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As 6 Pessoas de Hersey no Segundo Antes da Bomba

Como John Hersey abriu Hiroshima, na New Yorker de 1946, com gestos banais e deixou o horror chegar sozinho.

Revista The New Yorker de 1946 aberta na primeira página de Hiroshima

A New Yorker de 31 de agosto de 1946

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Quem vai escrever sobre uma tragédia costuma se apoiar numa frase: “Preciso mostrar o tamanho do horror logo na primeira linha.” Foi essa frase que encheu as reportagens de 1945 de cifras enormes, que o leitor atravessava sem sentir nada.

Em agosto de 1945, os jornais americanos contaram a bomba de Hiroshima pelo ponto de vista de quem a lançou. Havia o avião, a tripulação, a potência medida em toneladas de dinamite, a foto do cogumelo tirada lá de cima. A cidade aparecia como alvo, um ponto num mapa.

O leitor decorou a cifra e guardou a imagem aérea. Não viu ninguém lá embaixo. Um número grande demais não vira gente na cabeça de quem lê: vira estatística, e estatística se lê e se esquece antes de terminar o café.

Um ano depois, um repórter de 32 anos foi a Hiroshima e voltou com outro plano. Ele não abriu pela explosão. Abriu pelo que seis moradores faziam no instante anterior a ela, gestos tão comuns que qualquer leitor já tinha feito algum naquela manhã.

Uma mulher acabava de sentar no escritório. Um médico abria o jornal na varanda. Uma viúva olhava pela janela da cozinha. Um padre descansava de roupa de baixo. Gestos banais, contados com hora marcada.

O efeito inverte a lógica da manchete. O leitor entra na cena pela porta da própria rotina e só depois descobre o que acontece no segundo seguinte. Quando a luz chega, ele já conhece seis pessoas pelo sobrenome e não consegue mais ler a bomba como estatística.

A frase de abertura desse texto é longa, e quase toda ela gasta palavras com móveis de escritório. Essa escolha de peso parece pequena, mas carrega a reportagem inteira.

A faixa I abre a revista que publicou esse texto, mostra a primeira frase inteira e onde estava cada uma das seis pessoas às 8h15.

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I  A Desmontagem

I, Seis gestos às 8h15

 
 

O texto é Hiroshima, do jornalista americano John Hersey, publicado pela revista The New Yorker na edição de 31 de agosto de 1946. Tinha cerca de 31 mil palavras e ocupou a parte editorial da revista inteira, sem as seções habituais de humor, crítica e cartum.

A decisão foi dos editores Harold Ross e William Shawn, que prepararam a edição em segredo, longe da maior parte da própria redação. A capa já estava impressa e mostrava um piquenique de verão num parque. Só uma nota na abertura avisava que a revista dedicava todo o espaço a um único artigo.

A primeira frase, em tradução: “Exatamente às oito e quinze da manhã de 6 de agosto de 1945, horário do Japão, no momento em que a bomba atômica brilhou sobre Hiroshima, a senhorita Toshiko Sasaki, funcionária do departamento de pessoal da Fábrica de Estanho do Leste Asiático, tinha acabado de sentar no seu lugar no escritório da fábrica e virava a cabeça para falar com a moça da mesa ao lado.”

A frase entrega a bomba numa oração subordinada (o trecho que depende de outro para fazer sentido) e reserva o verbo principal para uma cadeira. O leitor recebe a informação histórica e, no mesmo fôlego, é puxado para um gesto de expediente.

Os outros cinco aparecem em seguida, cada um com uma ação doméstica. O doutor Masakazu Fujii, sentado de pernas cruzadas na varanda do seu hospital particular, abria o jornal Osaka Asahi. A senhora Hatsuyo Nakamura, viúva de um alfaiate, olhava pela janela um vizinho que demolia a própria casa por ordem do governo, para abrir faixa contra incêndio.

O padre Wilhelm Kleinsorge, jesuíta alemão, estava deitado de roupa de baixo num catre, lendo a revista da ordem, a Stimmen der Zeit (Vozes do Tempo). O doutor Terufumi Sasaki, cirurgião do hospital da Cruz Vermelha, andava por um corredor com uma amostra de sangue na mão.

O reverendo Kiyoshi Tanimoto, pastor metodista, tinha parado diante da casa de um homem rico no subúrbio de Koi, aonde levara numa carroça móveis da igreja para guardá-los longe do centro.

Nenhum dos seis está em pose de herói. Ninguém olha para o céu. A lista inteira é feita de interrupções: alguém prestes a falar, a ler, a entregar um exame, a descansar.

Os seis sobreviveram, e Hersey escolheu justamente sobreviventes para poder acompanhar cada um nas horas e nos dias seguintes. A revista esgotou nas bancas, a rede de rádio ABC leu o texto completo em quatro noites e a editora Knopf o lançou como livro ainda em 1946.

 

A bomba ganha uma oração subordinada; o verbo principal da frase vai para uma mulher que acabou de sentar.

