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ED 082

O Título Colhido na Lanchonete

Como Um Homem Bom é Difícil de Encontrar, de 1953, tira o próprio título de uma fala banal no balcão e devolve a mesma palavra no fecho.

Balcão de uma lanchonete de beira de estrada na Geórgia dos anos 1950, ventilador de teto e luz baixa sobre a fórmica

Balcão de lanchonete numa estrada da Geórgia

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Numa lanchonete de beira de estrada, na Geórgia, um macaco acorrentado a uma árvore cata pulgas do próprio pelo enquanto uma família de seis pessoas espera o sanduíche.

O dono do lugar chega ao balcão limpando as mãos e começa a reclamar do mundo. Na semana anterior, dois rapazes num Chrysler velho pediram gasolina fiado, e ele deixou.

A avó da família responde na hora que ele fez aquilo porque é um homem bom. Ele aceita o elogio meio sem jeito, e a mulher dele emenda que não dá para confiar em ninguém.

O conto é Um Homem Bom é Difícil de Encontrar, de Flannery O'Connor, publicado em 1953 e escolhido dois anos depois para batizar o livro inteiro.

A frase que dá nome ao conto está inteira dentro daquela conversa de balcão. Não é epígrafe, não é comentário do narrador, não é fala de personagem principal.

Quem diz é o dono da lanchonete, e o assunto é pequeno: freguês que não paga, porta de tela que ninguém mais deixa destrancada, tempo que piorou.

O leitor passa por ali sem parar. A frase soa gasta, parece conversa de fila de banco, e o olho corre para o parágrafo seguinte sem guardar nada.

No fim do conto, num barranco de estrada de terra, a mesma palavra volta na boca de outra pessoa, e o leitor descobre que leu o título sem ver.

O problema que a manobra ataca é o de todo título. Como fazer o nome trabalhar dentro do texto, em vez de ficar pendurado no alto da página como etiqueta?

A saída comum é resumir. O escritor procura uma frase bonita que descreva o assunto por fora, e o título vira placa de estrada: informa o que vem e para por aí.

O'Connor faz o contrário. Ela colhe o título de dentro de uma cena secundária, deixa a frase passar como fala banal e devolve a mesma palavra no fecho, com um peso que a cena não tinha.

Comece pelo balcão, no ponto exato em que a frase é dita pela primeira e única vez.

Vamos desmontar.

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I  A Desmontagem

Uma queixa dita entre dois pedidos

 
 

Comece pela conta bruta, que é a parte medível de fora. A frase do título aparece uma vez só nas páginas, e quem a diz não é a avó, nem o narrador, nem o homem do fim.

Quem diz é Red Sammy Butts, dono de um posto com salão de dança e balcão de sanduíche. Ele ocupa duas páginas e some, sem voltar.

A conversa que leva até ela começa por dinheiro. O dono conta que fiou gasolina para dois desconhecidos, pergunta em voz alta por que fez aquilo, e a avó responde na hora: porque o senhor é bom.

A mulher dele corta o assunto dizendo que não existe uma alma neste mundo em que se possa confiar. Aí vem a fala que batiza o conto:

"A good man is hard to find. Everything is getting terrible. I remember the day you could go off and leave your screen door unlatched. Not no more."

Flannery O'Connor, Um Homem Bom é Difícil de Encontrar, 1953, na fala do dono da lanchonete. Em tradução literal: um homem bom é difícil de encontrar, tudo está ficando terrível, lembro do tempo em que dava para deixar a porta de tela destrancada.

 

Repare no tamanho do assunto. A frase serve a uma queixa doméstica sobre freguês desonesto e porta destrancada, e é dita entre um pedido de Coca-Cola e outro.

Repare também no que o narrador faz depois dela. Nada. Nenhum comentário, nenhum grifo, nenhuma linha em branco em volta da sentença que dá nome ao conto.

A frase segue viagem com a família. O carro entra numa estrada de terra atrás de uma casa que a avó jura ter visitado na infância, e capota num barranco.

É lá que a história encontra o foragido da penitenciária, chamado no texto de O Desajustado. A avó tenta salvar a família com o vocabulário do balcão: repete que sabe que ele é um homem bom.

A última fala do conto devolve a palavra:

"She would of been a good woman, if it had been somebody there to shoot her every minute of her life."

Flannery O'Connor, Um Homem Bom é Difícil de Encontrar, 1953, na fala que fecha o conto. Em tradução literal: ela teria sido uma boa mulher, se houvesse alguém por perto para atirar nela cada minuto da vida.

 

A palavra é a mesma, o sentido não. No balcão, homem bom era quem fia gasolina para um desconhecido; na última linha, boa mulher é alguém que só seria boa sob ameaça permanente.

Essa segunda aparição faz três coisas ao mesmo tempo.

Primeiro, ela obriga o leitor a voltar. A palavra chega carregada e não bate com o lugar de onde saiu, então o leitor procura na memória onde leu aquilo antes.

Segundo, ela transfere a autoridade da frase. Quem definia homem bom era o dono do balcão, com a régua do fiado; quem define no fecho é o foragido, com uma régua que ninguém aceita.

Terceiro, ela acende o título. O nome no alto da primeira página deixa de ser etiqueta e vira a pergunta que o conto vinha fazendo o tempo inteiro.

 

Observe o que O'Connor não fez. Ela não repetiu a frase inteira, não pôs a sentença na boca da avó como último suspiro, não deixou o narrador explicar a troca.

