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A Lista do Coração Acelerado de Sei Shōnagon

Como uma dama da corte japonesa, por volta do ano 1000, juntou pardais, incenso e chuva numa lista sem explicar o elo.

Página manuscrita do Livro do Travesseiro

O Livro do Travesseiro, corte de Heian

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Todo editor já escreveu esta nota na margem de uma lista alheia: “Falta explicar o que liga os itens.” A nota parece zelo. Na maior parte das vezes, ela desmonta a lista, porque o elo explicado deixa de acontecer dentro de quem lê.

Por volta do ano 1000, numa corte japonesa, uma dama escreveu uma lista que contraria a nota do editor de ponta a ponta. O título promete um efeito no corpo: o que faz o coração acelerar.

Abaixo do título vêm itens que não pertencem à mesma gaveta. Pardais alimentando os filhotes. Passar diante de um lugar onde crianças pequenas brincam. Dormir sozinha num quarto perfumado com incenso fino. Perceber que um espelho chinês ficou um pouco turvo.

A lista segue com um homem de boa família que para a carruagem no portão e manda um criado perguntar alguma informação. Lavar o cabelo, maquiar-se e vestir roupa perfumada, mesmo sem ninguém por perto para ver. E, na noite em que se espera alguém, a chuva ou o vento batendo na janela, que faz a pessoa se sobressaltar.

Nenhum verbo de ligação entre os itens. Nenhuma frase que diga o que um pássaro tem em comum com um espelho. A autora larga as imagens em fila e sai de cena.

Quem lê faz o trabalho sozinho e descobre o elo no próprio peito: em todos os itens há um pequeno susto, uma expectativa sem nome, um instante em que o corpo se adianta à razão. O espelho turvo assusta; a chuva na noite de espera parece passo de visita.

A lista tem quase mil anos e continua funcionando em tradução, em inglês, em francês, em português. O método resiste à troca de língua porque não depende de palavra bonita. Depende da ordem e do corte.

A Desmontagem apresenta a autora, abre a lista pelo título original e mostra, item por item, onde mora o efeito.

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I  A Desmontagem

Pardais, incenso e um espelho turvo

 
 

A resposta de ontem

Em que revista saiu o ensaio de Orwell, em abril de 1946?

Foi a Horizon, revista literária de Londres editada por Cyril Connolly, colega de Orwell no colégio St Cyprian's e em Eton. O ensaio saiu no número 76, de abril de 1946, e em 1950 entrou na coletânea Shooting an Elephant and Other Essays (O abate de um elefante e outros ensaios).

A autora assinava Sei Shōnagon e era dama de companhia da imperatriz Fujiwara no Teishi em Heian-kyō, a capital que hoje se chama Quioto. Sei vem de Kiyohara, o clã da família dela; Shōnagon era um título da corte, algo como secretária menor. O nome próprio dela não chegou até nós: nenhum documento da época o registra, e as hipóteses dos estudiosos seguem sem prova.

Ela entrou para o serviço da imperatriz por volta de 993. O livro nasceu, segundo o próprio epílogo, de um presente: o irmão da imperatriz, Fujiwara no Korechika, trouxe uma pilha de papel fino, e a imperatriz perguntou o que fazer com ela. Shōnagon respondeu que daria um travesseiro, e ganhou o papel.

O sentido de travesseiro no título continua em aberto. Há quem leia caderno de cabeceira, guardado perto da cama; há quem leia uma reserva de palavras para poemas. O epílogo não decide, e os especialistas também não chegaram a acordo.

O resultado é o Makura no Sōshi (O Livro do Travesseiro), com cerca de trezentas passagens curtas. Parte é diário da corte. Parte é reflexão solta. E boa parte são listas temáticas, chamadas monozukushi (catálogos por tema): rios, pássaros, o que irrita, o que dá vergonha.

A lista de hoje se chama kokoro tokimeki suru mono (o que faz o coração acelerar). Tokimeki (o pulsar do peito) nomeia a batida diante de algo que ainda não aconteceu. Ivan Morris, que traduziu o livro para o inglês em 1967, pela Columbia University Press, verteu o título como “Things That Make One's Heart Beat Faster”.

Agora a desmontagem, item por item. Os pardais com filhotes abrem a lista pela ternura: um ninho é frágil, e o coração acelera por cuidado. As crianças brincando repetem o tom e criam a expectativa de uma lista doce.

O incenso no quarto vazio muda a temperatura. A dama dorme sozinha, e o perfume sugere que alguém pode ter estado ali, ou pode vir. A ternura vira desejo, sem que a autora troque de assunto.

O espelho chinês turvo é o item mais estranho da fila. Um espelho de bronze que embaça avisa que o tempo passou, que o objeto pede polimento, talvez que o rosto também mudou. O coração acelera, desta vez, por um susto pequeno.

A carruagem que para no portão junta desejo e susto. A roupa perfumada vestida para ninguém volta ao prazer íntimo. A chuva na noite de espera, por fim, amarra os fios: expectativa, desejo e sobressalto cabem no mesmo barulho na janela.

