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1 leitor escolheu Haicai da Rã. Sai em 09/10.
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A Carta de Darcy que Vira Orgulho e Preconceito
Como Jane Austen, em 1813, usou 3 capítulos e uma carta para mudar o vilão de lugar sem nenhuma cena de ação.
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Orgulho e Preconceito, de Jane Austen, Londres, 1813
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Quem escreve uma reviravolta costuma anunciá-la assim: "E então tudo mudou." A frase promete o giro e não mostra giro nenhum. O leitor fica sabendo que algo aconteceu sem sentir nada acontecer.
Em 1813, um romance inglês fez uma das reviravoltas mais conhecidas da língua sem uma única cena de ação. O livro era Orgulho e Preconceito, de Jane Austen, publicado em Londres em janeiro daquele ano, sem o nome da autora na capa.
Até a metade do livro, o leitor tem certeza de quem é quem. Fitzwilliam Darcy, o herdeiro rico de Pemberley, é arrogante e frio. George Wickham, o oficial simpático da milícia, é a vítima que Darcy prejudicou por capricho. Elizabeth Bennet, a protagonista, acredita nas duas versões, e o leitor acredita junto com ela.
Então Darcy pede Elizabeth em casamento, ela recusa com uma lista de acusações, e na manhã seguinte ele lhe entrega uma carta. Ninguém luta, ninguém foge, ninguém aparece no meio da noite. Uma moça lê papel numa alameda (caminho ladeado de árvores) do parque de Rosings, e o romance gira sobre o próprio eixo.
A carta reconta fatos que o leitor já conhece, agora pela voz de quem foi acusado. Nenhum episódio de última hora é inventado para salvar Darcy. Os fatos ficam no lugar; muda a pessoa que os narra.
O efeito alcança quem segura o livro. Quem chegou à página da carta torcendo contra Darcy precisa voltar de memória a cada conversa com Wickham e ouvi-la de novo, agora com uma suspeita na cabeça.
São 3 capítulos encadeados, o 34, o 35 e o 36, e cada um empurra o leitor para o seguinte como a dobradiça empurra a porta. A faixa I desmonta essa dobradiça peça por peça, a partir do pedido recusado.
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I A Desmontagem
I, A dobradiça de 3 capítulos
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Jane Austen escreveu a primeira versão do romance entre 1796 e 1797, com o título First Impressions (Primeiras Impressões). O pai dela ofereceu o manuscrito ao editor Thomas Cadell em 1797, e Cadell recusou sem ler. Reescrito, o livro saiu pelo editor Thomas Egerton, que pagou 110 libras pelos direitos.
Na numeração contínua das edições modernas, a reviravolta ocupa os capítulos 34, 35 e 36. Na edição original, em três volumes, são os capítulos 11, 12 e 13 do segundo volume, o miolo do livro.
No capítulo 34, Elizabeth está sozinha no presbitério (a casa do pároco) de Hunsford, com dor de cabeça, enquanto os outros jantam em Rosings. Darcy entra, anda pela sala e declara:
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“In vain have I struggled. It will not do. My feelings will not be repressed. You must allow me to tell you how ardently I admire and love you.”
Jane Austen, Orgulho e Preconceito, 1813
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Em português: lutei em vão. Não adianta. Meus sentimentos não se deixam reprimir. Permita que eu lhe diga com que ardor eu a admiro e a amo.
O pedido vem embrulhado em insulto. Darcy fala da família inferior dela e de quanto lutou contra a própria inclinação. Elizabeth recusa e acusa: ele separou a irmã dela, Jane, do amigo Charles Bingley, e arruinou a vida de Wickham. Termina dizendo que ele é o último homem do mundo com quem ela aceitaria se casar.
No capítulo 35, na manhã seguinte, Darcy a encontra no parque, entrega um envelope e vai embora. São duas folhas escritas de ponta a ponta, em letra miúda, e o próprio envelope também vem cheio.
A carta responde às duas acusações, uma por vez. Sobre Jane: Darcy observou a moça e não viu sinal de afeto especial por Bingley; admite também que a conduta da mãe e das irmãs mais novas pesou no conselho que deu ao amigo.
Sobre Wickham: o pai de Darcy deixou a ele a promessa de uma paróquia. Wickham abriu mão dela, recebeu 3.000 libras em troca e gastou tudo. Voltou pedindo a paróquia e, recusado, tentou fugir com Georgiana, irmã de Darcy, então com 15 anos, de olho no dote de 30.000 libras.
No capítulo 36, Elizabeth lê, rejeita e relê. Austen não repete a carta; narra a leitura. Elizabeth confronta cada frase com o que Wickham lhe contou e percebe dois detalhes: ele contou a história a uma desconhecida logo no primeiro encontro, e só espalhou o caso pela vizinhança depois que Darcy partiu. A releitura termina numa frase curta:
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“Till this moment I never knew myself.”
Jane Austen, Orgulho e Preconceito, 1813
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Em português: até este momento eu não me conhecia. O vilão muda de lugar, e a pessoa julgada passa a ser a própria Elizabeth, que se orgulhava de ler bem as pessoas.
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A dobradiça tem 3 peças: a cena que acusa, o documento que responde e a leitura que julga quem acusou.
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II A Engrenagem
II, Os mesmos fatos com outra voz
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A primeira peça do mecanismo é a acusação dita em voz alta. O capítulo 34 existe para que Elizabeth enumere, uma por uma, as culpas de Darcy. Sem a lista, a carta não teria pauta. O leitor recebe o roteiro da resposta antes da resposta.
A segunda peça é o documento como acontecimento. Uma carta não pode ser interrompida. Elizabeth não consegue replicar no meio da frase, e Darcy não está presente para ser julgado pelo tom de voz ou pela cara fechada. Sobram as palavras, e as palavras dele são precisas: datas, valores, nomes.
Austen conhecia bem a forma. O romance epistolar (a história contada só por cartas) dominou a ficção inglesa do século XVIII, com Pamela, de Samuel Richardson, publicado em 1740. Austen pegou uma peça dessa tradição e a usou uma vez só, no ponto em que precisava de uma voz sem interrupção.
A terceira peça é a releitura narrada. Austen usa o discurso indireto livre (a narração que entra na cabeça da personagem e passa a falar com a voz dela). O leitor acompanha Elizabeth revisitar cada cena e faz a mesma revisão por conta própria.
A reviravolta convence porque nenhum fato decisivo foi escondido do leitor. No capítulo 16, Wickham já tinha dito a Elizabeth que, por respeito ao velho Darcy, jamais exporia o filho. Disse e, na mesma conversa, expôs. O leitor viu a contradição e passou por ela, como Elizabeth.
Esse cuidado protege o romance contra a sensação de truque. Se a carta trouxesse um segredo que nenhuma página anterior permitia imaginar, o leitor se sentiria enganado pela autora. Como a carta só reordena o que já estava na página, o leitor se sente enganado pelo próprio julgamento, e volta ao livro para conferir.
A dobradiça também deixa uma pergunta aberta: o que Elizabeth fará quando encontrar Darcy de novo? É a pergunta que puxa a leitura para o terceiro volume. Austen responde no capítulo 43, quando Elizabeth visita Pemberley com os tios Gardiner, encontra Darcy por acaso e o vê tratar os tios com cortesia. No capítulo 58, ele repete o pedido, e ela aceita.
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A reviravolta convence quando nenhum fato novo entra: a carta só reordena o que o leitor já tinha visto.
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