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ED 085

O Livro que Manda Começar no Capítulo 73

Como O Jogo da Amarelinha, de 1963, abre com um tabuleiro que declara a rota de leitura e dá posição na fila ao material extra.

Escritor em luz lateral quente diante de uma página com lista de números de capítulos, pena e engrenagem dourada sobre a mesa escura

O tabuleiro de direção que abre o volume de 1963

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Em junho de 1963, uma editora de Buenos Aires põe nas livrarias um romance que começa com uma página de instruções.

Quem abre o volume não encontra o capítulo 1. Encontra uma lista de números em duas colunas, uma sequência que abre em 73, salta para 1, volta para 2, pula para 116 e segue assim, linha após linha, até o pé da página.

O romance é O Jogo da Amarelinha, de Julio Cortázar. A página de números se chama Tabuleiro de direção e ocupa o lugar onde outros livros põem a dedicatória.

O problema que a manobra ataca é o do material que sobra. Todo texto longo acumula parte que não cabe na linha principal: a nota que virou três parágrafos, o anexo técnico, a entrevista inteira que rendeu uma frase, o trecho de teoria que atrasa a cena.

A saída comum é empurrar a sobra para o fim. Vai para o apêndice, para a caixa cinza, para o link de aprofundamento no rodapé, e o leitor entende o recado na hora: dá para pular sem perder nada.

Cortázar resolve por outro caminho. Ele não esconde a sobra no fim e também não joga fora: põe cada pedaço dentro de uma rota e declara a rota na entrada, com número de capítulo e ordem de passagem, antes de a história começar.

O leitor recebe duas coisas antes da primeira frase do romance, um mapa e uma escolha. O mapa diz por onde ir, a escolha avisa que existe mais de um caminho legítimo pelo mesmo material.

Daí em diante o capítulo extra deixa de ser anexo. Ele tem posição na fila, hora de entrar e vizinho dos dois lados, do mesmo jeito que um capítulo comum.

Comece pelo tabuleiro, na ordem exata em que ele chega ao olho.

Vamos desmontar.

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I  A Desmontagem

Um tabuleiro antes da primeira frase

 
 

Comece pela contagem, que é a parte medível de fora. O romance tem 155 capítulos numerados, e a metade final deles carrega um rótulo impresso pelo próprio livro: capítulos prescindíveis.

Os 56 primeiros formam o que o autor chama de primeiro livro. Quem lê na ordem corrente vai do 1 ao 56, encontra três estrelinhas no pé da última página e para ali, com a palavra Fim entendida sem que ninguém precise escrevê-la.

Os 99 restantes são a matéria extra. São notas de um escritor fictício, recortes de jornal, listas, citações, trechos de teoria sobre o próprio romance que o leitor tem nas mãos.

O tabuleiro entra antes de tudo e diz o que fazer com esse material.

"A su manera este libro es muchos libros, pero sobre todo es dos libros. El lector queda invitado a elegir una de las dos posibilidades siguientes."

Julio Cortázar, O Jogo da Amarelinha, 1963, Tabuleiro de direção. Em tradução literal: à sua maneira este livro é muitos livros, mas sobretudo é dois livros; o leitor fica convidado a escolher uma das duas possibilidades seguintes.

 

Desmonte a página em peças. Primeira peça: o texto declara duas leituras completas do mesmo volume, não uma leitura certa e um brinde.

Segunda peça: a primeira leitura ganha um fim explícito no capítulo 56, e as três estrelinhas fazem o serviço da palavra que falta.

Terceira peça: a segunda leitura ganha um ponto de partida fora da ordem, o capítulo 73, e uma regra de continuidade, o número impresso no pé de cada capítulo.

Quarta peça: o tabuleiro imprime a sequência inteira, do 73 até o fim, para quem perder o fio conferir sem procurar.

Repare no que o tabuleiro não faz. Não promete recompensa, não explica o motivo da ordem, não repreende quem escolher o caminho curto. A palavra prescindível fica ali, sem ironia, autorizando o abandono.

A sequência termina numa armadilha simples. Os dois últimos números do tabuleiro apontam um para o outro, 131 e 58, e quem obedece à instrução ao pé da letra fica girando entre os dois capítulos sem chegar ao fim.

Essa entrada faz três coisas ao mesmo tempo.

Primeiro, ela transfere a autoridade da ordem. A sequência não é sugestão de leitura escrita por um crítico depois, é instrução do próprio livro, na primeira página, com a mesma tinta do romance.

Segundo, ela muda o estatuto do material extra. Capítulo que aparece numa rota declarada tem posição, vizinhos e função, e deixa de ser apêndice por definição.

Terceiro, ela devolve a escolha ao leitor sem largar a mão dele. Existem dois caminhos, os dois estão escritos, e nenhum dos dois exige que ele invente o próprio percurso.

 

Observe o que Cortázar não fez. Não largou os capítulos extras no meio da narrativa esperando que o leitor aguentasse, não recorreu a nota de rodapé, não deixou a ordem alternada como segredo para quem relesse o volume.

A instrução ficou inteira na entrada, e o trabalho de cumprir ficou com o leitor.

O capítulo extra não vira leitura obrigatória por mérito: ele entra na rota impressa na primeira página e passa a ter vizinho dos dois lados.

 
 
 
 

II  A Engrenagem

Declare a rota antes do texto

 
 

O gesto tem nome técnico. Gérard Genette chamou de paratexto, em Limiares, de 1987, tudo que cerca o texto e ensina a lê-lo: capa, sumário, prefácio, nota do autor. A lei por trás do efeito cabe numa frase curta:

Declare a rota de leitura na entrada e dê a cada peça extra um lugar na fila.