Shōnagon não explica o elo: ela ordena as imagens de modo que ternura, desejo e susto se encontrem no último item, e o leitor sente o fio antes de nomeá-lo.

 
 
 
 
 

II  A Engrenagem

O elo fica com o leitor

 
 

O mecanismo tem nome na estilística: parataxe (pôr frases lado a lado sem conectivo que diga a relação entre elas). Na lista de Shōnagon, a parataxe vai ao extremo, porque nem frases completas há, só imagens soltas sob um título.

O título faz o trabalho do conectivo. Ele declara o efeito e deixa a causa para o leitor. Cada item é uma prova, e a soma das provas compõe uma definição de tokimeki que a autora nunca escreve.

A ordem pesa tanto quanto a escolha. Os itens ternos vêm primeiro e baixam a guarda. O espelho turvo entra no meio e desestabiliza. O último item, o da noite de espera, recolhe o que veio antes. Trocar a ordem enfraquece o efeito: abrir pela chuva entrega o clima de uma vez e deixa os pardais sem função.

O corte também conta. A autora nunca acrescenta porque. Não diz que o espelho lembra a velhice, nem que o incenso lembra um amante. Quem completa a frase põe ali a própria memória, e por esse motivo a lista parece escrita para cada leitor.

O mesmo motor gira em outras listas do livro. Em nikuki mono (o que dá raiva), a autora enfileira o visitante que se demora na conversa quando você tem pressa e o mosquito que zumbe perto do rosto na hora de dormir. O leitor reconhece a irritação pelos próprios dias, sem que ela defina irritação.

Nem todo mundo na corte gostou da voz. Murasaki Shikibu, autora de O Conto de Genji, escreveu no próprio diário, por volta de 1010, que Shōnagon tinha um ar extraordinário de satisfação consigo mesma e espalhava caracteres chineses pelos textos sem dominá-los a fundo. A crítica mira a vaidade da autora; o livro atravessou os séculos assim mesmo.

A palavra tokimeki ainda circula. Em 2010, a japonesa Marie Kondo lançou um livro de arrumação cujo título original usa o verbo tokimeku (fazer o coração pulsar), critério para decidir o que guardar na casa. O teste é corporal nos dois casos: o peito responde antes da explicação.

Para quem escreve, a engrenagem se resume em três peças. Título que nomeia o efeito. Itens concretos sem legenda. Ordem que sobe da calma ao sobressalto e guarda para o fim o item que junta os anteriores.

A lista funciona porque o título promete um efeito, os itens o provam sem legenda e a ordem leva do calmo ao sobressalto, deixando o elo para quem lê.

 
 
 

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III  Na Oficina

A lista sem legenda

 
 

A lista sem legenda serve a quem escreve crônica, descrição de produto, abertura de texto e até apresentação de empresa. O vício que ela corrige é conhecido: enumerar e logo depois explicar a enumeração, como se o leitor precisasse de ajuda para somar.

Um exemplo de escritório. A versão com legenda diz: “O novo escritório é acolhedor, com café fresco, janelas grandes e plantas, criando um ambiente agradável.” O final explica o que a lista já mostrou e esfria tudo.

A versão sem legenda fica assim: “O que faz alguém chegar cedo: café passado às oito, janela que pega o sol da manhã, a samambaia que alguém rega sem escala.” O título nomeia o efeito, os itens provam, e nenhuma palavra explica.

Na lista sem legenda, quem escreve escolhe e ordena; quem lê liga os pontos, e lembra justamente por ter ligado sozinho.

Para montar a sua, cinco passos:

Passo a passo

 

1. Escolha um efeito no corpo ou no comportamento e escreva como título: o que faz alguém voltar, o que dá vontade de desligar o celular.

2. Liste dez itens concretos, cada um com um objeto, um som ou um gesto. Proibido adjetivo de avaliação, como agradável ou incrível.

3. Corte para cinco a sete. Fique com os que parecem não combinar entre si e mesmo assim respondem ao título.

4. Ordene do mais calmo ao mais intenso e guarde para o fim o item que junta os anteriores, como a chuva de Shōnagon.

5. Apague todo porque, pois e o que mostra que sobrou entre os itens.

 

O passo 3 é o mais difícil. A tentação é guardar itens parecidos, que se explicam uns aos outros. Shōnagon pôs pardal e espelho na mesma fila, sem parentesco nenhum, e o pequeno susto de achar o elo faz parte do efeito.

O passo 5 cuida do corte final. Se depois de apagar os conectivos a lista desmorona, o título está fraco ou algum item não responde a ele. Volte ao passo 1 e reescreva o título como efeito que se sente no corpo.

Teste hoje: escreva uma lista de cinco itens sob o título “O que me faz chegar cedo” e mostre a duas pessoas sem explicar nada. Peça que cada uma diga, numa frase, o que liga os itens. Se as duas acertarem o efeito com palavras próprias, a lista funciona; se uma pedir explicação, troque o item mais abstrato por um objeto e mostre de novo.

 
 
 

Até sexta, 30/10, às 23:59

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AMurasaki Shikibu
BMarie Kondo
CIvan Morris
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