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A Desmontagem do Dia
A Palavra que Fabiano Não Tem
Como Graciliano Ramos, em Vidas Secas, usa o discurso indireto livre para emprestar a Fabiano as palavras que o personagem não possui, marcando a falta na mesma frase em que entrega o pensamento, e mostrando que profundidade nasce da distância entre o que se sente e o que se consegue dizer
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Bom dia, Engenheiro(a) da Escrita!
Em "Vidas Secas", romance de 1938, Fabiano pensa frases que jamais conseguiria dizer. Quem escreve essas frases é um narrador em terceira pessoa, com um vocabulário que o vaqueiro não tem e nunca vai ter.
O personagem atravessa o livro tentando se nomear e falhando. Diz em voz alta que é homem, se corrige em silêncio e conclui que é bicho, tudo no espaço de poucas linhas.
Parece apenas retrato de miséria, um sujeito pobre de tudo, inclusive de palavras. Mas a peça central é o narrador: ele empresta o vocabulário ao personagem e, na mesma frase, avisa que o empréstimo aconteceu.
Um escritor comum resolveria de dois jeitos. Ou daria a Fabiano um discurso articulado, e o vaqueiro viraria um bacharel de gibão e chapéu de couro. Ou o deixaria mudo, e o leitor ficaria do lado de fora daquela cabeça.
Graciliano Ramos recusa as duas saídas. Ele escreve o pensamento com sintaxe de gramático e mantém intacta a incapacidade do personagem de formular esse mesmo pensamento.
O problema que a escolha ataca é dos mais teimosos da terceira pessoa: como entrar na cabeça de alguém que tem menos palavras que você sem tirar dele justamente a falta que o define.
O escritor iniciante trava nessa conta. Se escreve como o personagem falaria, o texto fica raso e a cena não pensa. Se escreve como ele mesmo escreve, o personagem some e sobra o autor exibindo repertório.
Vamos desmontar.
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Vá ao trecho em que Fabiano tenta se definir, sozinho no meio do caminho, com a mulher e os meninos a poucos passos:
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"Fabiano, você é um homem, exclamou em voz alta."
A única definição que ele sustenta precisa ser gritada para existir
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Repare no que a construção faz. O narrador não escreve que Fabiano pensou ser homem, escreve que ele exclamou. A afirmação só se firma dita em voz alta, e se apaga assim que o ar acaba.
O detalhe da plateia fecha o cerco. Ele se contém ao perceber os meninos por perto, com receio de ser visto falando sozinho, e a coragem recém-anunciada não sobrevive nem ao primeiro olhar de fora.
Poucas linhas depois, o mesmo homem, agora calado, desmonta o que acabou de afirmar, e o narrador registra a correção sem uma palavra de comentário:
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"Você é um bicho, Fabiano."
A segunda definição vem sem plateia, e é a que fica de pé
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Leia as duas frases juntas e meça a distância entre elas. Na primeira, um homem se afirma para os próprios ouvidos. Na segunda, o mesmo homem se rebaixa, e ninguém precisou contradizê-lo.
Entre uma e outra, o narrador faz o serviço pesado. Ele escreve que Fabiano era apenas um cabra ocupado em guardar coisas dos outros, uma formulação limpa, organizada, que o vaqueiro não produziria nem com uma semana de silêncio.
Não há aspas nessa passagem, nem um "ele pensou que" para avisar a troca de dono. O pensamento entra na narração como se pertencesse a quem narra, mas o conteúdo é todo do personagem. É discurso indireto livre em estado puro.
E o narrador faz uma coisa a mais, que quase ninguém faz: mantém colada na frase emprestada a etiqueta da falta. Fabiano recebe a ideia inteira e continua sem as palavras para dizê-la a qualquer pessoa do mundo dele.
O livro repete o gesto do começo ao fim. "Vivia longe dos homens, só se dava bem com animais": a frase tem o ritmo curto do personagem e a precisão que ele não alcança, e as duas coisas convivem sem atrito.
Essa construção faz três coisas ao mesmo tempo.
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Primeiro, ela empresta a sintaxe sem emprestar o mundo. As palavras do narrador são melhores que as de Fabiano, mas nomeiam apenas coisas que cabem na vida dele: gado, cerca, chão duro, patrão, soldado. Nenhuma abstração de fora entra naquela cabeça.
