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A Desmontagem do Dia
O Romance Sem a Letra E
Como Georges Perec, em O Sumiço, de 1969, sustenta um romance policial inteiro sem a letra mais frequente do idioma, perde de uma vez a conjunção, a preposição e o verbo ser no presente, e prova que proibir a palavra fácil obriga a frase a nascer fora do vocabulário automático
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Bom dia, Engenheiro(a) da Escrita!
Em 1969, uma editora francesa lançou um romance policial de quase trezentas páginas em que um homem some do próprio apartamento. O livro tem trama, diálogo, perseguição e um grupo de amigos atrás do sumido. Não tem uma única letra E.
O autor se chama Georges Perec, e a piada começa na capa: o nome dele carrega três das letras que o livro inteiro se recusa a usar.
Parece proeza de festa, aposta de bar transformada em volume encadernado. Mas a peça é calculada: o E é a letra mais frequente do francês, aparece em cerca de uma a cada seis, e leva junto quase toda a gramática de ligação do idioma.
Um escritor comum resolveria de dois jeitos. Ou escolheria uma letra rara, o K, o W, o Z, e a restrição não mudaria uma vírgula do texto. Ou anunciaria a regra na orelha do livro e entregaria trezentas páginas ilegíveis, orgulhosas da própria dificuldade.
Perec recusa as duas saídas. Ele proíbe a letra mais cara do idioma e escreve um romance que se lê como romance, com trama, humor e suspense, a ponto de parte da crítica da época resenhar o livro sem notar o que faltava.
O problema que a escolha ataca é dos mais teimosos de quem escreve: como sair do vocabulário automático, aquele punhado de palavras e construções que a mão entrega sozinha, sempre na mesma ordem, antes da cabeça pedir.
O escritor iniciante trava nessa conta. Se escreve solto, produz a média do que já leu. Se persegue originalidade no esforço, força a palavra difícil no lugar da fácil, e o texto sai empolado, com a costura à mostra.
Vamos desmontar.
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Abra o romance na primeira frase, ainda no original francês, e confira a conta:
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"Anton Voyl n'arrivait pas à dormir."
A frase que abre o livro, sem a letra proibida, e o nome do sumido saiu de voyelle, vogal
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Repare no que o nome faz. Voyl é vogal sem a vogal, o próprio buraco batizado de personagem. O sujeito que some do livro é a letra que sumiu do livro, e a trama passa a girar em volta de uma ausência que ninguém em cena consegue nomear.
A restrição custa caro em francês. Sem o E vão embora os artigos le e les, o verbo est, o pronome je, a marca de plural, a marca de feminino e a terminação dos particípios. O idioma perde justamente a metade que serve para amarrar frase.
A conta fica ainda mais dura na edição brasileira, publicada em 2016 com o título O Sumiço e com a mesma proibição de pé:
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"de, e, é, em, que, ele, ela, este, esse, quem, entre, sempre, também, você"
O que o português perde por causa de uma letra só, e o livro brasileiro roda sem nenhuma dessas palavras
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Leia a lista devagar e meça o tamanho do buraco. Some a conjunção mais usada do idioma, some a preposição que constrói toda posse, some o verbo ser no presente, some o pronome que aponta para a pessoa da frase.
Curioso é o que sobra de pé. As contrações do e da continuam valendo, o plural são continua valendo, e o texto passa a se apoiar nelas: sem o singular do verbo, a frase migra para o plural; sem a preposição solta, ela vira posse contraída.
A regra não é enfeite de vitrine, o tipo de proeza que se admira de longe e se esquece na página seguinte. A proibição trabalha dentro da frase: cada vez que a mão vai buscar a palavra automática, a regra bate na porta e obriga um desvio.
Essa construção faz três coisas ao mesmo tempo.
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Primeiro, ela queima o vocabulário automático. As primeiras opções de qualquer escritor estão contaminadas pela letra proibida, e o que sobra fica fora do alcance da mão preguiçosa. A frase nasce num terreno que o hábito nunca pisa.
Segundo, ela vira enredo. A letra ausente não é apenas regra de escrita, é o mistério do livro: os personagens perseguem uma coisa que some sempre que chegam perto, e a investigação da trama vira a investigação da própria forma.
Terceiro, ela mantém pressão constante. Numa página comum, boa parte das frases sai no piloto automático. Sob restrição, nenhuma sai de graça: cada linha passou por uma decisão, e o texto chega com a densidade de quem escolheu palavra por palavra.
