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A Palavra Extra de Lutero em Romanos 3,28

Por que o alemão falado pediu o allein (somente) na Bíblia de 1522, e como a carta de 1530 defende a escolha pelo ouvido.

Página impressa do Novo Testamento alemão de Lutero, 1522

O Novo Testamento de Lutero, setembro de 1522

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Todo professor de tradução já ouviu o mesmo argumento de um aluno: “Traduzi palavra por palavra, então está fiel.” Está fiel ao dicionário. A frase sai correta, e nenhum falante da língua de chegada diria aquilo em voz alta.

Em 1522, um monge alemão escondido num castelo apostou no ouvido. Ao passar para o alemão uma frase de uma carta do apóstolo Paulo, escreveu uma palavra a mais, allein (somente), que o original grego não traz.

No grego, a frase dizia que o homem é justificado pela fé, sem as obras da lei. Na versão alemã, ficou justificado somente pela fé. Quatro letras do latim, sola (somente), passaram a resumir a diferença, e quem conhecia o original enxergou o acréscimo na hora.

O acréscimo não ficou sem resposta. Teólogos fiéis a Roma acusaram o tradutor de falsificar a Escritura para encaixar nela a própria doutrina. Ele não recuou e manteve a palavra nas edições seguintes.

Oito anos depois, escreveu uma carta inteira para defender a escolha. O argumento central não era só teológico. Era gramatical: o alemão falado, dizia ele, pede aquela palavra quando a frase afirma um termo e nega o outro.

Ele deu exemplos da cozinha e da feira, e mandou os críticos escutarem como as pessoas falam na rua. Para ele, a fidelidade de uma tradução se media na boca de quem ouve, e o dicionário vinha depois.

A tese incomoda até hoje porque toca o nervo de todo tradutor e de todo redator. Quando a língua de chegada exige uma palavra que o original não tem, acrescentar é trair o texto ou cumprir a tarefa de traduzi-lo?

A resposta dele tem método, exemplos e um custo que ele mesmo pagou. Cada parte pode ser usada hoje por quem escreve em português, traduzindo ou não.

A Desmontagem abre o versículo no grego, no latim e no alemão, conta as palavras uma a uma e mostra o ponto exato onde as quatro letras entraram.

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I  A Desmontagem

As quatro letras do versículo 28

 
 

O tradutor era Martinho Lutero, monge agostiniano e professor de teologia em Wittenberg. Em 1521, depois de se recusar a renegar seus escritos na Dieta de Worms (assembleia dos príncipes do Sacro Império), foi escondido pelo príncipe Frederico, o Sábio, no castelo de Wartburg, perto de Eisenach.

Lá, em cerca de onze semanas, traduziu o Novo Testamento a partir do grego, com a edição bilíngue publicada por Erasmo de Roterdã. O livro saiu em setembro de 1522, sem o nome do tradutor na folha de rosto, e ganhou o apelido de Septembertestament (Testamento de Setembro). Esgotou rápido, e uma segunda edição saiu em dezembro.

O versículo em disputa é Romanos 3,28. No grego, ele diz: logizometha gar dikaiousthai pistei anthrōpon chōris ergōn nomou. Traduzido palavra por palavra, fica assim: “consideramos, pois, ser justificado pela fé o homem, sem obras de lei”.

Pistei (pela fé) está lá. Monon (somente), a palavra grega que daria o sentido de exclusividade, não aparece.

A Vulgata (a tradução latina adotada pela Igreja, feita por Jerônimo no fim do século IV) seguia o grego de perto: “arbitramur enim iustificari hominem per fidem sine operibus legis” (pois julgamos que o homem é justificado pela fé, sem as obras da lei). Nenhum solum, nenhum sola.

Lutero escreveu, na grafia atualizada: “So halten wir es nun, dass der Mensch gerecht werde ohne des Gesetzes Werke, allein durch den Glauben” (assim sustentamos, então, que o homem se torna justo sem as obras da lei, somente pela fé).

Repare em dois movimentos. O primeiro é o acréscimo: allein entra colado a durch den Glauben (pela fé). O segundo é a ordem. Lutero levou as obras da lei para o meio da frase e deixou a fé para o fim, a posição de maior peso no alemão.

Os dois movimentos trabalham juntos. A frase nega primeiro, afirma depois, e a palavra allein marca a fronteira entre as duas partes.

Para o leitor fiel a Roma, a palavra parecia resumir a doutrina da justificação só pela fé, o centro da Reforma. Em 1523, Hieronymus Emser, teólogo a serviço do duque Jorge da Saxônia, publicou um livro contra a tradução e disse ter achado cerca de 1.400 erros e heresias nela.

Emser lançou a própria versão em 1527. Ela copiava grande parte do texto de Lutero, com retoques nos pontos de doutrina, e Romanos 3,28 voltou a sair sem allein.

Lutero não errou o grego: leu pistei, viu que monon faltava e escreveu allein de propósito, porque o ouvido alemão pedia a palavra.

