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I A Desmontagem
A pergunta enterrada no prólogo
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A resposta de ontem Com quem Ramsés II se casou para selar a paz com os hititas? Com a filha mais velha de Hattusili III e da rainha Puduhepa, que chegou ao Egito em 1246 a.C., segundo a cronologia mais aceita, e recebeu o nome egípcio Maathorneferure. A viagem da noiva e o casamento estão narrados na Estela do Casamento, gravada no templo de Abu Simbel, e a paz entre os dois impérios durou até o fim do reino hitita. |
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O Lazarilho de Tormes abre com um prólogo curto, e quase todo leitor passa por ele com pressa. Ali está a chave do livro. Lázaro diz para quem escreve e por quê, numa frase só, e logo muda de assunto.
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“E pois Vossa Mercê escreve pedindo que se lhe escreva e relate o caso muito por extenso, pareceu-me não tomá-lo pelo meio, mas do princípio, para que se tenha inteira notícia da minha pessoa.”
Anônimo, A Vida de Lazarilho de Tormes, prólogo, 1554
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A frase tem três peças. Existe um pedido anterior, feito por carta. Existe um objeto, o caso, que o narrador nunca nomeia no prólogo. E existe uma decisão de método: contar do princípio, para que o destinatário conheça a pessoa inteira antes de conhecer o caso.
O leitor de 1554 tropeçava nessa palavra sem entender. Qual caso? O prólogo não responde, e os capítulos seguintes também não. O livro avança em sete tratados (o nome da época para capítulo), cada um dedicado a um patrão diferente.
No primeiro, Lázaro guia um cego mendigo, apanha, aprende a roubar vinho por um canudo de palha e se vinga jogando o velho contra um poste de pedra. No segundo, serve um padre de Maqueda tão avarento que o menino passa fome trancado com uma arca de pão.
No terceiro, serve um escudeiro (fidalgo pobre, de linhagem e sem dinheiro) que finge comer bem e vive do pão que o próprio criado mendiga. Os três primeiros tratados ocupam a maior parte do livro.
Os quatro últimos encurtam de repente. O quarto, com um frade, cabe num parágrafo. O quinto mostra um vendedor de indulgências (papéis da Igreja que prometiam perdão de pecados mediante pagamento) armando um milagre falso. O sexto, com um capelão, ocupa poucas linhas.
Só no sétimo a palavra caso volta. Lázaro agora é pregoeiro em Toledo, o funcionário municipal que anunciava em voz alta vinhos à venda e crimes punidos. Casou com a criada do arcipreste de San Salvador, o padre que chefiava as paróquias daquela região da cidade.
A vizinhança diz que a mulher entra e sai da casa do arcipreste a qualquer hora e que o casamento cobre um caso amoroso entre os dois. Lázaro mora numa casinha alugada pelo próprio padre, recebe trigo, carne e roupa velha dele, e janta com o casal aos domingos.
O caso pedido por Vossa Mercê, portanto, é um escândalo de adultério. A carta inteira existe para responder a ele, e o narrador só o mostra quando o destinatário já atravessou seis patrões com o menino faminto.
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O Lazarilho anuncia no prólogo uma pergunta sem nome e só a revela no último tratado, depois de o leitor ter vivido a vida inteira do réu.
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II A Engrenagem
Seis patrões de defesa
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Ler o livro de trás para frente muda o sentido de cada tratado. A tese é do filólogo espanhol Francisco Rico, no ensaio La novela picaresca y el punto de vista (O romance picaresco e o ponto de vista), de 1970: o caso explica a forma do livro inteiro.
Cada patrão ensina a Lázaro uma lição sobre honra e fome. O cego, no primeiro dia, bate a cabeça do menino contra um touro de pedra na ponte de Salamanca e diz que o guia de cego precisa saber um ponto a mais do diabo. Lázaro conclui ali mesmo que está sozinho no mundo.
O padre de Maqueda reza e jejua em público e conta os pães da arca. O escudeiro de Toledo passa o palito nos dentes na porta de casa, para os vizinhos acharem que almoçou, sem ter comido nada desde a véspera.
A sequência monta um retrato da Espanha de então: gente respeitável vivendo de aparência, cada uma escondendo a própria fome atrás de um gesto de dignidade. O menino observa, apanha e aprende a regra.
Quando o leitor chega ao sétimo tratado, já sabe o preço da honra naquela sociedade. Viu o fidalgo morrer de fome em pé, sem trabalhar, para não perder a pose. A pergunta de Vossa Mercê, sobre se Lázaro aceita a desonra, encontra o leitor treinado.
A defesa de Lázaro aparece então na boca do próprio arcipreste, que o chama de lado quando os boatos crescem:
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“Não olhes para o que podem dizer, senão para o que te toca, digo, ao teu proveito.”
Anônimo, A Vida de Lazarilho de Tormes, tratado sétimo, 1554
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Lázaro aceita o conselho. Jura a quem tocar no assunto que a mulher é tão boa quanto qualquer outra em Toledo e ameaça brigar com quem insistir. E encerra a carta dizendo que vive na prosperidade e no auge de toda boa fortuna.
A última frase data o relato: tudo se passou no ano em que o imperador Carlos V entrou em Toledo e reuniu ali as Cortes (a assembleia dos representantes do reino). O imperador fez Cortes na cidade em 1525 e de novo em 1538, e o texto não diz qual das duas.
A ironia funciona porque a ordem funciona. Se o caso viesse na primeira página, o leitor julgaria Lázaro um marido complacente. Vindo no fim, o mesmo fato pesa contra a sociedade inteira, que ensinou ao menino, patrão por patrão, a trocar honra por pão.
A Igreja leu o recado. O livro entrou no índice de obras proibidas da Inquisição espanhola em 1559. Em 1573 voltou a circular numa edição expurgada, o Lazarillo castigado (o Lazarilho corrigido), sem o quarto e o quinto tratados, os do frade e do vendedor de indulgências.
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A autobiografia inteira do Lazarilho funciona como peça de defesa, e cada patrão serve de testemunha diante do leitor que vai julgá-lo.
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