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50% escolheram Legendas da Netflix. Aqui está.
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Os 42 Caracteres da Legenda da Netflix
Como o guia da Netflix limita a linha a 42 caracteres e a leitura a 17 por segundo, e o que o tradutor corta da fala para caber.
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Legenda em 2 linhas de 42 caracteres
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Quem legenda um filme pela primeira vez costuma trabalhar com uma frase na cabeça: "Se o ator disse, tem que estar escrito." Foi essa frase que deixou o espectador lendo a boca do personagem enquanto a cena já tinha acabado.
A legenda fiel a cada palavra parece respeito ao original. Na tela, ela vira uma corrida. O espectador lê a primeira linha, desce para a segunda, e o rosto do ator já mudou de expressão, o corte já aconteceu, a piada já passou sem graça.
A Netflix escreveu esse problema em forma de regra. O Timed Text Style Guide (guia de estilo de texto sincronizado), o manual que a empresa entrega aos tradutores e estúdios que legendam o catálogo, fixa dois tetos. Cada linha tem no máximo 42 caracteres, contando espaços e pontuação. Cada legenda tem no máximo 2 linhas.
O segundo teto é de tempo. Em programas para adultos, o espectador deve ler até 17 caracteres por segundo. A conta inclui tudo o que está escrito, do primeiro travessão de diálogo ao último ponto final, dividido pelo tempo em que a legenda fica na tela.
Os dois números juntos formam uma caixa. Uma legenda cheia, com 2 linhas de 42, tem 84 caracteres e precisa de quase 5 segundos na tela. Quase ninguém fala tão devagar. A fala real chega mais comprida e mais rápida do que a caixa aceita.
Sobra ao tradutor uma tarefa que nenhum dicionário resolve: tirar palavras sem tirar sentido. Ele lê a fala, separa o que carrega informação do que só enche o tempo e escreve a versão menor que ainda diz tudo.
O espectador nunca vê o corte. Ele sente apenas que leu sem esforço e voltou os olhos para a cena a tempo de ver o rosto do ator. A legenda bem cortada some; a legenda inteira grita.
A faixa I abre uma fala comum de série, conta letra por letra e mostra a tesoura trabalhando dentro do teto de 2 segundos.
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I A Desmontagem
I, Uma fala de 79 caracteres em 2 segundos
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O Timed Text Style Guide da Netflix tem uma parte geral, que vale para todas as línguas, e uma página específica para cada idioma do catálogo. A página do português do Brasil repete os dois tetos: 42 caracteres por linha e 17 caracteres por segundo nos programas adultos.
A versão em inglês do guia traz a regra de leitura numa linha seca, sem explicação:
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“Up to 17 characters per second”
Netflix, Timed Text Style Guide, General Requirements
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Em português: até 17 caracteres por segundo. Para programas infantis em inglês, o mesmo guia baixa o limite para 13, porque a criança lê mais devagar.
O guia também fixa a duração. Uma legenda fica no ar por pelo menos cinco sextos de segundo, o equivalente a 20 quadros de um filme rodado a 24 quadros por segundo, e por no máximo 7 segundos. Abaixo do piso, o olho não chega a registrar o texto; acima do teto, o espectador relê a legenda e se perde.
Agora a fala. Um personagem, nervoso, diz numa cena de série: "Olha, eu sinceramente acho que a gente devia ir embora daqui agora mesmo, sabe?" A frase tem 79 caracteres. O ator a diz em 2 segundos.
Faça a conta da Netflix. Dois segundos vezes 17 caracteres dão 34. A fala tem 79. O tradutor precisa entregar menos da metade do que ouviu.
Ele começa pelo que não informa nada. "Olha" é um marcador de conversa, uma palavra que só abre o turno de fala. "Sabe?" fecha o turno do mesmo jeito. As duas saem e levam 10 caracteres com elas, contando vírgula, ponto de interrogação e espaço.
Depois vêm os reforços. "Sinceramente" e "mesmo" dão ênfase, e a ênfase já está na voz trêmula do ator e no rosto dele na tela. "Eu acho que" suaviza a ordem, mas a cena mostra que ninguém ali está pensando em hipótese.
O que resta de informação cabe em 3 ideias: ir embora, deste lugar, agora. A versão final fica assim: "Precisamos sair daqui agora." São 28 caracteres, abaixo dos 34 do teto, em uma linha só.
Nenhuma ideia da fala sumiu. Sumiu a hesitação escrita, e ela continua presente no áudio, que o espectador ouve inteiro enquanto lê.
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A legenda corta a fala até o tamanho do tempo; o resto da mensagem fica com a voz e o rosto do ator.
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II A Engrenagem
II, O que sai primeiro da fala
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O corte da fala segue uma ordem conhecida no ofício. Jorge Díaz Cintas e Aline Remael, no livro Audiovisual Translation: Subtitling (Tradução Audiovisual: Legendagem), publicado em 2007 pela editora St. Jerome, chamam a operação de redução e a dividem em dois tipos.
A redução parcial é a condensação (dizer o mesmo com menos palavras). "A gente devia ir embora" vira "Vamos embora". A redução total é a omissão (apagar o trecho inteiro). "Olha" e "sabe?" somem sem deixar substituto.
A ordem do corte obedece a uma pergunta: o espectador perde alguma informação se o trecho desaparecer? Se a resposta for não, o trecho sai antes de qualquer outro.
Saem primeiro as hesitações e as repetições. "Eu, eu não sei" vira "Não sei". Quem ouve o gaguejar no áudio não precisa lê-lo.
Saem em seguida os vocativos (as palavras que chamam alguém pelo nome) quando a pessoa chamada está na tela. "Maria, me passa o sal" vira "Me passa o sal", porque a câmera mostra a Maria.
Saem também os marcadores de conversa: "tipo", "né", "então", "olha", "veja bem". Na fala, eles ganham tempo para quem pensa. Na legenda, gastam o tempo de quem lê.
Fica tudo o que mexe na história. O nome de um personagem na primeira vez em que aparece, uma data, um número, o lugar para onde alguém vai, a mentira que alguém conta. Se o detalhe volta três episódios depois, ele não pode ter ficado no chão da sala de edição.
O guia da Netflix cuida também do desenho do texto. Quando a legenda ocupa 2 linhas, a quebra acontece depois da pontuação e antes de conjunções e preposições, para que cada linha seja um pedaço de sentido completo. "Vamos sair daqui / antes que ele volte" se lê de uma vez. "Vamos sair daqui antes / que ele volte" obriga o olho a voltar.
O mesmo guia pede a legenda de uma linha sempre que o texto couber nela. Uma linha só cobre menos imagem e exige um movimento de olho a menos.
Toda tradução escolhe o que perder. Na legenda, a escolha tem relógio: o tradutor decide o que perder dentro de um prazo medido em quadros de filme.
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O tradutor corta primeiro o que o áudio e a imagem já entregam, e guarda o que a história vai cobrar depois.
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