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O Título Colhido na Lanchonete
Como Um Homem Bom é Difícil de Encontrar, de 1953, tira o próprio título de uma fala banal no balcão e devolve a mesma palavra no fecho.
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Balcão de lanchonete numa estrada da Geórgia
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Numa lanchonete de beira de estrada, na Geórgia, um macaco acorrentado a uma árvore cata pulgas do próprio pelo enquanto uma família de seis pessoas espera o sanduíche.
O dono do lugar chega ao balcão limpando as mãos e começa a reclamar do mundo. Na semana anterior, dois rapazes num Chrysler velho pediram gasolina fiado, e ele deixou.
A avó da família responde na hora que ele fez aquilo porque é um homem bom. Ele aceita o elogio meio sem jeito, e a mulher dele emenda que não dá para confiar em ninguém.
O conto é Um Homem Bom é Difícil de Encontrar, de Flannery O'Connor, publicado em 1953 e escolhido dois anos depois para batizar o livro inteiro.
A frase que dá nome ao conto está inteira dentro daquela conversa de balcão. Não é epígrafe, não é comentário do narrador, não é fala de personagem principal.
Quem diz é o dono da lanchonete, e o assunto é pequeno: freguês que não paga, porta de tela que ninguém mais deixa destrancada, tempo que piorou.
O leitor passa por ali sem parar. A frase soa gasta, parece conversa de fila de banco, e o olho corre para o parágrafo seguinte sem guardar nada.
No fim do conto, num barranco de estrada de terra, a mesma palavra volta na boca de outra pessoa, e o leitor descobre que leu o título sem ver.
O problema que a manobra ataca é o de todo título. Como fazer o nome trabalhar dentro do texto, em vez de ficar pendurado no alto da página como etiqueta?
A saída comum é resumir. O escritor procura uma frase bonita que descreva o assunto por fora, e o título vira placa de estrada: informa o que vem e para por aí.
O'Connor faz o contrário. Ela colhe o título de dentro de uma cena secundária, deixa a frase passar como fala banal e devolve a mesma palavra no fecho, com um peso que a cena não tinha.
Comece pelo balcão, no ponto exato em que a frase é dita pela primeira e única vez.
Vamos desmontar.
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I A Desmontagem
Uma queixa dita entre dois pedidos
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Comece pela conta bruta, que é a parte medível de fora. A frase do título aparece uma vez só nas páginas, e quem a diz não é a avó, nem o narrador, nem o homem do fim.
Quem diz é Red Sammy Butts, dono de um posto com salão de dança e balcão de sanduíche. Ele ocupa duas páginas e some, sem voltar.
A conversa que leva até ela começa por dinheiro. O dono conta que fiou gasolina para dois desconhecidos, pergunta em voz alta por que fez aquilo, e a avó responde na hora: porque o senhor é bom.
A mulher dele corta o assunto dizendo que não existe uma alma neste mundo em que se possa confiar. Aí vem a fala que batiza o conto:
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"A good man is hard to find. Everything is getting terrible. I remember the day you could go off and leave your screen door unlatched. Not no more."
Flannery O'Connor, Um Homem Bom é Difícil de Encontrar, 1953, na fala do dono da lanchonete. Em tradução literal: um homem bom é difícil de encontrar, tudo está ficando terrível, lembro do tempo em que dava para deixar a porta de tela destrancada.
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Repare no tamanho do assunto. A frase serve a uma queixa doméstica sobre freguês desonesto e porta destrancada, e é dita entre um pedido de Coca-Cola e outro.
Repare também no que o narrador faz depois dela. Nada. Nenhum comentário, nenhum grifo, nenhuma linha em branco em volta da sentença que dá nome ao conto.
A frase segue viagem com a família. O carro entra numa estrada de terra atrás de uma casa que a avó jura ter visitado na infância, e capota num barranco.
É lá que a história encontra o foragido da penitenciária, chamado no texto de O Desajustado. A avó tenta salvar a família com o vocabulário do balcão: repete que sabe que ele é um homem bom.
