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A Desmontagem do Dia
O Peso de Cada Objeto Que o Soldado Carrega
Como o inventário de objetos com peso exato em As Coisas Que Eles Carregavam faz o leitor sentir o trauma que O'Brien nunca nomeia, provando que enumerar coisas concretas pesa mais que descrever o sentimento
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Bom dia, Engenheiro(a) da Escrita!
Em "As Coisas Que Eles Carregavam", O'Brien precisa fazer o leitor sentir o peso de uma guerra que ele nunca viveu, sem transformar a página num relatório de horror. Um autor comum iria direto ao sentimento: descreveria o medo, o luto, o cansaço, tudo o que os soldados carregavam por dentro.
O'Brien faz o contrário. Ele pega uma balança. Em vez de nomear o que os homens sentiam, ele lista o que eles carregavam no corpo, objeto por objeto, e anota o peso exato de cada coisa em gramas e em quilos.
A arma pesa tanto. O cantil cheio, tanto. A ração, o rádio, a granada, as cartas da namorada, uma pedrinha de sorte no bolso, cada item entra na frase com o número do seu peso ao lado.
O leitor sente a mochila nas costas. E quando O'Brien, no meio da lista de objetos, acrescenta que eles carregavam o medo, o medo já vem com peso, porque entrou na mesma conta dos cantis e das botas.
O problema que essa escolha resolve é o mais difícil de qualquer texto sobre dor: como fazer o leitor sentir um sofrimento que não é dele, sem soar melodramático. Nomear a emoção não resolve. Um adjetivo forte não pesa, ele evapora.
O leitor comum acha que se comoveu por causa do assunto, do horror, do que estava em jogo. Mas o que aperta o peito não é o assunto, é a mecânica do inventário. Ao pesar cada objeto, o autor faz o leitor carregar a soma, e é a soma que dói.
Vamos desmontar.
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Pegue a passagem em que O'Brien abre o livro, a que lista os objetos com o peso de cada um ao lado:
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"A M-16 pesava três quilos e meio descarregada. Eles carregavam abridores de lata, canivetes, tabletes de sal, repelente, cigarros, cantis de água. O tenente Cross carregava as cartas, as fotos e uma pedrinha, e sabia o peso de cada uma."
O inventário físico, item por item, com o peso exato de cada objeto anotado em número
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Repare no que a lista faz antes de tocar em qualquer sentimento. Ela não fala de coragem nem de medo. Ela pesa coisas: metal, papel, água, pano. Cada objeto vem com uma quantidade ao lado, como numa nota fiscal.
Ao dar o peso exato de cada item, o narrador transforma abstração em fato. Você não discute com um número. Três quilos e meio são três quilos e meio, e o leitor sente o braço cansar só de ler.
Então vem o segundo movimento, a virada, quando a mesma lista escorrega do concreto para o que não tem peso:
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"Carregavam o luto, o terror, o amor, a saudade. Carregavam lembranças que envergonhavam. Carregavam o segredo comum da covardia, o medo de fraquejar diante dos outros."
A mesma gramática da lista, agora aplicada ao que não se pesa, herda o peso do que se pesava
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Aquele verbo "carregavam", repetido, não é enfeite. É uma balança. O narrador usa o mesmo verbo dos cantis e das botas para o luto e para o medo, e o sentimento entra na frase já pesando, porque a lista ensinou o leitor a pesar.
Essa dupla jogada faz três coisas ao mesmo tempo.
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Primeiro, ela converte abstração em fato. A dor é vaga e escorrega. "Vinte e três quilos" não escorrega. O número obriga o corpo do leitor a calcular, e calcular um peso é senti-lo.
Um sentimento nomeado o leitor lê e segue adiante. Um peso em quilos ele mede contra o próprio ombro, e a medida fica.
Segundo, ela cria acúmulo. Cada item soma ao anterior. Nenhum objeto sozinho comove, mas a pilha cresce a cada linha, e a soma vira uma massa que o leitor carrega junto com os soldados.
É o "e também esta coisa, e também aquela" que esmaga, não a peça avulsa. A lista é longa de propósito, para que o total pese mais que qualquer item sozinho.
