nem foi a primeira a pedir colher rasa. Mary Johnson Lincoln, diretora da mesma escola antes dela, já usava xícaras no Mrs. Lincoln's Boston Cook Book (O Livro de Receitas de Boston da Senhora Lincoln), de 1884. Farmer transformou a medida rasa em regra sem exceção e escreveu o gesto que a garante.
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A receita de Farmer funciona porque cada quantidade aponta para um utensílio que o leitor tem e um gesto que ele consegue repetir.
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II A Engrenagem
A aluna que virou diretora
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Fannie Merritt Farmer nasceu em Boston, em 1857, numa família que planejava mandá-la à faculdade. Aos 16 anos, sofreu uma paralisia que a deixou de cama por meses e com uma perna que mancou pelo resto da vida. Os biógrafos divergem sobre a causa, derrame ou pólio, porque nenhum registro médico da época sobreviveu. Os estudos pararam ali.
Ela só entrou na Boston Cooking School aos 30 anos, em 1887, como aluna. Formou-se em 1889, ficou como assistente da direção e assumiu a escola em 1891. Aprendeu a cozinhar com método, já adulta, e ensinava gente na mesma situação: moças sem cozinha de família para copiar e cozinheiras que precisavam de resultado previsível.
Para esse público, a receita de memória não servia. A aluna desconhecia o tamanho do ovo imaginado pela autora. A medida rasa resolveu o problema porque eliminou a dúvida: a colher só tem um jeito de estar cheia.
O mecanismo tem três peças. A primeira é o utensílio comum, xícara e colheres vendidas em qualquer loja. A segunda é o gesto definido, encher e nivelar com a faca. A terceira é a tabela que liga um utensílio ao outro. Faltando qualquer uma, a medida volta a depender de interpretação.
Farmer também cuidou da ordem do texto. Ingredientes listados com quantidade, depois o modo de fazer em frases curtas, no imperativo. A leitora encontrava o que comprar, o que separar e o que fazer, nessa sequência. No prefácio, a autora deixou a justificativa:
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“Medidas corretas são absolutamente necessárias para garantir os melhores resultados.”
Fannie Merritt Farmer, The Boston Cooking-School Cook Book, 1896 (tradução livre)
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O livro pegou. Farmer passou a ser chamada nos Estados Unidos de “mãe das medidas rasas”, e a obra ganhou novas edições ao longo do século 20, revistas por outros editores e rebatizadas de The Fannie Farmer Cookbook, nome que mantém nas livrarias.
Em 1902, ela deixou a Boston Cooking School e abriu a própria escola, a Miss Farmer's School of Cookery (Escola de Culinária da Senhorita Farmer). Ali ensinava também cozinha para doentes, assunto do livro que publicou em 1904, e dava palestras para enfermeiras e médicos de Boston.
A regra das medidas rasas sobreviveu à autora sem precisar dela. Quem segue uma receita do livro hoje obtém o resultado sem saber quem foi Farmer, e o texto cumpre a função para a qual foi escrito.
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A medida rasa tirou o resultado da memória de quem escreve e o pôs no gesto de quem lê.
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