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A Desmontagem do Dia
O Narrador Que Diz Nós
Como Faulkner, em Uma Rosa para Emily, entrega a narração a um nós coletivo da cidade que nunca se identifica, mostrando que trocar o eu pelo plural transfere o julgamento para o grupo e deixa o narrador saber tudo sem precisar explicar como ficou sabendo
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Bom dia, Engenheiro(a) da Escrita!
Em "Uma Rosa para Emily", conto de 1930, quem narra não é uma pessoa. É um "nós": a cidade inteira falando em bloco sobre a mulher da casa grande da esquina, do primeiro parágrafo ao último.
Esse narrador acompanha Emily Grierson por quase cinquenta anos, entra na casa, sabe do cheiro que vinha do porão, sabe o que havia atrás da porta trancada do andar de cima. E nunca diz o próprio nome, a própria idade, nem de qual janela olhou.
Parece um detalhe de estilo, um jeito de dar cor de cidade pequena ao conto. Mas o plural é a peça central: é ele que vigia Emily, sente pena, sussurra e condena, sem que ninguém precise assinar o veredito.
Um escritor comum escolheria um vizinho. Daria a ele um nome, uma idade, uma janela com vista para a varanda dos Grierson, e o leitor teria um informante de confiança para acompanhar até o fim.
Faulkner faz o oposto. Ele dissolve o observador na multidão e deixa a cidade narrar, com a autoridade de quem viu tudo e a leveza de quem não responde por nada sozinho.
O problema que a escolha ataca é dos mais teimosos da primeira pessoa: como deixar o narrador saber coisas demais sem que o leitor pare no meio da frase e pergunte de onde ele tirou aquilo.
O escritor iniciante trava nessa conta. Se o narrador é um personagem, só pode contar o que viu com os próprios olhos. Se sabe tudo, precisa explicar como ficou sabendo, e a explicação sempre atrapalha a cena.
Vamos desmontar.
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Volte à primeira linha do conto, antes de existir enredo, personagem secundário ou qualquer pista de quem está com a palavra:
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"Quando a senhorita Emily Grierson morreu, a nossa cidade inteira foi ao enterro."
A primeira frase já narra em bloco, e o dono da voz nunca aparece
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Repare no que a frase faz. Ela não diz quem observa, diz de quem é a cidade. O possessivo chega antes de qualquer personagem e instala um narrador que é muitos, sem apresentar nenhum.
O plural atravessa o conto inteiro, sem uma única falha. "Acreditávamos que ela precisava fazer aquilo", "no começo ficamos contentes", "não dissemos que ela estava louca". Nenhuma dessas frases tem dono, e nenhuma precisa ter.
Faulkner segue puxando a corda até a última cena, quando a cidade arromba o quarto fechado havia quarenta anos e encara o que ninguém deveria ter visto:
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"Então percebemos que no segundo travesseiro havia a marca de uma cabeça."
O achado final vem num verbo no plural, e ninguém pergunta quem estava lá
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Leia as duas frases juntas e meça o caminho percorrido entre elas. Na primeira, a cidade acompanha um enterro pela rua, de longe. Na última, a cidade está dentro do cômodo mais privado da casa, olhando a prova de perto.
Ninguém explicou como se entrou ali, nem quem subiu a escada, nem quantos eram. A licença veio do plural. Um "eu" precisaria justificar a presença, contar que forçou a porta ou que acompanhou o delegado.
Um "nós" não deve satisfação. O grupo estava lá porque o grupo está sempre em toda parte, e o leitor concede a onipresença sem nem registrar que concedeu.
Faulkner poderia ter escolhido um narrador com nome. Um vizinho velho, um antigo funcionário da prefeitura, alguém que juntasse os pedaços e contasse a história com todas as fontes reveladas.
Ao narrar em bloco, ele apaga a fronteira entre o que se viu e o que se comentou. A fofoca, a suspeita e o testemunho passam a caber na mesma frase, com o mesmo peso, e o leitor engole as três como se fossem uma só.
Essa construção faz três coisas ao mesmo tempo.
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Primeiro, ela dá onisciência a um narrador de dentro. Um "nós" soma olhos: alguém viu a compra do veneno na farmácia, alguém viu o homem entrar pela porta da cozinha, alguém sentiu o cheiro na calçada. O coletivo herda tudo que qualquer morador saberia.