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Observe o detalhe fino. Perec poderia ter proibido o K ou o W, letras que quase não aparecem em francês, e a regra caberia numa nota de rodapé sem tocar em uma vírgula do texto.
Nessa versão a proibição seria adereço. O escritor continuaria escrevendo o que escreveria de qualquer jeito, e o leitor receberia a curiosidade de um dado técnico, nunca um livro diferente.
Na versão que ele escreveu, a regra pega em cada linha. Quanto mais cara a proibição, mais longe do óbvio a frase precisa ir, e é dessa distância forçada que sai a imagem que o vocabulário automático jamais entregaria.
Há ainda a camada que o livro nunca explica. Perec ficou órfão na guerra, o pai não voltou do front em 1940, a mãe foi deportada em 1943, e as duas palavras francesas que nomeiam os dois, père e mère, não podem ser escritas sem a letra que ele proibiu.
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Perec não escreveu apesar da letra ausente, escreveu por causa dela, porque só uma proibição cara consegue tirar a frase do piloto automático.
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O recurso tem nome antigo: lipograma, do grego, o texto que deixa uma letra de fora, exercício de virtuose já praticado na Grécia antiga, e a lei por trás do efeito cabe numa frase curta:
O que a regra proíbe, a frase é obrigada a inventar.
A ideia de que a restrição não empobrece o texto, ela desvia a mão para fora do caminho batido.
Quando o escritor senta sem regra nenhuma, produz a média do que já leu. A folha em branco não oferece resistência, e sem resistência a mão repete as construções que domina, na ordem em que aprendeu.
Quando a regra existe só para aparecer, o resultado azeda pelo lado oposto. O texto vira demonstração, o leitor percebe o truque antes da história, e a proeza técnica cobra a atenção que deveria estar na cena.
A alavanca não nasceu em Paris. Em 1939, o americano Ernest Vincent Wright publicou Gadsby, romance de cinquenta mil palavras sem uma letra E, e contou ter amarrado a tecla da máquina de escrever para não escorregar no meio do parágrafo.
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Restrição não é obstáculo entre você e o texto, é a força que empurra a frase para onde o hábito nunca a levaria sozinho.
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Dr. Seuss trabalha a mesma alavanca em outro andar. Desafiado pelo editor a escrever um livro infantil usando cinquenta palavras diferentes, ele entregou "Green Eggs and Ham", que virou um dos livros mais vendidos da história, com um ritmo hipnótico que a lista curta impôs sozinha.
Joyce resolve o problema pelo caminho oposto. Em "Finnegans Wake", ele não subtrai nada, ele soma: funde palavras de dezenas de idiomas até que nenhuma frase possa ser lida no automático, e o leitor precise soletrar bloco por bloco.
Perec leva o método ao limite. A restrição dele não fica no rodapé da obra, ela é a obra: o sumido se chama Voyl, o buraco é o enredo, e quem descobre a regra descobre no mesmo instante o segredo do livro.
Vale ainda olhar as traduções. A inglesa se chama "A Void" e também abre mão do E; a espanhola trocou de alvo e baniu o A, letra mais frequente por lá, o que prova que a regra vale pela dificuldade, não pela letra.
Nos quatro casos a régua é a mesma. A restrição precisa custar caro, e precisa desaparecer dentro do texto, para que o leitor sinta o efeito muito antes de descobrir a mecânica.
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Proíba a palavra que mais aparece no seu texto
Pegue um texto seu já pronto, um email, uma página de vendas, o capítulo travado. Passe os olhos e marque as três palavras que mais se repetem, fora artigos e preposições.
Proíba a primeira delas, justamente a que nomeia o assunto. Reescreva o trecho inteiro sem ela e sem sinônimo direto, o que obriga a mostrar por cena, por objeto ou por consequência aquilo que a palavra resolvia sozinha.
Depois suba um degrau e proíba a sua estrutura preferida, aquela que você repete sem perceber: a oração aberta por "quando", a emenda de duas ideias com "que", o adjetivo colado no substantivo. Uma proibição por rodada, nunca duas.
Teste lendo as duas versões em voz alta para alguém e faça uma pergunta só: qual delas deixou uma imagem na cabeça. Se a versão restrita produziu imagem e a original produziu apenas informação, a regra fez o trabalho.
O objetivo não é escrever sem uma letra, é descobrir quanto do seu texto vinha da mão e não da cabeça, porque a restrição é o jeito mais rápido de encontrar as frases que você nunca escreveria por conta própria.
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