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O Eclesiastes de Orwell em 90 Sílabas

Como o ensaio de 1946 troca as imagens de um verso bíblico por abstrações latinas, e o que a contagem de sílabas ensina a quem escreve.

Máquina de escrever com folha datilografada sobre a mesa, anos 1940

O ensaio de Orwell sobre a língua inglesa, 1946

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Todo chefe de repartição já assinou um parecer que começa assim: “Considerações objetivas acerca do cenário atual impõem a conclusão de que...”. A frase parece séria. Três linhas depois, ninguém lembra o que ela pediu.

Em 1946, um ensaísta inglês resolveu provar o estrago com um texto que todo leitor de língua inglesa sabia de cor. Pegou um verso da Bíblia do Rei Jaime, a tradução inglesa de 1611, e o reescreveu no idioma dos relatórios oficiais.

O verso vem do Eclesiastes, o livro do Antigo Testamento atribuído ao Pregador. Fala de corrida, batalha, pão, riqueza e favor, e termina dizendo que o tempo e o acaso alcançam todo mundo. Cada pedaço cabe numa cena: dá para ver o corredor, o soldado, o sábio sem pão.

A versão de repartição fala de considerações objetivas, de atividades competitivas e de capacidade inata. Nenhuma dessas expressões cabe numa cena. O leitor entende o assunto e não enxerga nada.

O ensaísta contou as duas versões. A paródia ficou com menos palavras e, mesmo assim, com noventa sílabas contra sessenta do verso bíblico. As palavras encolheram em número e engordaram em tamanho, quase todas de raiz latina.

A conta parece truque de professor, mas mira um vício vivo em email corporativo, edital, nota de imprensa e trabalho de faculdade. Quem escreve assim raramente mente. Escolhe a palavra comprida porque ela soa segura e porque não obriga a decidir o que se está dizendo.

O ensaio tem um diagnóstico, uma lista de seis regras e um aviso sobre política que o autor considerava o ponto principal. Cada parte serve a quem escreve hoje em português, no trabalho ou fora dele.

A Desmontagem põe as duas versões lado a lado, mostra as contas que o próprio autor fez e aponta onde as imagens se perderam na passagem.

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I  A Desmontagem

Sessenta sílabas contra noventa

 
 

O ensaísta era George Orwell, pseudônimo de Eric Arthur Blair, autor de A Revolução dos Bichos, lançado em 1945. O ensaio se chama Politics and the English Language (A política e a língua inglesa) e saiu em abril de 1946, quando Orwell já trabalhava no romance 1984.

O verso escolhido é Eclesiastes 9,11, na Bíblia do Rei Jaime: “I returned, and saw under the sun, that the race is not to the swift, nor the battle to the strong, neither yet bread to the wise, nor yet riches to men of understanding, nor yet favour to men of skill; but time and chance happeneth to them all.”

Em português: voltei-me e vi debaixo do sol que a corrida não é dos ligeiros, nem a batalha dos fortes, nem o pão dos sábios, nem a riqueza dos entendidos, nem o favor dos hábeis; mas o tempo e o acaso alcançam a todos.

A paródia de Orwell diz: “Objective considerations of contemporary phenomena compels the conclusion that success or failure in competitive activities exhibits no tendency to be commensurate with innate capacity, but that a considerable element of the unpredictable must invariably be taken into account.”

Na língua dos pareceres: considerações objetivas dos fenômenos contemporâneos impõem a conclusão de que o sucesso ou o fracasso em atividades competitivas não exibe tendência a ser proporcional à capacidade inata, e um elemento considerável de imprevisibilidade deve invariavelmente ser levado em conta.

O próprio Orwell fez as contas no ensaio. O verso tem 49 palavras e 60 sílabas, todas de uso diário. A paródia tem 38 palavras e 90 sílabas; 18 dessas palavras vêm de raízes latinas e uma do grego.

Segundo ele, o verso traz seis imagens vivas e uma única expressão vaga, “time and chance” (o tempo e o acaso). A paródia não tem uma só expressão nova que prenda o olho, e nenhuma das noventa sílabas desenha algo que se veja.

Repare no que cada versão pede ao leitor. Com “a corrida não é dos ligeiros”, ele vê pernas, pista, alguém chegando atrás. Com “atividades competitivas”, ele precisa traduzir de volta para um exemplo, e o trabalho que o autor deixou de fazer passa para quem lê.

A paródia esconde ainda um tropeço de concordância: “considerations... compels”, sujeito no plural com verbo no singular. O ensaio não diz se o deslize foi proposital, e Orwell nunca voltou ao ponto. O efeito, porém, se mede: o leitor larga a frase antes de chegar ao verbo e nem nota o erro.

A paródia gasta menos palavras e mais sílabas: cada termo abstrato obriga o leitor a fabricar a imagem que o autor não entregou.

 
 
 
 
 

II  A Engrenagem

O galinheiro pré-fabricado

 
 

Orwell abre o ensaio com cinco trechos reais, tirados de professores, de um panfleto comunista e de uma carta ao jornal Tribune. Deles extrai um catálogo de quatro vícios, e a paródia do Eclesiastes foi montada com peças desse catálogo.

O primeiro vício são as metáforas gastas, as que já perderam a imagem de tanto uso. Ele cita “toe the line” (andar na linha) e “fishing in troubled waters” (pescar em águas turvas), repetidas por gente que não pensa no anzol nem na água.

