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O Livro que Manda Começar no Capítulo 73
Como O Jogo da Amarelinha, de 1963, abre com um tabuleiro que declara a rota de leitura e dá posição na fila ao material extra.
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O tabuleiro de direção que abre o volume de 1963
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Em junho de 1963, uma editora de Buenos Aires põe nas livrarias um romance que começa com uma página de instruções.
Quem abre o volume não encontra o capítulo 1. Encontra uma lista de números em duas colunas, uma sequência que abre em 73, salta para 1, volta para 2, pula para 116 e segue assim, linha após linha, até o pé da página.
O romance é O Jogo da Amarelinha, de Julio Cortázar. A página de números se chama Tabuleiro de direção e ocupa o lugar onde outros livros põem a dedicatória.
O problema que a manobra ataca é o do material que sobra. Todo texto longo acumula parte que não cabe na linha principal: a nota que virou três parágrafos, o anexo técnico, a entrevista inteira que rendeu uma frase, o trecho de teoria que atrasa a cena.
A saída comum é empurrar a sobra para o fim. Vai para o apêndice, para a caixa cinza, para o link de aprofundamento no rodapé, e o leitor entende o recado na hora: dá para pular sem perder nada.
Cortázar resolve por outro caminho. Ele não esconde a sobra no fim e também não joga fora: põe cada pedaço dentro de uma rota e declara a rota na entrada, com número de capítulo e ordem de passagem, antes de a história começar.
O leitor recebe duas coisas antes da primeira frase do romance, um mapa e uma escolha. O mapa diz por onde ir, a escolha avisa que existe mais de um caminho legítimo pelo mesmo material.
Daí em diante o capítulo extra deixa de ser anexo. Ele tem posição na fila, hora de entrar e vizinho dos dois lados, do mesmo jeito que um capítulo comum.
Comece pelo tabuleiro, na ordem exata em que ele chega ao olho.
Vamos desmontar.
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I A Desmontagem
Um tabuleiro antes da primeira frase
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Comece pela contagem, que é a parte medível de fora. O romance tem 155 capítulos numerados, e a metade final deles carrega um rótulo impresso pelo próprio livro: capítulos prescindíveis.
Os 56 primeiros formam o que o autor chama de primeiro livro. Quem lê na ordem corrente vai do 1 ao 56, encontra três estrelinhas no pé da última página e para ali, com a palavra Fim entendida sem que ninguém precise escrevê-la.
Os 99 restantes são a matéria extra. São notas de um escritor fictício, recortes de jornal, listas, citações, trechos de teoria sobre o próprio romance que o leitor tem nas mãos.
O tabuleiro entra antes de tudo e diz o que fazer com esse material.
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"A su manera este libro es muchos libros, pero sobre todo es dos libros. El lector queda invitado a elegir una de las dos posibilidades siguientes."
Julio Cortázar, O Jogo da Amarelinha, 1963, Tabuleiro de direção. Em tradução literal: à sua maneira este livro é muitos livros, mas sobretudo é dois livros; o leitor fica convidado a escolher uma das duas possibilidades seguintes.
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Desmonte a página em peças. Primeira peça: o texto declara duas leituras completas do mesmo volume, não uma leitura certa e um brinde.
Segunda peça: a primeira leitura ganha um fim explícito no capítulo 56, e as três estrelinhas fazem o serviço da palavra que falta.
Terceira peça: a segunda leitura ganha um ponto de partida fora da ordem, o capítulo 73, e uma regra de continuidade, o número impresso no pé de cada capítulo.
Quarta peça: o tabuleiro imprime a sequência inteira, do 73 até o fim, para quem perder o fio conferir sem procurar.
Repare no que o tabuleiro não faz. Não promete recompensa, não explica o motivo da ordem, não repreende quem escolher o caminho curto. A palavra prescindível fica ali, sem ironia, autorizando o abandono.
A sequência termina numa armadilha simples. Os dois últimos números do tabuleiro apontam um para o outro, 131 e 58, e quem obedece à instrução ao pé da letra fica girando entre os dois capítulos sem chegar ao fim.