Terceiro, ela faz o intangível herdar o peso do tangível. Ao estender a mesma lista dos objetos para os sentimentos, o autor contrabandeia o medo para dentro da balança.
O medo entra na frase com o verbo dos cantis, e o leitor, já convencido de que a lista pesa, aceita sem discutir que o medo pesa igual.
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Observe um detalhe fino que sustenta o livro inteiro. O'Brien repete esse gesto de pesagem em toda parte, não só na abertura: a cada baixa, a cada marcha, ele volta a somar o que os homens carregavam e acrescenta mais um item à conta.
Cada nova lista reforça a carga, e o leitor, já acostumado a pesar objetos, pesa também as perdas quando elas entram na mesma coluna.
E note que ele nunca nomeia o trauma diretamente. Não há um "aquilo foi devastador" nem uma explicação do que a guerra fez com eles. O trauma aparece só como peso acumulado, na soma que o leitor faz sozinho.
É justamente essa recusa a nomear o sentimento que faz a dor soar verdadeira, porque o leitor sente a carga no próprio corpo em vez de receber pronta a informação de que ela existia.
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O'Brien não descreve o trauma. Ele pesa os objetos, um a um, e deixa a soma dos pesos carregar o que ele nunca põe em palavras.
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O princípio que opera nessa mecânica tem um nome que jornalistas e romancistas conhecem bem:
O inventário que carrega o indizível.
A soma de objetos concretos que pesa o que o autor se recusa a nomear. Todo texto sobre dor enfrenta a mesma barreira: o sentimento nomeado não transfere, ele apenas informa.
O jeito preguiçoso é buscar o adjetivo mais forte. O jeito que funciona é largar o adjetivo e listar coisas, porque o objeto pesa e a palavra "dor" não.
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O leitor não sente o peso quando você nomeia a dor. Ele sente quando você conta os objetos, um a um, e o deixa somar.
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Hemingway faz o mesmo em "Big Two-Hearted River": Nick Adams volta da guerra e o conto nunca diz a palavra guerra, ele apenas descreve com obsessão cada gesto de armar o acampamento, o café coado, a barraca esticada, o anzol amarrado, e é o excesso de cuidado com os objetos que carrega o trauma que o texto se recusa a nomear. Joan Didion, em "The White Album", transcreve a própria lista de mala, a saia, a meia, o cigarro, o bourbon, item por item, e a precisão fria do inventário carrega o pânico de uma mente à beira do colapso, sem que ela escreva a palavra pânico. O ganho comum aos três é o mesmo: o objeto concreto pesa, o sentimento nomeado evapora. O leitor associa peso a esforço, e esforço a uma dor real que ele calcula no próprio corpo, em vez de aceitar de fora a informação de que havia sofrimento. A emoção nasce porque o autor a deixou virar coisa, e coisa tem peso, e peso é a única forma de a página fazer o leitor sentir o que os personagens sentiam sem precisar dizer.
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Pese os objetos, não nomeie a dor
Escolha um trecho seu onde você escreveu o sentimento direto: "ele estava destruído", "a saudade era insuportável", "havia um medo pesado no ar". Localize o adjetivo que faz o trabalho pesado, o ponto onde você nomeou a emoção porque achou que precisava. Não troque por um adjetivo mais forte. Troque por objetos. Liste o que a pessoa carrega, veste, guarda ou não consegue largar, e dê a cada coisa um peso, um número, uma marca, uma quantidade, do jeito que O'Brien anotou os três quilos e meio da arma. Onde você escreveu "ele estava destruído", escreva a foto amassada no bolso, as botas que ele ainda engraxa, a carta que ele lê e relê.
Releia perguntando, item por item: cada objeto puxa uma emoção sem que você precise nomeá-la? Se uma peça é decorativa, se está ali só pra encher a lista, corte, porque o inventário só pesa quando cada item carrega alguma coisa. Termine somando em voz alta. Leia a lista inteira de uma vez e sinta se o total esmaga mais que a frase que você apagou. Se esmaga, se o leitor fecha os olhos e sente o peso no ombro sem que você tenha escrito a palavra dor, você fez o mesmo que O'Brien fez na primeira página, transformou o inventário no lugar onde o indizível fica guardado.
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