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A Desmontagem do Dia
A Conversa que Evita o Assunto
Como Hemingway, em Colinas Como Elefantes Brancos, deixa dois personagens discutirem bebidas e paisagem enquanto a decisão que os separa nunca é dita, mostrando que o subtexto nasce quando se dá ao diálogo um assunto de fachada para esconder o verdadeiro
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Bom dia, Engenheiro(a) da Escrita!
Em "Colinas Como Elefantes Brancos", Hemingway coloca um homem e uma mulher numa estação de trem no calor da Espanha e os faz conversar por páginas sobre cerveja, sobre a cor dos morros e sobre o gosto de uma bebida nova, enquanto a única coisa que importa entre os dois nunca é dita em voz alta.
Eles esperam um trem que vai passar em poucos minutos. Pedem cervejas para vencer o calor. Ela olha as colinas do outro lado do vale e diz que parecem elefantes brancos. Ele responde que nunca viu um.
A cena parece leve, quase o bate-papo de um casal entediado numa plataforma. Mas há uma decisão pairando sobre a mesa, uma escolha que vai mandar cada um para um caminho, e os dois giram em torno dela sem nunca tocá-la.
Um escritor comum poria a discussão na mesa. Os personagens diriam o que sentem, defenderiam seus lados, e o leitor ouviria o conflito inteiro escrito com todas as letras.
Hemingway faz o oposto. Ele dá aos dois um assunto de fachada, a bebida e a paisagem, e esconde o assunto real atrás dele. O leitor escuta a conversa de superfície e sente, sem ser avisado, a conversa que não acontece.
O problema que a escolha ataca é o mais difícil do diálogo: como fazer o leitor sentir aquilo que os personagens não conseguem dizer, sem que o narrador precise parar tudo para explicar o que está em jogo.
O escritor iniciante acha que diálogo serve para transmitir informação. Mas a fala que entrega tudo mata a tensão no ato. A fala que esconde o centro obriga o leitor a se debruçar e escutar o que falta.
Vamos desmontar.
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Volte à plataforma da estação, ao momento em que ela olha para o outro lado do vale e faz o primeiro comentário, quando ainda não há briga nem confissão, só uma observação solta sobre a paisagem:
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"Parecem elefantes brancos."
A frase fala das colinas, e mesmo assim carrega o peso inteiro do que os dois não dizem
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Repare que a fala não menciona a decisão, não pede nada, não acusa ninguém. Comenta o formato de uns morros ao longe. E no entanto é ali, disfarçado numa observação de paisagem, que ela deixa escapar o nome da coisa que a assombra.
Um elefante branco, na expressão antiga, é um presente caro que ninguém quer e do qual ninguém consegue se livrar. Ela olha a paisagem e, sem perceber que faz, batiza o problema. A fachada e o assunto verdadeiro se tocam por um segundo, e passam.
Mais adiante, quando o assunto real chega mais perto da superfície, ele vem assim, pela boca do homem:
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"É uma operação simples, Jig. Nem chega a ser uma operação."
O mais perto que o assunto real chega da superfície, e ainda assim sem nome próprio
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Leia as duas falas juntas e sinta o buraco entre elas. Uma menciona elefantes, a outra menciona uma operação, e nenhuma diz o que de fato está em jogo entre os dois. O centro da conversa é um vazio que as duas contornam.
A palavra que resolveria tudo, o nome exato da escolha que os separa, nunca aparece na página. Os personagens sabem qual é. O leitor descobre pela forma como eles a evitam. E o narrador não gasta uma única linha explicando.
Hemingway poderia ter escrito a frase honesta: ele queria uma coisa e ela não tinha certeza. Uma linha, e o conflito estaria dito. Mas a fala que entrega o conflito inteiro o esvazia, e explicado o drama vira ata de reunião.
Ao esconder o nome, ele obriga cada gesto a trabalhar. A cerveja que ele pede, o jeito dela de olhar as contas de vidro na cortina, o trem que chega em cinco minutos: tudo ganha um segundo sentido, porque o primeiro já não basta para explicar a tensão no ar.
Essa construção faz três coisas ao mesmo tempo.
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Primeiro, ela transforma a superfície em disfarce. A bebida e a paisagem não são enchimento, são a máscara que o assunto veste para caber numa conversa civilizada. O leitor escuta a máscara e sente o rosto por baixo dela.
