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As 8 Frases de Molly Bloom em Ulisses
Como James Joyce fecha Ulisses com um monólogo quase sem pontuação que abre e termina na palavra sim, e quando o recurso cansa o leitor.
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O monólogo de Molly Bloom, sem ponto
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Quem tenta escrever um pensamento sem pontuação pela primeira vez costuma se justificar com uma frase: “Tirei as vírgulas para ficar mais fluido.” Foi essa frase que fez o leitor parar três vezes no mesmo parágrafo, voltar duas linhas e desistir antes da metade.
Tirar a pontuação parece soltar o texto. Na página, quase sempre amarra. A vírgula e o ponto avisam ao olho onde respirar, onde uma ideia acaba e outra começa. Sem eles, o leitor faz sozinho o trabalho que o escritor largou, e cansa.
Existe um texto famoso que faz o contrário e funciona. Ele fecha um romance de 1922, ocupa dezenas de páginas e tem apenas 8 frases. Quase não há vírgula, quase não há ponto, e nenhuma fala aparece entre aspas.
Um leitor da casa, ao conhecer o recurso, resumiu a surpresa numa linha: “Recurso completamente novo para mim.” A frase dele é honesta. A maioria das pessoas nunca leu nada assim, porque quase ninguém escreve assim, e quem tenta costuma errar pelo motivo da primeira linha desta edição.
O segredo está no que o autor pôs no lugar da pontuação. O guia continua lá, trocado de lugar. Os sinais que separavam as ideias saíram da tipografia e foram morar nas próprias palavras, que se repetem, viram de rumo e marcam o compasso.
Dá para medir o efeito com um trecho curto. Lido sem pontuação, ele corre, embala e embaralha. Lido com as vírgulas e os pontos devolvidos, ele fica claro e perde metade da força. As duas versões aparecem lado a lado logo abaixo.
Há também o limite. O recurso que encanta numa página cansa em outra, e o leitor que se emociona no final de um romance perde a paciência num email escrito no mesmo ritmo.
A faixa I abre o monólogo, mostra quem fala, onde e a que horas, e põe o trecho cru ao lado do trecho pontuado.
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I A Desmontagem
I, Molly Bloom na cama às 2 da manhã
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O romance é Ulisses, de James Joyce, publicado em Paris pela livraria Shakespeare and Company, de Sylvia Beach, em 2 de fevereiro de 1922, dia em que o autor fazia 40 anos. O livro inteiro acompanha um único dia em Dublin, 16 de junho de 1904.
Nos Estados Unidos, o livro ficou proibido até dezembro de 1933, quando o juiz John M. Woolsey, de Nova York, decidiu que a obra podia circular. Boa parte da acusação de obscenidade mirava justamente as páginas finais, as de Molly.
O último episódio se chama Penélope. Quem fala é Marion Bloom, chamada de Molly, cantora, mulher de Leopold Bloom, o protagonista. Ela está deitada na cama da casa da rua Eccles, número 7, depois das 2 da manhã, com o marido dormindo ao lado, de cabeça para os pés dela.
Molly não fala com ninguém. Ela pensa. O episódio é um monólogo interior (o registro direto do que passa pela cabeça de uma personagem, sem narrador no meio). Ela lembra do dia, do marido, de outros homens, de Gibraltar, onde cresceu, da mãe que não conheceu, do dinheiro, do corpo.
Joyce escreveu esse fluxo em 8 frases enormes. A primeira palavra é “Yes”, que em português quer dizer sim. As últimas palavras do livro são estas:
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“yes I said yes I will Yes.”
James Joyce, Ulisses, 1922
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Em português: sim eu disse sim eu quero Sim. O ponto final desta linha é um dos raríssimos sinais de pontuação do episódio inteiro.
Agora o trecho. Pouco antes do final, Molly lembra do dia em que Leopold a pediu em casamento, no morro de Howth, perto de Dublin. Traduzido sem a pontuação, como Joyce escreveu, fica assim:
e então eu pedi com os olhos que ele pedisse outra vez sim e então ele me perguntou se eu queria sim dizer sim minha flor da montanha
Com a pontuação recolocada, fica assim:
E então eu pedi com os olhos que ele pedisse outra vez. Sim. E então ele me perguntou se eu queria, sim, dizer sim, minha flor da montanha.
Leia as duas versões uma atrás da outra. A segunda é mais clara e mais lenta: cada ponto obriga o olho a parar, e cada parada esfria a lembrança. A primeira corre como a memória corre, com o “sim” batendo no meio, e chega ao fim da linha sem ter respirado.
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Sem vírgula e sem ponto, o leitor lê no ritmo da lembrança de Molly; com eles, lê no ritmo de quem organiza a lembrança.
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II A Engrenagem
II, O sim que faz o papel do ponto
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Joyce não tirou a pontuação e torceu para dar certo. Numa carta de 1921 ao amigo e pintor Frank Budgen, escrita enquanto terminava o episódio, ele explicou o desenho:
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“It begins and ends with the female word yes.”
James Joyce, carta a Frank Budgen, 1921
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Em português: começa e termina com a palavra feminina sim. A palavra que abre e encerra o monólogo também marca o compasso dentro dele.
O mecanismo tem três peças, e elas trabalham juntas.
A primeira é a repetição. Molly diz “sim” dezenas de vezes ao longo das 8 frases. Cada “sim” funciona como um ponto disfarçado: o olho reconhece a palavra, entende que um pensamento fechou e se prepara para o seguinte. A pontuação sumiu da página e voltou dentro do vocabulário.
A segunda é o pronome. Molly fala de vários homens usando apenas “ele”. Quando o “ele” troca de dono, o leitor sente o tranco e sabe que mudou o assunto. O pronome que muda de pessoa faz o trabalho do parágrafo novo.
A terceira é a conjunção “e”. As frases de Molly se emendam por “e então”, “e depois”, “e ele”. A conjunção avisa que vem mais uma ideia, como a vírgula avisaria, mas sem deixar a frase parar.
Somadas, as três peças explicam por que o texto se deixa ler. O leitor lê sinais de outro tipo, escondidos nas palavras. Ele demora algumas páginas para aprender o código, e o começo do episódio acaba sendo a parte mais difícil.
Outros escritores usaram a mesma lógica com outra ferramenta. José Saramago, em Ensaio sobre a Cegueira, de 1995, tirou aspas e travessões dos diálogos: uma vírgula seguida de letra maiúscula marca a troca de quem fala. Cormac McCarthy, em A Estrada, de 2006, também dispensou as aspas e deixou a fala solta na linha. Os dois mantiveram o ponto final, e Joyce, no último episódio, abriu mão até dele.
O recurso cobra um preço, e o próprio Ulisses mostra qual. Joyce reservou o fluxo sem pontuação para um único episódio, o último, depois de centenas de páginas em que o leitor já conhece Molly pelos olhos dos outros. Ninguém chega ao monólogo sem saber quem ela é.
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A pontuação some da página e reaparece na palavra repetida, no pronome que troca de dono e no “e” que emenda as ideias.
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