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O texto saiu da máquina de escrever de Ivy Ledbetter Lee, ex-repórter de jornais de Nova York contratado pela Pennsylvania Railroad em 1906. Dois anos antes, Lee tinha aberto com George Parker um escritório de publicidade, o nome da época para o trabalho de relações com a imprensa.
Lee tinha passado anos dentro da redação e sabia de cor o formato de uma notícia de desastre: o fato primeiro, o lugar logo atrás, os números, as providências, e só no fim quem disse o quê.
O comunicado de Atlantic City seguiu esse molde. Desmontado, ele tem quatro peças.
A primeira é a abertura pelo fato. O texto começa no trem, na ponte e no canal, sem o nome da empresa no sujeito da frase. Quem lê a primeira linha encontra o acidente.
A segunda é a terceira pessoa. A ferrovia aparece como aparece qualquer personagem de reportagem: pelo nome, vista de fora, sem nós. Nenhuma frase diz lamentamos ou garantimos.
A terceira é o dado conferível: local, número de vagões, providências já tomadas. Cada item podia ser checado por um repórter no canal, e Lee levou os repórteres até lá no trem especial da própria empresa.
A quarta é a falta de adjetivo de defesa. O texto não chama o acidente de imprevisível nem a resposta da ferrovia de exemplar. A conclusão fica com o leitor.
Somadas, as quatro peças produzem um texto com cara de matéria, apurado por alguém de dentro, entregue em hora de fechamento. A redação do Times não tinha o que consertar e publicou como estava.
O método não nasceu no acidente. Meses antes, durante a greve dos mineiros de antracito (o carvão duro da Pensilvânia), Lee mandou aos editores uma carta que ficou conhecida como Declaração de Princípios. O trecho mais citado diz:
“This is not a secret press bureau. All our work is done in the open. We aim to supply news.” (Isto não é um escritório secreto de imprensa. Todo o nosso trabalho é feito às claras. Nosso objetivo é fornecer notícias.) Ivy Lee, Declaração de Princípios, 1906.
Repare no verbo final. Lee não promete defender o cliente, nem convencer o leitor. Promete fornecer notícia, com a matéria-prima que o editor já procura.
No caso da ferrovia, a promessa se cumpriu pela metade. Para o editor, o trabalho foi às claras: ele sabia de onde vinha o texto. Para o leitor do jornal, a autoria sumiu, porque a página não dizia quem tinha escrito aquele parágrafo.
A história chegou aos manuais pela biografia escrita por Ray Eldon Hiebert, Courtier to the Crowd (Cortesão da Multidão), de 1966, que trata o texto de Atlantic City como um dos primeiros comunicados de imprensa no formato atual.
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