O segundo ele chama de “verbal false limbs” (membros verbais postiços). Um verbo simples cresce e vira locução: “break” (quebrar) passa a “render inoperative” (tornar inoperante), e o verbo some atrás de um substantivo. Na mesma lista está “exhibit a tendency to” (exibir tendência a), que entra inteira na paródia.

O terceiro é a dicção pretensiosa: palavras de raiz latina ou grega que dão ar de ciência a uma afirmação banal. Orwell lista “phenomenon” (fenômeno), “element” (elemento), “objective” (objetivo) e “exhibit” (exibir). As quatro aparecem na paródia.

O quarto são as palavras sem sentido fixo, como “democracy” (democracia) e “freedom” (liberdade), que cada orador usa para o que lhe convém. Ninguém discorda delas porque ninguém sabe ao certo o que afirmam.

O mecanismo comum está numa frase do ensaio. Para Orwell, a prosa moderna “consists less and less of words chosen for the sake of their meaning, and more and more of phrases tacked together like the sections of a prefabricated hen-house” (é feita cada vez menos de palavras escolhidas pelo sentido e cada vez mais de expressões pregadas umas nas outras como as seções de um galinheiro pré-fabricado).

A peça pronta poupa o escritor de pensar. A expressão já vem montada, com ritmo e ar de autoridade, e encaixa em qualquer parágrafo. O custo vai para o leitor, que recebe a estrutura e precisa adivinhar o conteúdo.

O aviso político vem daí. Orwell escreve que, no seu tempo, o discurso político era em grande parte a defesa do indefensável. O exemplo dele: aldeias bombardeadas do ar, moradores expulsos, gado metralhado, cabanas incendiadas, e o conjunto recebe o nome de “pacification” (pacificação).

A palavra abstrata permite falar do bombardeio sem pôr a cena na cabeça de quem ouve. Daí o ensaio trata a clareza como questão de honestidade: segundo Orwell, o grande inimigo da linguagem clara é a falta de sinceridade.

A frase pronta poupa o escritor de decidir o que quer dizer e entrega ao leitor a tarefa de adivinhar.

 
 
 

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III  Na Oficina

As seis regras de 1946

 
 

Orwell fecha o ensaio com seis regras e as apresenta como freio para quando o ouvido falhar. Ele avisa no próprio texto que cometeu, ao longo do ensaio, os mesmos vícios que acabara de condenar. As regras, traduzidas:

As seis regras

 

1. Nunca use metáfora, comparação ou figura que você já viu impressa muitas vezes.

2. Nunca use palavra longa quando uma curta resolve.

3. Se dá para cortar uma palavra, corte.

4. Nunca use a voz passiva quando puder usar a ativa.

5. Nunca use expressão estrangeira, termo científico ou jargão quando houver equivalente na língua de todo dia.

6. Quebre qualquer dessas regras antes de escrever algo francamente bárbaro.

 

A sexta regra é a que segura as outras cinco. Ela admite que regra nenhuma substitui o juízo, e que obedecer às cinco primeiras de forma cega também produz texto ruim.

O teste do Eclesiastes funciona ao contrário das regras. Orwell pegou uma frase limpa e a inflou, para o leitor enxergar o inchaço de fora. Dá para fazer o caminho inverso com qualquer parágrafo de trabalho.

Um exemplo de escritório: “A diretoria entende que a implementação de melhorias no processo de atendimento se faz necessária.” Sobram dois substantivos abstratos, implementação e atendimento, e o verbo principal sumiu dentro de “se faz necessária”.

Aplicando as regras 2, 3 e 4, a frase vira “Vamos atender o cliente mais rápido”. Fica um sujeito que age, um verbo e uma cena. O leitor sabe quem vai fazer o quê.

A frase nova também cobra uma decisão que a antiga escondia. Quem escreve “mais rápido” precisa saber quanto, e a próxima frase pede o número. É o efeito que Orwell queria: a palavra curta obriga o autor a pensar antes de escrever.

Teste hoje: pegue o último email de trabalho que você enviou e circule cada substantivo terminado em ção, mento ou idade. Reescreva as frases trocando cada um por um verbo com sujeito e conte as sílabas antes e depois; a versão nova deve sair pelo menos um quarto menor. O ensaio de 1946 também tem uma história de bastidor na imprensa de Londres.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Em que revista Orwell publicou o ensaio pela primeira vez, em abril de 1946?

 
 
 

Até sexta, 30/10, às 23:59

Um relógio e as cinco peças de dentro de um texto: frase, plano, história, leitor e ação.

Texto memorável é um carimbo pra eternidade

Em 16 minutos, eu desmonto a pedra de Hamurabi, um texto de quase quatro mil anos que ainda é lido hoje.

No fim, o meu curso de escrita, o Escritor Milionário, vem com um ano do Viver de News de bônus: dois cursos pelo valor de um.

 
Quiz da edição

Segundo as contas que o próprio Orwell faz no ensaio de 1946, quantas palavras tem a sua paródia do verso de Eclesiastes 9,11, contra as 49 palavras do texto bíblico original?

A38 palavras
B60 palavras
C90 palavras
D18 palavras

Resultado da última edição: 80% acertaram.

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