Essa entrada faz três coisas ao mesmo tempo.
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Primeiro, ela transfere a autoridade da ordem. A sequência não é sugestão de leitura escrita por um crítico depois, é instrução do próprio livro, na primeira página, com a mesma tinta do romance.
Segundo, ela muda o estatuto do material extra. Capítulo que aparece numa rota declarada tem posição, vizinhos e função, e deixa de ser apêndice por definição.
Terceiro, ela devolve a escolha ao leitor sem largar a mão dele. Existem dois caminhos, os dois estão escritos, e nenhum dos dois exige que ele invente o próprio percurso.
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Observe o que Cortázar não fez. Não largou os capítulos extras no meio da narrativa esperando que o leitor aguentasse, não recorreu a nota de rodapé, não deixou a ordem alternada como segredo para quem relesse o volume.
A instrução ficou inteira na entrada, e o trabalho de cumprir ficou com o leitor.
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O capítulo extra não vira leitura obrigatória por mérito: ele entra na rota impressa na primeira página e passa a ter vizinho dos dois lados.
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II A Engrenagem
Declare a rota antes do texto
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O gesto tem nome técnico. Gérard Genette chamou de paratexto, em Limiares, de 1987, tudo que cerca o texto e ensina a lê-lo: capa, sumário, prefácio, nota do autor. A lei por trás do efeito cabe numa frase curta:
Declare a rota de leitura na entrada e dê a cada peça extra um lugar na fila.
A diferença entre o material que o leitor pula e o material que ele atravessa.
Ler é obedecer a uma ordem herdada. A página 2 vem depois da 1 porque sempre veio, e o leitor trata a sequência do sumário como a lista do que ele deve.
Declarar a rota custa uma página e muda o estatuto de tudo que vem depois. A mesma nota que apodreceria no apêndice passa a ter hora marcada, e o leitor chega nela em movimento, não por garimpo.
A rota precisa ser local para funcionar. Índice no começo do volume obriga o leitor a voltar e procurar; o próximo passo impresso no pé de cada peça resolve a dúvida onde ela nasce.
O fim explícito da linha principal faz parte da engrenagem. Sem uma marca que diga onde a obrigação termina, o leitor não sabe se já pode parar, e a leitura opcional vira dívida.
O método cobra um preço. Rota declarada sobre material fraco só denuncia a sobra, porque agora cada peça tem endereço e o leitor cobra de cada uma a razão de estar ali.
Dentro do próprio romance existe a justificativa da manobra, escrita por Morelli, o escritor fictício cujas notas ocupam boa parte dos capítulos extras.
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"Intentar en cambio un texto que no agarre al lector pero que lo vuelva obligadamente cómplice al murmurarle, por debajo del desarrollo convencional, otros rumbos más esotéricos."
Julio Cortázar, O Jogo da Amarelinha, 1963, capítulo 79, nota de Morelli. Em tradução literal: tentar, ao contrário, um texto que não agarre o leitor, mas que o torne obrigatoriamente cúmplice ao murmurar para ele, por baixo do desenvolvimento convencional, outros rumos mais secretos.
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O leitor não abre o anexo por curiosidade: abre porque a rota impressa na entrada marcou a hora de ele entrar.
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Laurence Sterne já brincava com a ordem entre 1759 e 1767. Em Tristram Shandy, o prefácio do autor aparece no meio do terceiro volume, dois capítulos ficam em branco para serem escritos depois e uma página inteira sai preta.
Machado de Assis pôs a instrução no prólogo em 1881. Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, o narrador avisa que o livro é obra de defunto autor, manda o leitor apressado pular trecho e entrega um capítulo formado apenas por uma fileira de pontos.
Vladimir Nabokov inverteu a ordem do aparato em 1962. Em Fogo Pálido, o comentador abre o volume aconselhando o leitor a ler primeiro as notas e só depois o poema de 999 versos, com as notas na mão.
Nos três casos a peça é a mesma. A ordem de leitura sai do hábito e vira decisão declarada, o material que sobraria passa a ter vez marcada, e o leitor aceita percorrer o que jamais abriria por conta própria.
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