Uma palavra só voltou, e o resto do trabalho ficou com o leitor.

O título não resume o conto: é uma fala solta de personagem secundário, e a última linha é que decide o sentido dela.

 
 
 
 

II  A Engrenagem

A frase volta como sentença

 
 

A figura tem nome antigo, antanáclase, do grego antanáklasis, reflexo de volta, e descreve a repetição da mesma palavra com o sentido trocado na segunda vez. A lei por trás do efeito cabe numa frase curta:

Não resuma o texto no título: colha o título de dentro dele.

A diferença entre o título que anuncia o que vem e o título que só fecha o sentido na última linha.

Ler é prever. O leitor entra pelo título, monta uma expectativa com ele e esquece o nome do texto na terceira linha, porque a porta de entrada já cumpriu o papel.

Colher a frase de dentro do texto adia o pagamento. O título vira promessa que a cena do meio faz em voz baixa, e que só o fecho cumpre.

A frase gasta funciona melhor que a bonita. Ninguém desconfia de um lugar-comum na boca de um dono de lanchonete, e o leitor precisa passar batido na primeira aparição para levar o susto na segunda.

No conto, a frase já vinha usada de fábrica: Um Homem Bom é Difícil de Encontrar é o nome de uma canção popular de 1918, de Eddie Green, gravada por Bessie Smith na década seguinte.

A escolha da frase decide o resultado. Precisa ser algo que o personagem diria de qualquer jeito, mesmo que o texto não precisasse de título, senão o leitor sente a mão do escritor plantando a peça.

O método cobra um preço, e vale registrar. Se o fecho não voltar à palavra, o título colhido vira citação interna sem função, e o leitor termina sem entender aquele nome no alto.

O leitor não guarda o título porque ele é bonito: guarda porque a última linha obrigou a reler uma frase que já tinha passado.

 

Machado de Assis colheu um apelido em 1899. Dom Casmurro nasce no primeiro capítulo, quando um poeta ofendido com o cochilo do narrador o batiza assim, e o livro vira a prova do nome.

J.D. Salinger colheu uma fala do protagonista em 1951. O Apanhador no Campo de Centeio sai de uma cena no meio do livro, quando Holden descreve o único trabalho que gostaria de ter.

Harper Lee colheu um conselho de pai em 1960. Em O Sol é Para Todos, a frase sobre não fazer mal ao pássaro que só canta passa de raspão no começo e volta no fim pela boca da filha.

Joseph Heller colheu um termo de diálogo em 1961. Em Ardil 22, a expressão nasce numa conversa entre dois personagens e ganha sentido novo a cada retorno, até virar o nome da lógica do livro.

Nos quatro casos a peça é a mesma. O título não descreve o livro por fora, sai de dentro de uma fala, e a força vem de o leitor cruzar com ele sem saber que era o título.

 

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III  Na Oficina

Colha o seu título de dentro da cena

 
 

Ache o título que já está escrito

 

Escreva o texto inteiro antes de escolher o nome. Título decidido antes vira promessa que o texto tem que cumprir; título decidido depois vira colheita, e a diferença aparece na última linha.

Volte ao texto pronto grifando toda frase dita por alguém: fala de personagem, resposta de entrevistado, frase de mãe, reclamação de cliente. Só entram falas, nunca o narrador.

Descarte as bonitas e fique com a mais gasta. Lugar-comum, queixa de balcão, provérbio de avó: o que passa despercebido na primeira leitura é o que pode voltar carregado na última página.

Teste a fala no lugar onde ela nasceu. Se o personagem só pode dizer aquilo porque você precisava de um título, a frase está fora do texto, e o leitor sente.

Deixe a primeira aparição sem grifo nenhum. Sem itálico, sem parágrafo isolado, sem narrador comentando que as palavras ficaram no ar. A frase tem que passar como passa qualquer fala de balcão.

Escolha uma palavra da frase para voltar no fim. A frase inteira repetida vira eco de refrão; uma palavra sozinha volta com espaço para mudar de sentido.

Ponha a segunda aparição na boca de quem tem autoridade contrária. Se a primeira foi dita por um personagem simpático, a segunda ganha peso na boca de quem o leitor não queria ouvir.

Meça a distância entre as duas. A primeira vive no meio do texto, longe da abertura para não parecer anúncio; a segunda mora nas últimas linhas, onde não sobra espaço para explicação.

Corte o comentário depois do retorno. Se o narrador explica que a palavra mudou de sentido, o leitor perde o trabalho de juntar as duas pontas e a peça inteira desmonta.

Teste com um leitor de fora. Pergunte, no fim, onde apareceu o título pela primeira vez: se ele responde na hora, você plantou alto demais; se não acha nunca, enterrou fundo demais.

Por último, releia o texto pelo nome que ele leva. Se a última página não muda o sentido do título, o nome ainda é etiqueta colada por fora, e o texto segue sem batismo.

 
 
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Quiz da edição

No balcão da lanchonete, quem pronuncia pela primeira e única vez a frase que dá título ao conto de Flannery O'Connor?

AA avó da família, elogiando o dono do lugar
BRed Sammy Butts, dono da lanchonete, reclamando dos fregueses
CO Desajustado, no barranco da estrada de terra
DA mulher de Red Sammy, contradizendo o marido

Resultado da última edição: 67% acertaram.

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