Segundo, ela marca a falta com verbos de hesitação. "Achava", "não sabia dizer", "com certeza", "pensando bem". Cada gancho desses avisa que o pensamento chegou torto ao personagem e foi endireitado no caminho até o papel.
Terceiro, ela deixa a contradição sem árbitro. Homem e bicho ficam na mesma página, e o narrador não diz qual das duas versões vale. Quem decide é o leitor, e a decisão pesa porque ninguém a entregou pronta.
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Observe o detalhe fino. Graciliano poderia ter escrito o mesmo trecho em discurso direto, com a fala transcrita foneticamente, "vosmecê", "num sei", "home", o pacote completo do regionalismo de época.
Nessa versão o livro perderia tudo na hora. O leitor ouviria o sotaque e pararia de escutar o pensamento, e Fabiano viraria tipo pitoresco, engraçado à distância, alguém para observar em vez de alguém para acompanhar.
Na versão que ele escreveu, a fala continua rara, quase inexistente, e o pensamento aparece inteiro. O que falta a Fabiano não é o que sentir, é como dizer, e a distância entre as duas coisas é o romance.
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Graciliano não escreve um homem sem pensamento. Ele escreve um pensamento sem palavras, e empresta as suas apenas para o leitor medir o tamanho do que falta.
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O recurso tem nome na teoria da narrativa: discurso indireto livre, o pensamento do personagem escrito na voz do narrador, sem aspas e sem verbo de introdução, e a lei por trás do efeito cabe numa frase curta:
O narrador empresta o vocabulário, nunca a voz.
A ideia de que traduzir o que o personagem sente é permitido, desde que a tradução continue visível no texto.
Quando o autor escreve o pensamento apenas com as palavras que o personagem usaria, a cena vira transcrição. O texto fica do tamanho do repertório de quem está em cena, e o leitor recebe pouco de um sujeito que sente muito.
Quando o autor escreve com as próprias palavras e esconde o empréstimo, o personagem some. Sobra um narrador culto emprestando profundidade a um boneco, e quem lê sente a costura mesmo sem saber apontar onde ela está.
A alavanca não nasceu no sertão. Flaubert já a usava em "Madame Bovary", quando a narração escorrega para dentro da cabeça de Emma e passa a pensar como ela, com uma precisão que a personagem nunca teria ao falar com o marido na mesa de jantar.
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Personagem funda não é a que pensa bonito, é a que sente mais do que consegue dizer, e o leitor enxerga a diferença sem que ninguém a explique.
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Guimarães Rosa resolve o mesmo problema pelo caminho oposto. Em "Grande Sertão: Veredas", ele entrega a narração ao próprio sertanejo, em primeira pessoa, e inventa uma língua inteira para que Riobaldo caiba nela sem precisar de intermediário.
Steinbeck faz a escolha de Graciliano em "Ratos e Homens". O narrador mostra o que se passa em Lennie com uma clareza que o personagem não alcançaria sozinho, e em nenhum momento finge que ele saberia dizer aquilo em voz alta.
Graciliano leva o método ao limite. Seu personagem não domina nem o idioma de quem manda nele, do patrão ao soldado da cidade, e mesmo assim pensa o romance inteiro, sempre pela mão de um narrador que não se apresenta.
Nos três casos a régua é a mesma. O leitor precisa receber o pensamento inteiro, e precisa continuar sabendo que o personagem não teria como formular aquilo sozinho.
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Empreste a palavra e deixe a dívida à vista
Pegue uma cena sua com um personagem que tem menos repertório que você: uma criança, um trabalhador de ofício braçal, alguém que domina um assunto com o corpo e nunca com a teoria.
Escreva o pensamento dele em terceira pessoa, sem aspas e sem "ele pensou que", usando a sua sintaxe. Corte todo substantivo que ele nunca encontrou na vida e deixe só o que existe dentro do mundo dele.
Depois volte ao texto e plante duas marcas de falta. Um verbo de hesitação num ponto, "achava", "não sabia dizer", e um momento em que ele tenta falar em voz alta e a frase sai menor do que aquilo que sentia.
Teste lendo a cena para alguém e faça duas perguntas: o que o personagem está sentindo, e se ele conseguiria explicar aquilo. Se a resposta da primeira vem fácil e a da segunda é não, o empréstimo está de pé. Se a pessoa achar que ele explicaria tudo direitinho, você emprestou demais.
O objetivo não é escrever mal para parecer com o personagem, é escrever bem sobre alguém que não escreveria nada, e deixar essa distância visível em cada parágrafo.
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