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A Desmontagem do Dia
O Ouvinte Que Nunca Responde
Como Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas, dá a Riobaldo um interlocutor que escuta o livro inteiro sem falar uma linha, mostrando que plantar um ouvinte mudo dentro do texto obriga o narrador a se justificar e coloca o leitor no lugar de quem julga
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Bom dia, Engenheiro(a) da Escrita!
Em "Grande Sertão: Veredas", Guimarães Rosa senta Riobaldo diante de um visitante chegado da cidade e o faz falar por mais de seiscentas páginas, sem que o visitante diga uma única linha do começo ao fim do livro.
O homem veio de fora, ficou uns dias na fazenda e escuta. Riobaldo lhe oferece café, pede paciência, agradece a atenção e responde perguntas que o leitor nunca ouve serem feitas. A conversa inteira corre numa direção só.
A cena parece um acaso de hospitalidade, um velho jagunço contando casos para uma visita educada. Mas há um julgamento pairando sobre a mesa, uma culpa antiga que Riobaldo precisa resolver, e o visitante calado é o tribunal.
Um escritor comum poria o visitante para falar. Ele faria perguntas, discordaria, ofereceria consolo, e o leitor acompanharia dois homens conversando sobre um passado difícil.
Rosa faz o oposto. Ele dá a Riobaldo um ouvinte que escuta tudo e não devolve nada, e deixa a narrativa inteira escorar nessa presença muda. O leitor lê a fala de um homem e sente o peso do silêncio do outro.
O problema que a escolha ataca é dos mais teimosos da primeira pessoa: como fazer o narrador se justificar diante de alguém, sem que o autor precise parar tudo para avisar o leitor de que há culpa em jogo.
O escritor iniciante acha que narrador em primeira pessoa fala sozinho, para o ar. Mas quem fala sozinho não precisa se defender. Quem fala para uma pessoa presente escolhe as palavras, adianta objeções, volta atrás e insiste.
Vamos desmontar.
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Volte à primeira página do livro, quando ainda não há história nenhuma contada e o velho jagunço precisa apenas segurar o visitante na cadeira por mais um minuto:
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"O senhor tolere, isto é o sertão."
Uma frase inteira endereçada a quem está ali, escuta e nunca devolve resposta
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Repare no que a frase faz. Ela pede licença, supõe estranhamento, antecipa a objeção do outro e a responde antes que o outro chegue a formulá-la. O visitante não reclamou de nada, e mesmo assim já foi acalmado.
O tratamento "o senhor" atravessa o livro inteiro, do primeiro parágrafo ao último. Não é vício de linguagem do personagem, é a espinha da narrativa: cada frase de Riobaldo nasce endereçada, cada memória sai calibrada para caber no ouvido de um homem específico.
Perto do fim, depois de centenas de páginas de fala sem uma réplica, a relação entre os dois já mudou de patamar, e Riobaldo a nomeia:
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"O senhor é um homem soberano, circunspecto. Amigos somos."
A amizade é firmada por um lado só, e ainda assim o leitor a sente selada
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Leia as duas falas juntas e meça a distância percorrida. Na primeira, um desconhecido recebe um pedido de tolerância. Na última, um amigo é reconhecido em voz alta. Entre uma e outra, o visitante não disse nada, e ainda assim mudou de posição.
Quem moveu o visitante foi a própria fala de Riobaldo. Como não vem resposta para confirmar nem para negar, todo o trabalho de aproximação recai sobre quem narra. Ele precisa conquistar, convencer e comover sem nunca receber um sinal de que está conseguindo.
Rosa poderia ter dado voz ao visitante. Bastariam algumas perguntas bem colocadas para organizar a cronologia e explicar ao leitor o que ainda falta saber. Uma solução limpa, cômoda e usada por meio século de romance brasileiro.
Ao calar o visitante, ele obriga cada frase a trabalhar dobrado. As perguntas que o outro faria precisam aparecer dentro da fala de Riobaldo, digeridas, respondidas de antemão, e cada digressão vira prova de um homem que teme não estar sendo entendido.
Essa construção faz três coisas ao mesmo tempo.
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Primeiro, ela transforma a narrativa em defesa. Ninguém se explica no vazio. Com um ouvinte plantado na cena, tudo que Riobaldo conta passa a ser argumento, e o leitor deixa de acompanhar uma memória para acompanhar um caso sendo defendido.
