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O texto é Hiroshima, do jornalista americano John Hersey, publicado pela revista The New Yorker na edição de 31 de agosto de 1946. Tinha cerca de 31 mil palavras e ocupou a parte editorial da revista inteira, sem as seções habituais de humor, crítica e cartum.
A decisão foi dos editores Harold Ross e William Shawn, que prepararam a edição em segredo, longe da maior parte da própria redação. A capa já estava impressa e mostrava um piquenique de verão num parque. Só uma nota na abertura avisava que a revista dedicava todo o espaço a um único artigo.
A primeira frase, em tradução: “Exatamente às oito e quinze da manhã de 6 de agosto de 1945, horário do Japão, no momento em que a bomba atômica brilhou sobre Hiroshima, a senhorita Toshiko Sasaki, funcionária do departamento de pessoal da Fábrica de Estanho do Leste Asiático, tinha acabado de sentar no seu lugar no escritório da fábrica e virava a cabeça para falar com a moça da mesa ao lado.”
A frase entrega a bomba numa oração subordinada (o trecho que depende de outro para fazer sentido) e reserva o verbo principal para uma cadeira. O leitor recebe a informação histórica e, no mesmo fôlego, é puxado para um gesto de expediente.
Os outros cinco aparecem em seguida, cada um com uma ação doméstica. O doutor Masakazu Fujii, sentado de pernas cruzadas na varanda do seu hospital particular, abria o jornal Osaka Asahi. A senhora Hatsuyo Nakamura, viúva de um alfaiate, olhava pela janela um vizinho que demolia a própria casa por ordem do governo, para abrir faixa contra incêndio.
O padre Wilhelm Kleinsorge, jesuíta alemão, estava deitado de roupa de baixo num catre, lendo a revista da ordem, a Stimmen der Zeit (Vozes do Tempo). O doutor Terufumi Sasaki, cirurgião do hospital da Cruz Vermelha, andava por um corredor com uma amostra de sangue na mão.
O reverendo Kiyoshi Tanimoto, pastor metodista, tinha parado diante da casa de um homem rico no subúrbio de Koi, aonde levara numa carroça móveis da igreja para guardá-los longe do centro.
Nenhum dos seis está em pose de herói. Ninguém olha para o céu. A lista inteira é feita de interrupções: alguém prestes a falar, a ler, a entregar um exame, a descansar.
Os seis sobreviveram, e Hersey escolheu justamente sobreviventes para poder acompanhar cada um nas horas e nos dias seguintes. A revista esgotou nas bancas, a rede de rádio ABC leu o texto completo em quatro noites e a editora Knopf o lançou como livro ainda em 1946.
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