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O ensaísta era George Orwell, pseudônimo de Eric Arthur Blair, autor de A Revolução dos Bichos, lançado em 1945. O ensaio se chama Politics and the English Language (A política e a língua inglesa) e saiu em abril de 1946, quando Orwell já trabalhava no romance 1984.
O verso escolhido é Eclesiastes 9,11, na Bíblia do Rei Jaime: “I returned, and saw under the sun, that the race is not to the swift, nor the battle to the strong, neither yet bread to the wise, nor yet riches to men of understanding, nor yet favour to men of skill; but time and chance happeneth to them all.”
Em português: voltei-me e vi debaixo do sol que a corrida não é dos ligeiros, nem a batalha dos fortes, nem o pão dos sábios, nem a riqueza dos entendidos, nem o favor dos hábeis; mas o tempo e o acaso alcançam a todos.
A paródia de Orwell diz: “Objective considerations of contemporary phenomena compels the conclusion that success or failure in competitive activities exhibits no tendency to be commensurate with innate capacity, but that a considerable element of the unpredictable must invariably be taken into account.”
Na língua dos pareceres: considerações objetivas dos fenômenos contemporâneos impõem a conclusão de que o sucesso ou o fracasso em atividades competitivas não exibe tendência a ser proporcional à capacidade inata, e um elemento considerável de imprevisibilidade deve invariavelmente ser levado em conta.
O próprio Orwell fez as contas no ensaio. O verso tem 49 palavras e 60 sílabas, todas de uso diário. A paródia tem 38 palavras e 90 sílabas; 18 dessas palavras vêm de raízes latinas e uma do grego.
Segundo ele, o verso traz seis imagens vivas e uma única expressão vaga, “time and chance” (o tempo e o acaso). A paródia não tem uma só expressão nova que prenda o olho, e nenhuma das noventa sílabas desenha algo que se veja.
Repare no que cada versão pede ao leitor. Com “a corrida não é dos ligeiros”, ele vê pernas, pista, alguém chegando atrás. Com “atividades competitivas”, ele precisa traduzir de volta para um exemplo, e o trabalho que o autor deixou de fazer passa para quem lê.
A paródia esconde ainda um tropeço de concordância: “considerations... compels”, sujeito no plural com verbo no singular. O ensaio não diz se o deslize foi proposital, e Orwell nunca voltou ao ponto. O efeito, porém, se mede: o leitor larga a frase antes de chegar ao verbo e nem nota o erro.
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