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A Sextilha do Cordel Rima Só 3 Versos

Como o poeta de feira prende a história em seis versos com três rimas e numa folha dobrada em oito páginas.

Folhetos de cordel pendurados num barbante de feira

Folhetos pendurados no barbante da feira

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Todo poeta iniciante de cordel chega à feira com a mesma frase pronta: “Rimei os seis versos, ficou mais rico.” Ficou errado. Na sextilha do folheto nordestino, a estrofe de seis versos, quem rima tudo quebra a forma, e o ouvido do comprador percebe na hora.

A conta é fixa. O segundo, o quarto e o sexto verso rimam entre si; o primeiro, o terceiro e o quinto ficam soltos. Cada verso tem sete sílabas poéticas, a redondilha maior (o verso de sete sílabas contadas até a última tônica), o metro das cantigas de roda e dos ditados.

Uma estrofe escrita para esta edição mostra a montagem: “O poeta chega cedo / com a mala de papel, / pendura o folheto novo / no barbante do cordel / e canta pra quem passar / a sina de Rafael.”

Papel, cordel e Rafael fazem a rima nos versos pares. Cedo, novo e passar não rimam com nada, e a estrofe respira justamente nesses três pontos soltos: ali o poeta escolhe a palavra pelo sentido, sem caçar som.

A segunda conta vem da gráfica. O folheto é uma folha de papel impressa dos dois lados e dobrada até virar caderno. Uma dobra dá quatro páginas, duas dão oito, três dão dezesseis. A história não escolhe quantas páginas terá: a dobra escolhe por ela.

Folheto de oito páginas pede um caso curto, uma peleja (o desafio de versos entre dois cantadores), uma notícia, uma piada. Dezesseis ou trinta e duas páginas já comportam romance, com herói, viagem e casamento no final. Em qualquer formato, a última estrofe cai na última página, sem folha sobrando para remendar.

As duas contas juntas formam uma escola rara de concisão. O poeta precisa saber, antes do primeiro verso, quantas estrofes cabem e onde a história termina.

A Desmontagem começa pelo homem que fez da sextilha o padrão das feiras e pelo motivo de três versos ficarem sem rima.

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I  A Desmontagem

Três rimas e três versos soltos

 
 

A resposta de ontem

Quem apelidou o Boeing 299 de Fortaleza Voadora?

Richard L. Williams, repórter do The Seattle Times. Ao ver o protótipo sair do hangar da Boeing em 1935, cheio de posições de metralhadora, ele escreveu na legenda da foto 15-Ton Flying Fortress, e a Boeing gostou tanto da expressão Flying Fortress que a registrou como marca do avião.

Leandro Gomes de Barros nasceu em 1865 em Pombal, no sertão da Paraíba, e fez a vida adulta no Recife imprimindo e vendendo os próprios versos. Os pesquisadores da Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro, que guarda um dos grandes acervos de folhetos do país, apontam nele o primeiro poeta brasileiro a viver da venda de cordel.

Leandro publicou a partir de 1893, em tipografias do Recife, e escreveu centenas de títulos até 1918, ano da morte dele. Os temas iam da sátira ao governo às histórias de princesa, e quase todos saíam em sextilha.

A forma que ele consolidou veio da cantoria de viola, o repente cantado em dupla nas fazendas e nas feiras. O cantador improvisa na hora, e a sextilha com três rimas é a estrofe mais generosa para quem cria sem papel: a cada dois versos, só um precisa achar o som combinado.

A conta das sílabas também tem regra própria. Conta-se até a última sílaba forte do verso, e vogais vizinhas entre palavras se fundem numa só, como em “pendura o folheto”, em que o final de “pendura” e o artigo “o” contam como uma sílaba só.

Os versos ímpares funcionam como respiro. Neles entra a informação: quem chegou, o que trazia, em que cidade. Nos versos pares entra o arremate sonoro, que gruda o verso na memória de quem ouviu uma vez só, na feira, sem comprar o folheto.

Muitos compradores dos primeiros folhetos não sabiam ler. Levavam o folheto para casa e pediam a um vizinho alfabetizado que lesse alto à noite, no terreiro. O folheto vivia no ouvido antes de viver no olho, e a rima fixa nos pares servia de trilho para quem acompanhava sem ver a página.

A sextilha aguenta peso porque a mesma rima volta três vezes. O poeta precisa achar três palavras com o mesmo final. Quem escolhe uma terminação farta, como -ão, ganha rima fácil e perde surpresa; quem escolhe -el ou -ilha tem menos opções, e cada achado soa conquistado.

Leandro também usava a septilha, estrofe de sete versos em que o segundo, o quarto e o sétimo rimam entre si e o quinto rima com o sexto. Usava ainda a décima, estrofe de dez versos que a cantoria reserva aos desafios mais duros.

Na sextilha, três versos carregam a história e três carregam o som, e a estrofe só fica de pé quando cada metade faz o próprio serviço.