Segundo, ela transfere o julgamento para o grupo. Quem chama Emily de coitada, quem a acha orgulhosa demais, quem decide que ela precisa se casar não é um personagem antipático, é a comunidade inteira. A crueldade fica sem autor, e por ficar sem autor soa natural.
Terceiro, ela põe o leitor de fora com o grupo. O "nós" tem uma fronteira, e Emily está do outro lado dela. Quem lê entra automaticamente no bando que observa da rua, e só percebe que participou da vigilância quando o conto acaba.
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Observe o detalhe fino. Faulkner poderia ter deixado o plural escorregar uma vez só para o singular, uma frase em que o narrador dissesse "eu vi", para o leitor saber que existe alguém de carne por trás da voz.
Nessa versão o conto perderia a força na hora. Com um nome atrás da fala, cada julgamento vira opinião de um sujeito, e opinião de sujeito se discute. O leitor pararia de acompanhar uma cidade e passaria a checar um informante.
Na versão que ele escreveu, o plural nunca se rompe. A cidade sabe, comenta, vigia e condena, e a conta não chega para ninguém. Sobra o leitor, que leu quarenta anos de vigilância achando que apenas acompanhava um caso.
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Faulkner não escreve uma testemunha contando o que viu. Ele escreve uma cidade contando o que sabe, e coloca o leitor dentro dela antes que ele perceba.
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O recurso tem nome na teoria da narrativa: narrador em primeira pessoa do plural, uma voz que fala como grupo e nunca se resolve em indivíduo, e a lei por trás do efeito cabe numa frase curta:
O plural sabe sem precisar ter visto.
A ideia de que o direito de contar não vem de ter estado presente, e sim de pertencer ao grupo que comenta o caso.
Quando o narrador é um "eu", cada informação precisa passar por uma porta estreita: aqueles olhos, aquele corredor, aquela hora exata. Falta uma peça, e o autor precisa inventar uma coincidência para entregá-la.
Quando o narrador é um "nós", o conhecimento vira patrimônio comum. O leitor para de perguntar a origem de cada dado, porque grupo nenhum guarda recibo de como soube das coisas.
A alavanca é antiga e o teatro a conhece bem. O coro da tragédia grega já fazia o serviço completo: um bloco de vozes que sabe mais que os personagens, comenta a queda de quem está em cena e pronuncia o veredito da cidade sem que nenhum corista responda por ele sozinho.
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Todo julgamento pesa mais quando ninguém precisa assinar embaixo, e o narrador coletivo existe para tornar a assinatura desnecessária.
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A ficção moderna reaprendeu o truque. Julie Otsuka, em "Buda no Sótão", narra a vida de centenas de japonesas levadas para a Califórnia por um "nós" que nunca se separa em nomes, e a soma das vozes produz um retrato que personagem nenhuma sustentaria sozinha.
Joshua Ferris, em "E Então Chegamos ao Fim", faz um escritório inteiro falar em bloco, e a mesquinharia do ambiente aparece por completo sem que exista um culpado para apontar com o dedo.
Faulkner faz na cidade pequena o que os dois fazem depois: entrega ao grupo o direito de saber e de julgar, e tira de cena a pessoa que responderia pelas duas coisas.
Nos três casos o leitor não recebe um relato, recebe um consenso, que é a forma mais difícil de contestar.
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Troque o eu pelo nós e veja quem julga
Pegue uma cena sua narrada em primeira pessoa por um observador, alguém que assiste ao que acontece com outra pessoa. Reescreva a cena inteira no plural, sem nunca revelar quem compõe o grupo.
Troque os verbos, apague o nome do observador e deixe entrar na narração pelo menos duas informações que ele sozinho não teria como saber: uma compra vista pela vizinha, uma conversa ouvida na fila do mercado.
Depois teste se o plural está de pé. Leia a cena para alguém e pergunte quem está contando. Se a pessoa responde a vizinhança, a firma, a turma, a família, o coletivo funcionou.
Se ela cita um personagem específico, ainda existe um "eu" escondido no texto: um pensamento íntimo demais, uma cena com uma testemunha só, um julgamento que só caberia numa boca. Corte esses pontos e devolva tudo ao grupo.
O truque não é falar de muita gente, é fazer muita gente falar junto, e deixar o leitor descobrir tarde que estava no meio do coro.
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