 
 
 
 
 

II  A Engrenagem

A boca do homem no mercado

 
 

A defesa veio em setembro de 1530, com o título Sendbrief vom Dolmetschen (Carta aberta sobre a tradução). Lutero a escreveu no castelo de Coburgo, onde esperava notícias da Dieta de Augsburgo, a assembleia da qual não podia participar por estar proscrito pelo imperador. A carta saiu impressa em Nuremberg no mesmo mês.

Ele começa admitindo o fato: “Ich weiß wohl, dass das Wort solum nicht steht im lateinischen und griechischen Text” (sei bem que a palavra solum, somente, não está no texto latino nem no grego). E zomba dos críticos, que encaram as quatro letras s-o-l-a como vacas diante de um portão novo.

Depois vem o argumento gramatical. Em alemão, diz Lutero, quando a frase trata de dois termos, afirma um e nega o outro, usa-se allein junto com nicht (não) ou kein (nenhum). Sem allein, a frase fica capenga para o ouvido do falante.

Os exemplos são da rua. “Der Bauer bringt allein Korn und kein Geld” (o camponês traz só grão, e nenhum dinheiro). E a pergunta corriqueira: “Hast du allein geschrieben und nicht gelesen?” (você só escreveu e não leu?).

Romanos 3,28 tem exatamente essa forma. Afirma a fé, nega as obras da lei. Para Lutero, o alemão falado completa a frase com allein por conta própria, e deixar a palavra de fora produziria um alemão de tradutor, que ninguém fala.

O método vem na frase mais citada da carta. É preciso, escreve ele, perguntar “die Mutter im Hause, die Kinder auf der Gassen, den gemeinen Mann auf dem Markt” (a mãe em casa, as crianças na rua, o homem comum no mercado) e olhar para a boca deles, para ver como falam. Só então traduzir.

A carta traz um segundo caso, de Mateus 12,34. O latim diz “ex abundantia cordis os loquitur” (da abundância do coração fala a boca). A versão literal em alemão falaria de excesso, como sobra de barril. Lutero escolheu um provérbio já vivo na língua: “Wes das Herz voll ist, des gehet der Mund über” (do que o coração está cheio, a boca transborda).

Lutero não esconde o segundo motivo. Diz na mesma carta que o sentido de Paulo, naquele trecho, exige a palavra, porque o apóstolo trata justamente de excluir as obras. Gramática e teologia apontavam, para ele, a mesma escolha.

Os críticos responderam que a gramática servia de disfarce para a doutrina. A discussão sobre os dois motivos continua entre historiadores da língua e teólogos, e a carta não a encerra.

Para Lutero, fiel é a frase que soa natural para quem ouve: a gramática da língua de chegada tem voto na escolha das palavras.

 
 
 

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III  Na Oficina

O teste da feira

 
 

O caso de Lutero serve a quem traduz e a quem reescreve um texto próprio a partir de notas, de um áudio ou de um rascunho em outra língua. Nos três casos, o original puxa a frase para a forma dele, e o resultado sai correto e duro.

Um exemplo comum no escritório. A nota diz “we need better tools, not more people”. A versão literal fica “precisamos de ferramentas melhores, não de mais pessoas”. Lida em voz alta, ela funciona, mas pede ênfase. Na conversa, o brasileiro diria “o problema é só de ferramenta, ninguém precisa contratar”.

O “só” não está no inglês. Entra pelo mesmo caminho do allein: a frase afirma um termo e nega o outro, e o português falado marca a fronteira.

Para fazer o teste com um texto seu, quatro passos:

Passo a passo

 

1. Leia a frase traduzida ou reescrita em voz alta, sem olhar o original.

2. Pergunte se alguém da sua cidade diria aquilo na fila da padaria. Onde a leitura travar, marque.

3. Conte a mesma ideia em voz alta a um vizinho imaginário e anote as palavras que surgiram e não estão no original.

4. Para cada palavra acrescentada, escreva numa linha o trabalho dela na frase: ligar, limitar ou dar ênfase. Se não souber escrever, corte.

 

O passo 4 é o freio que a história de Lutero pede. A palavra acrescentada pode carregar sentido além da gramática, e quem a pôs responde por ela.

Lutero respondeu. Em janeiro de 1547, o Concílio de Trento, no decreto sobre a justificação, condenou no cânon 9 quem dissesse que o pecador é justificado somente pela fé. O allein tinha virado bandeira, e a defesa gramatical não o tirou do campo da doutrina.

Daí o teste da feira serve para ganhar naturalidade, nunca para mudar o que o autor afirmou. Se a palavra nova muda o alcance da frase, ela deixa de ser tradução e vira opinião do tradutor.

Teste hoje: pegue três frases que você traduziu ou reescreveu esta semana e leia cada uma em voz alta para alguém, sem mostrar o texto. Conte quantas vezes a pessoa franze a testa ou pede para repetir; se passar de uma, refaça a frase pelo passo 3 e leia de novo. A carta de 1530 também tem uma história de bastidor.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Quem publicou a carta de Lutero sobre a tradução em Nuremberg, em setembro de 1530?

 
 
 
 

Quiz da edição

Segundo o texto, quantos erros e heresias Hieronymus Emser afirmou ter encontrado na tradução de Lutero, em seu livro de 1523?

ACerca de 400
BCerca de 2.100
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