 
 
 
 

II  A Engrenagem

II, O tom plano de propósito

 
 

Hersey tirou o molde de um romance. Ele contou ter pensado em A Ponte de San Luis Rey, de Thornton Wilder, publicado em 1927, livro que acompanha cinco pessoas até o instante em que uma ponte de cordas se rompe no Peru. Copiou dali a armação: várias vidas paralelas que convergem num segundo.

O mecanismo tem três peças.

A primeira é o relógio. A hora exata, 8h15, prende todos os gestos a um único ponto. O leitor sabe o que vem antes dos personagens saberem, e a tensão nasce dessa defasagem, que o teatro chama de ironia dramática (quando o público conhece o que o personagem ignora).

A segunda é o gesto banal. Sentar, ler, olhar pela janela: ações que o leitor reconhece no próprio corpo. Ele não precisa imaginar uma explosão atômica. Basta lembrar da última vez que sentou na cadeira do trabalho e virou a cabeça para falar com o colega.

A terceira é o tom plano. Hersey quase não usa adjetivo de espanto e não comenta o que narra. Anos depois, ele explicou a escolha:

“The flat style was deliberate.”

John Hersey, entrevista à revista The Paris Review, 1986

 

Em português: o estilo plano foi deliberado. Na mesma entrevista ele disse que mostrar emoção o colocaria na história como intermediário, e que queria sair dela por completo, deixando o leitor sozinho com o material.

O melhor exemplo está logo depois da abertura. Na fábrica, a explosão derruba as estantes sobre a senhorita Sasaki, e Hersey anota que ali, no primeiro momento da era atômica, um ser humano foi esmagado por livros. A frase não pede pena. A ironia está nos fatos, e o leitor a encontra sem ajuda.

O tom plano também protegia o texto contra a acusação de propaganda. Hersey apurou em Hiroshima entre maio e junho de 1946, sob a ocupação americana, e entrevistou dezenas de sobreviventes antes de escolher os seis. Um relato emocionado seria lido como opinião. Um relato seco, com hora e endereço, foi lido como registro.

As três peças só funcionam juntas. O relógio sem o gesto banal vira cronologia de guerra. O gesto banal sem o tom plano vira melodrama. O tom plano sem o relógio vira relatório.

 

O leitor sabe a hora da bomba e os personagens não: a tensão inteira mora nessa defasagem.

 
 

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III  Na Oficina

III, O segundo antes no seu texto

 
 

A abertura de Hersey serve para qualquer texto sobre um evento grande demais para caber numa cifra: uma demissão em massa, uma enchente, o dia em que a empresa fechou, um diagnóstico. O princípio de 1946 continua valendo: o leitor entra pela rotina e o evento chega depois.

O recurso falha em três situações:

• Quando o gesto é exótico. Se a pessoa da cena faz algo que o leitor nunca fez, ele assiste de fora e a identificação some.

• Quando o texto avisa a desgraça com adjetivo. Escrever que era “uma manhã que mudaria tudo” entrega o golpe antes da hora e desarma a defasagem.

• Quando a hora fica vaga. “Naquela manhã” não prende ninguém. Hora e minuto dão ao leitor um ponto fixo para onde ele sabe que tudo converge.

Para montar a abertura, siga quatro passos:

Passo a passo

 

1. Escreva numa frase o evento central do seu texto, com data e hora. Essa frase vai virar a oração subordinada.

2. Escolha de uma a três pessoas reais envolvidas e descubra o que cada uma fazia no minuto anterior.

3. Descreva cada gesto com verbo concreto e objeto físico: sentar na cadeira, abrir o jornal, segurar a amostra.

4. Monte a primeira frase com o evento na oração subordinada e o gesto no verbo principal, sem nenhum adjetivo de emoção.

 

Depois de pronta, leia a abertura para alguém que não conhece o evento. Se a pessoa reagir ao gesto antes de reagir à catástrofe, a abertura encaixou.

Se ela reagir só à catástrofe, o evento está grande demais na frase: corte números e descrições dele até sobrar data, hora e lugar.

Se ela não reagir a nada, o gesto está genérico. Troque “trabalhava” por um movimento visível, como virar a cabeça para a mesa ao lado.

Um cuidado de honestidade: o gesto precisa ser apurado, nunca inventado. Hersey ouviu cada um dos seis contar o próprio minuto. Gesto imaginado para comover vira ficção, e o leitor que descobre a invenção desconfia do texto inteiro.

“O que a pessoa da sua história fazia um minuto antes de tudo mudar?”

 

Teste hoje: pegue o primeiro parágrafo do último texto que você escreveu sobre um acontecimento importante e reescreva a frase de abertura com o acontecimento numa oração subordinada e um gesto banal no verbo principal. Mostre as duas versões a 3 pessoas e anote quantas escolhem a nova para continuar lendo. Duas em três indicam que o gesto prendeu.

 
 
 
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Quiz da edição

Hersey contou ter copiado a armação de abertura de Hiroshima de qual romance?

AAs Vinhas da Ira, de John Steinbeck
BA Ponte de San Luis Rey, de Thornton Wilder
CPor Quem os Sinos Dobram, de Ernest Hemingway
DO Som e a Fúria, de William Faulkner

Resultado da última edição: 88% acertaram.

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