Segundo, ela promove o leitor a cúmplice. Como o nome nunca é dito, quem lê precisa fechar o buraco sozinho. E o sentido que a pessoa monta por conta própria gruda mais fundo do que qualquer frase que o autor tivesse escrito por ela.
Terceiro, ela mede o abismo entre os dois. Cada vez que um deles desvia para a bebida, o desencontro fica maior. O assunto de fachada vira o termômetro do quanto os dois já não conseguem se falar de verdade.
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Observe o detalhe fino. Hemingway poderia ter deixado os personagens nomearem a escolha uma vez, no meio do conto, só para o leitor não ter dúvida do que se trata.
Nessa versão o conto perderia o subtexto na hora. Nomeado o centro, as falas sobre cerveja viram só cerveja, pausa entre um argumento e outro, e a paisagem volta a ser cenário sem função nenhuma.
Na versão que ele escreveu, o nome ausente puxa tudo para si. A conversa mais banal fica carregada de eletricidade, porque o leitor sabe que nenhuma das falas é sobre o que finge ser.
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Hemingway não escreve a conversa que separa os dois. Ele escreve a conversa que os dois inventam para não ter a outra, e deixa o leitor ouvir as duas ao mesmo tempo.
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O recurso tem nome, e o próprio Hemingway batizou: a teoria do iceberg. Ele dizia que a força de um texto vem do que fica embaixo da linha da água, do que o escritor sabe e decide não escrever, e a lei por trás do efeito cabe numa frase curta:
Mostre a máscara, não o rosto.
A ideia de que o diálogo mais forte não diz o que o personagem quer, ele diz outra coisa qualquer e deixa o querer vazar por baixo da fala escolhida para escondê-lo.
Quando o assunto verdadeiro aparece nomeado na fala, o diálogo vira transporte de informação: o leitor recebe o dado e segue adiante. Quando o assunto verdadeiro fica submerso, cada fala de superfície vira uma pista, e o leitor lê inclinado para a frente, montando o que falta. A ausência puxa a atenção que a presença dispersaria.
A alavanca é antiga, muito anterior a Hemingway. No teatro o subtexto é a matéria-prima do ator, e Tchékhov já enchia suas peças de gente que fala do tempo, do samovar, de um leilão de cerejeiras, enquanto o que a corrói fica embaixo de cada frase. A plateia sente a dor sem que ninguém a anuncie.
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O leitor aceita como verdade aquilo que deduz sozinho, e desconfia daquilo que o autor faz questão de afirmar na cara dele.
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As melhores cenas de diálogo conhecem esse poder. Pinter construiu uma carreira inteira sobre pausas e frases que evitam o centro, o chamado silêncio pinteriano, em que o mais importante é sempre o que o personagem não diz. Hemingway faz no conto o que o dramaturgo faz no palco: dá aos dois um assunto de fachada, a bebida e as colinas, e deixa o assunto real correr por baixo, sem nome, sustentado só pela tensão entre o que se fala e o que se cala. Nos dois casos a fala não descreve o conflito, ela o encena escondendo. O leitor pensa que assiste a uma conversa sobre quase nada, quando na verdade está sentindo, palavra por palavra, tudo que os dois não têm coragem de dizer.
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Dê ao diálogo um assunto de fachada
Pegue uma cena sua em que dois personagens discutem o problema de frente, dizendo com todas as letras o que sentem e o que querem. Agora identifique o centro, a única coisa que de fato está em jogo entre os dois. Risque toda menção direta a esse centro. Em seguida, dê aos personagens um assunto neutro para ocupar as mãos e a boca: um café que esfria, uma mala por arrumar, o jogo do fim de semana. Faça os dois falarem desse assunto neutro enquanto o centro pressiona por baixo.
Depois teste se o vazio está segurando a cena. Leia o diálogo para alguém que não conhece o enredo e pergunte o que está realmente acontecendo ali. Se a pessoa sente que há algo grande embaixo, mesmo sem saber nomear, você acertou o subtexto. Se ela só vê duas pessoas falando de café, o assunto de fachada engoliu o centro, e falta uma pista, um gesto, uma fala que quase escapa. O truque não é esconder tudo, é esconder o nome e deixar o peso à mostra. Ajuste até que cada frase banal pareça carregar uma segunda frase, muda, logo atrás dela.
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