A última fala do conto devolve a palavra:
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"She would of been a good woman, if it had been somebody there to shoot her every minute of her life."
Flannery O'Connor, Um Homem Bom é Difícil de Encontrar, 1953, na fala que fecha o conto. Em tradução literal: ela teria sido uma boa mulher, se houvesse alguém por perto para atirar nela cada minuto da vida.
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A palavra é a mesma, o sentido não. No balcão, homem bom era quem fia gasolina para um desconhecido; na última linha, boa mulher é alguém que só seria boa sob ameaça permanente.
Essa segunda aparição faz três coisas ao mesmo tempo.
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Primeiro, ela obriga o leitor a voltar. A palavra chega carregada e não bate com o lugar de onde saiu, então o leitor procura na memória onde leu aquilo antes.
Segundo, ela transfere a autoridade da frase. Quem definia homem bom era o dono do balcão, com a régua do fiado; quem define no fecho é o foragido, com uma régua que ninguém aceita.
Terceiro, ela acende o título. O nome no alto da primeira página deixa de ser etiqueta e vira a pergunta que o conto vinha fazendo o tempo inteiro.
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Observe o que O'Connor não fez. Ela não repetiu a frase inteira, não pôs a sentença na boca da avó como último suspiro, não deixou o narrador explicar a troca.
Uma palavra só voltou, e o resto do trabalho ficou com o leitor.
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O título não resume o conto: é uma fala solta de personagem secundário, e a última linha é que decide o sentido dela.
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II A Engrenagem
A frase volta como sentença
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A figura tem nome antigo, antanáclase, do grego antanáklasis, reflexo de volta, e descreve a repetição da mesma palavra com o sentido trocado na segunda vez. A lei por trás do efeito cabe numa frase curta:
Não resuma o texto no título: colha o título de dentro dele.
A diferença entre o título que anuncia o que vem e o título que só fecha o sentido na última linha.
Ler é prever. O leitor entra pelo título, monta uma expectativa com ele e esquece o nome do texto na terceira linha, porque a porta de entrada já cumpriu o papel.
Colher a frase de dentro do texto adia o pagamento. O título vira promessa que a cena do meio faz em voz baixa, e que só o fecho cumpre.
A frase gasta funciona melhor que a bonita. Ninguém desconfia de um lugar-comum na boca de um dono de lanchonete, e o leitor precisa passar batido na primeira aparição para levar o susto na segunda.
No conto, a frase já vinha usada de fábrica: Um Homem Bom é Difícil de Encontrar é o nome de uma canção popular de 1918, de Eddie Green, gravada por Bessie Smith na década seguinte.
A escolha da frase decide o resultado. Precisa ser algo que o personagem diria de qualquer jeito, mesmo que o texto não precisasse de título, senão o leitor sente a mão do escritor plantando a peça.
O método cobra um preço, e vale registrar. Se o fecho não voltar à palavra, o título colhido vira citação interna sem função, e o leitor termina sem entender aquele nome no alto.
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O leitor não guarda o título porque ele é bonito: guarda porque a última linha obrigou a reler uma frase que já tinha passado.
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Machado de Assis colheu um apelido em 1899. Dom Casmurro nasce no primeiro capítulo, quando um poeta ofendido com o cochilo do narrador o batiza assim, e o livro vira a prova do nome.
J.D. Salinger colheu uma fala do protagonista em 1951. O Apanhador no Campo de Centeio sai de uma cena no meio do livro, quando Holden descreve o único trabalho que gostaria de ter.
Harper Lee colheu um conselho de pai em 1960. Em O Sol é Para Todos, a frase sobre não fazer mal ao pássaro que só canta passa de raspão no começo e volta no fim pela boca da filha.
Joseph Heller colheu um termo de diálogo em 1961. Em Ardil 22, a expressão nasce numa conversa entre dois personagens e ganha sentido novo a cada retorno, até virar o nome da lógica do livro.
Nos quatro casos a peça é a mesma. O título não descreve o livro por fora, sai de dentro de uma fala, e a força vem de o leitor cruzar com ele sem saber que era o título.
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