A diferença entre o material que o leitor pula e o material que ele atravessa.

Ler é obedecer a uma ordem herdada. A página 2 vem depois da 1 porque sempre veio, e o leitor trata a sequência do sumário como a lista do que ele deve.

Declarar a rota custa uma página e muda o estatuto de tudo que vem depois. A mesma nota que apodreceria no apêndice passa a ter hora marcada, e o leitor chega nela em movimento, não por garimpo.

A rota precisa ser local para funcionar. Índice no começo do volume obriga o leitor a voltar e procurar; o próximo passo impresso no pé de cada peça resolve a dúvida onde ela nasce.

O fim explícito da linha principal faz parte da engrenagem. Sem uma marca que diga onde a obrigação termina, o leitor não sabe se já pode parar, e a leitura opcional vira dívida.

O método cobra um preço. Rota declarada sobre material fraco só denuncia a sobra, porque agora cada peça tem endereço e o leitor cobra de cada uma a razão de estar ali.

Dentro do próprio romance existe a justificativa da manobra, escrita por Morelli, o escritor fictício cujas notas ocupam boa parte dos capítulos extras.

"Intentar en cambio un texto que no agarre al lector pero que lo vuelva obligadamente cómplice al murmurarle, por debajo del desarrollo convencional, otros rumbos más esotéricos."

Julio Cortázar, O Jogo da Amarelinha, 1963, capítulo 79, nota de Morelli. Em tradução literal: tentar, ao contrário, um texto que não agarre o leitor, mas que o torne obrigatoriamente cúmplice ao murmurar para ele, por baixo do desenvolvimento convencional, outros rumos mais secretos.

 

O leitor não abre o anexo por curiosidade: abre porque a rota impressa na entrada marcou a hora de ele entrar.

 

Laurence Sterne já brincava com a ordem entre 1759 e 1767. Em Tristram Shandy, o prefácio do autor aparece no meio do terceiro volume, dois capítulos ficam em branco para serem escritos depois e uma página inteira sai preta.

Machado de Assis pôs a instrução no prólogo em 1881. Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, o narrador avisa que o livro é obra de defunto autor, manda o leitor apressado pular trecho e entrega um capítulo formado apenas por uma fileira de pontos.

Vladimir Nabokov inverteu a ordem do aparato em 1962. Em Fogo Pálido, o comentador abre o volume aconselhando o leitor a ler primeiro as notas e só depois o poema de 999 versos, com as notas na mão.

Nos três casos a peça é a mesma. A ordem de leitura sai do hábito e vira decisão declarada, o material que sobraria passa a ter vez marcada, e o leitor aceita percorrer o que jamais abriria por conta própria.

 

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III  Na Oficina

Monte o tabuleiro do seu texto

 
 

Declare a rota do seu material

 

Separe o que você escreveu em duas pilhas. Linha principal é o que sustenta o argumento do começo ao fim; material extra é o resto, por melhor que ele seja.

Conte as peças da segunda pilha e escreva ao lado de cada uma o que ela entrega sozinha. Peça que não passa nesse teste não entra em rota nenhuma, ela sai do texto.

Escreva a rota na entrada, antes do conteúdo. Uma lista de peças na ordem de leitura, com nome ou número, na primeira tela que o leitor vê.

Use uma palavra que tire o peso do material extra. Prescindível, opcional, aprofundamento: o leitor precisa saber que pode abandonar sem culpa, senão trata a segunda pilha como cobrança.

Marque o fim da linha principal com um sinal visível. Uma regra, um símbolo, uma frase de duas palavras, qualquer coisa que informe onde a obrigação termina e onde começa a escolha.

Ponha o próximo passo no pé de cada peça, não só no índice. Quem terminou de ler precisa saber para onde ir sem voltar ao começo do texto.

Entregue a sequência completa em algum lugar, além dos saltos locais. O leitor que perder o fio precisa reencontrar a rota numa única olhada, sem refazer o caminho.

Ordene pela experiência que você quer provocar, não pela importância que cada peça tem. A ordem alternada existe para o extra chegar no momento em que ele muda a leitura, e não para ser catálogo.

Teste a rota lendo na ordem declarada, do início ao fim, como se fosse a primeira vez. Peça que atrapalha a leitura na posição escolhida muda de lugar ou sai.

Deixe cada peça extra de pé sozinha. Quem chega nela pela rota alternada vem de outro ponto do texto, sem o parágrafo anterior na memória, e a peça precisa abrir explicando o próprio assunto.

Não se desculpe pelo material extra no meio do caminho. Frase do tipo se você quiser saber mais devolve a peça ao apêndice e desfaz o trabalho da rota.

Por último, dê um nome à rota. Tabuleiro, mapa, roteiro, trilha: um nome próprio transforma a instrução em objeto do texto, e o leitor passa a falar dela como fala de um capítulo.

 
 
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Segundo o texto, o que acontece quando o leitor segue o Tabuleiro de direção do fim ao fim, capítulo após capítulo, na ordem alternada?

AO percurso termina exatamente no capítulo 155, o último do livro
BO leitor é levado de volta ao capítulo 1 e a leitura recomeça
CO percurso fica girando entre os capítulos 131 e 58, sem chegar ao fim
DO leitor cai num capítulo em branco deixado por Cortázar

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