 
 
 
 
 

II  A Engrenagem

A folha dobrada decide o final

 
 

Leandro Gomes de Barros pensava a história em cadernos. A folha saía da tipografia impressa dos dois lados, ia para a dobra e virava folheto de oito páginas, com a capa ocupando a primeira.

Com a capa tomada pelo título e por uma vinheta, sobravam sete páginas de verso. O poeta conhecia quantas estrofes cabiam em cada página no tipo da gráfica que usava, e escrevia já contando.

Poetas e editores chamavam de folheto o caderno de oito páginas e de romance o de dezesseis páginas em diante. O romance abrigava a saga de cavaleiro, princesa e encantamento; o folheto, o caso da semana.

Uma página a mais custava papel e tinta, e o preço de capa precisava caber no bolso do vaqueiro. A história, portanto, cedia à folha. Se a trama pedia nove páginas, o poeta cortava episódio, juntava duas falas numa estrofe e entregava em oito.

O final tinha função de assinatura. Leandro escrevia a última estrofe em acróstico (composição em que as letras iniciais dos versos formam uma palavra), e as sete iniciais da septilha final soletravam L, E, A, N, D, R, O.

O acróstico era defesa contra pirataria. Gráficas copiavam folhetos de sucesso e trocavam a assinatura da capa, mas não conseguiam mexer na última estrofe sem desmontar a rima. A assinatura ficava presa dentro do poema.

A exigência pesava em dobro: a história precisava terminar exatamente na última página, e a estrofe derradeira ainda precisava soletrar o poeta sem perder a métrica nem a rima.

Depois de 1918, a viúva de Leandro vendeu os direitos dos folhetos dele a um editor do Recife, em 1921. Os folhetos voltaram às feiras com outra assinatura na capa, mas o acróstico da última estrofe continuou soletrando o autor original.

O folheto não estica: a dobra fixa as páginas antes do primeiro verso, e a história se planeja de trás para a frente, da estrofe final até a capa.

 
 
 

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III  Na Oficina

Escrever com a última página à vista

 
 

As duas contas do cordel servem a quem escreve email, relatório ou post com espaço limitado. A rima nos pares ensina a separar o que informa do que fixa; a folha dobrada ensina a planejar o final antes do começo.

Num parágrafo de trabalho, as frases de informação equivalem aos versos ímpares: dizem o dado, a data, o responsável. A frase final equivale ao verso par, a que o leitor leva embora. Parágrafo sem essa frase é estrofe sem rima, e o leitor esquece o conteúdo na leitura seguinte.

O limite de espaço funciona como a folha. Um email que precisa caber numa tela de celular sem rolagem é um folheto de oito páginas: a história precisa terminar ali, e quem descobre a falta de espaço no meio da escrita corta o final às pressas.

O mesmo vale para o relatório com número fixo de páginas e para o post com limite de caracteres. Quem conhece o limite cedo distribui o espaço; quem descobre tarde corta o que estiver mais perto do final.

Para escrever com a última página à vista, quatro passos:

Passo a passo

 

1. Defina o espaço antes de escrever: uma tela, um parágrafo, trezentas palavras.

2. Escreva primeiro a frase final, a que o leitor precisa levar; ela é a estrofe do acróstico.

3. Distribua o resto do espaço entre as frases de informação, uma ideia por frase, como os versos ímpares.

4. Releia e corte o episódio que não leva até a frase final, mesmo que seja bom.

 

Um pedido ao chefe, com espaço de uma tela, mostra o método. A frase final é “Preciso da aprovação até quinta para fechar o contrato com a gráfica.” As frases de informação dizem o valor, o prazo do fornecedor e o risco de perder a data. O que não leva à aprovação sai, inclusive o histórico da negociação.

A versão sem plano começa pelo histórico, gasta a tela contando a negociação e chega ao pedido no terceiro parágrafo, quando o chefe já rolou para o email seguinte.

O ganho aparece no relógio de quem lê: o pedido chega na primeira tela, a decisão sai no mesmo dia, e o histórico fica guardado para quem perguntar por ele.

O cordel atravessou rádio, televisão e internet com as mesmas duas contas. Em 2018, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) registrou a literatura de cordel como patrimônio cultural imaterial do Brasil, e as feiras do Nordeste ainda penduram folhetos de oito páginas no barbante.

Teste hoje: pegue o último email longo que você mandou e sublinhe a frase que o leitor precisava levar. Conte as frases antes dela e marque as que não ajudam a chegar lá. Se as marcadas passarem de um terço, o email cabia em metade do espaço.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Quem comprou os folhetos de Leandro Gomes de Barros em 1921?

 
 
 
Quiz da edição

Quantos versos tinha a estrofe final em que Leandro Gomes de Barros escondia a própria assinatura em acróstico?

ASeis versos, os mesmos da sextilha
BSete versos, os da septilha
COito versos, um por página do folheto
DDez versos, os da décima

Resultado da última edição: 90% acertaram.

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