Segundo, ela dá corpo ao silêncio. O visitante não fala, mas ocupa uma cadeira, aceita o café e permanece. A ausência de resposta vira pressão constante, e a pressão aparece na sintaxe de quem narra, nas voltas, nas repetições, nos pedidos de licença.
Terceiro, ela promove o leitor a juiz. Como a cadeira do ouvinte está ocupada por alguém sem voz, quem lê escorrega naturalmente para dentro dela. O julgamento que o visitante não pronuncia sobra para o leitor pronunciar.
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Observe o detalhe fino. Rosa poderia ter deixado o visitante responder uma vez só, no meio do livro, uma frase curta de concordância para o leitor saber que a conversa é de fato uma conversa.
Nessa versão o romance perderia a tensão na hora. Confirmado por uma resposta, Riobaldo relaxaria, e a fala que era defesa viraria relato. O leitor, com o veredito já dado por outro, sairia da cadeira do juiz e voltaria para a plateia.
Na versão que ele escreveu, o silêncio nunca é preenchido. A cada dúvida que Riobaldo lança sobre o pacto, sobre a culpa, sobre o que existe ou não existe no mundo, o visitante continua calado, e a pergunta fica de pé, sem dono. Sobra o leitor.
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Rosa não escreve um homem lembrando do passado. Ele escreve um homem se explicando para alguém, e entrega ao leitor a cadeira de quem escuta e decide.
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O recurso tem nome na teoria da narrativa: narratário, a figura para quem o narrador dirige a fala dentro da própria obra, distinta do leitor de carne e osso que segura o livro, e a lei por trás do efeito cabe numa frase curta:
Quem escuta molda quem fala.
A ideia de que o formato de uma narração não é decidido pelo que aconteceu, e sim pela pessoa a quem se resolve contar.
Quando o narrador fala para ninguém, a memória sai arrumada, na ordem em que os fatos caíram, sem urgência nenhuma. Quando o narrador fala para alguém sentado à sua frente, a memória sai torta: pula o que envergonha, repete o que precisa provar, volta ao ponto que ficou mal explicado. A deformação é a informação.
A alavanca é antiga e o teatro a conhece bem. O monólogo dramático de Browning funciona pelo mesmo princípio: um duque mostra a um emissário calado o retrato da antiga esposa, e cada elogio que ele faz à moça o incrimina um pouco mais, sem que o emissário precise dizer uma palavra sequer.
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O leitor entra em qualquer história pela porta que o narrador deixa aberta, e a porta é sempre a pessoa a quem ele resolveu falar.
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As grandes confissões da literatura conhecem esse poder. Camus, em "A Queda", tranca o leitor num bar de Amsterdã com um advogado que fala sem parar a um interlocutor que jamais responde, e a defesa vai virando acusação conforme o silêncio se estende. Machado põe Bento Santiago a convencer o leitor de uma traição que ele nunca chega a provar. Rosa faz no sertão o que o francês faz no bar: dá ao narrador um ouvinte de carne, presente e mudo, e deixa a fala inteira se curvar para caber nele. Nos três casos o narrador não relata o passado, ele o negocia com quem está ouvindo. O leitor pensa que recebe uma história pronta, quando na verdade está sendo convencido, frase por frase, por um homem que precisa muito ser absolvido.
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Plante um ouvinte mudo na cena
Pegue uma cena sua em que o narrador conta o passado em primeira pessoa, sozinho, sem ninguém por perto. Agora coloque uma pessoa na sala e decida quem ela é: o filho, o delegado, o médico, o antigo sócio. Não dê a ela nenhuma fala. Reescreva a passagem inteira dirigida a ela, com tratamento, licença e pedido de paciência, e deixe as objeções dela aparecerem dentro da fala do narrador, respondidas antes de serem feitas.
Depois teste se o mudo está de pé. Leia a cena para alguém e pergunte quem está escutando o narrador ali dentro. Se a pessoa descreve o ouvinte, o tratamento, a postura, o tipo de julgamento que ele representa, o narratário funcionou. Se ela responde que o narrador fala para o leitor, a fala ainda está solta no ar, e falta endereço: um "o senhor", uma pergunta antecipada, um pedido de desculpa. O truque não é dar voz ao ouvinte, é fazer o narrador reagir a uma voz que nunca vem. Ajuste até que cada frase pareça escrita para convencer uma pessoa específica, sentada a um metro de distância.
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