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1 leitor escolheu Remissões da Encyclopédie. Sai em 07/10.
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A Corrente de Frases de A Paixão Segundo G.H.
Como Clarice Lispector amarrou os 33 capítulos do romance de 1964 abrindo cada um com a última frase do anterior.
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O quarto da empregada em A Paixão Segundo G.H.
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"Como eu disse no capítulo anterior." É a frase com que muito escritor tenta reatar o fio, e ela avisa ao leitor que houve um corte. Quem parou no fim de um capítulo volta, lê o resumo e sente o texto recomeçar do zero.
Em 1964, a Editora do Autor, no Rio de Janeiro, publicou um romance que resolve a volta de outro jeito. A Paixão Segundo G.H., de Clarice Lispector, não resume nada. Cada capítulo novo começa pela última frase do capítulo que acabou.
O livro inteiro cabe numa manhã, num apartamento de cobertura. G.H., uma escultora de vida confortável, entra no quarto da empregada que acabou de ir embora. Espera encontrar bagunça e acha paredes limpas, um desenho a carvão e uma barata saindo do armário.
Ela fecha a porta do armário sobre o inseto. O que vem depois, em 33 capítulos, é o relato do que essa mulher pensa diante da barata esmagada pela metade, até o gesto que assusta quem lê pela primeira vez: ela põe na boca a massa branca que saiu do bicho.
Um enredo tão parado pediria pausas e resumos. Clarice amarrou os capítulos um no outro. A frase que fecha um reaparece, igual ou quase igual, como a primeira linha do seguinte.
O leitor que fecha o livro no fim de um capítulo, vai dormir e volta na manhã seguinte recebe, na primeira linha, a última frase que leu. Não precisa de resumo. A frase repetida faz o papel do marcador de página.
Até as pontas do livro entram na corrente. O romance abre com seis travessões seguidos e termina com outros seis, como se a última página devolvesse o leitor à primeira.
A faixa I põe duas dessas emendas lado a lado e mostra o que cada uma faz com quem lê.
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I A Desmontagem
I, Duas emendas da mesma corrente
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A Paixão Segundo G.H. é o sexto romance de Clarice Lispector, nascida na Ucrânia em 1920 e criada no Recife e no Rio. O livro é narrado por G.H. em primeira pessoa, sem nome completo: a narradora só aparece pelas iniciais, gravadas nas malas dela.
A primeira emenda é a das pontas. O livro começa assim, depois dos seis travessões, com letra minúscula, como quem continua uma fala já começada:
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“estou procurando, estou procurando. Estou tentando entender.”
Clarice Lispector, A Paixão Segundo G.H., 1964
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E termina, 33 capítulos depois, com uma frase que fica aberta nos mesmos seis travessões:
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“A vida se me é, e eu não entendo o que digo. E então adoro.”
Clarice Lispector, A Paixão Segundo G.H., 1964
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Lidas uma junto da outra, as duas pontas formam um só movimento. A narradora que procurava entender termina admitindo que não entende, e os travessões finais apontam de volta para os travessões do começo. O livro não fecha: dá a volta.
A segunda emenda é a de dentro, repetida entre todos os capítulos. A última frase de um capítulo volta como primeira do seguinte, às vezes idêntica, às vezes com uma palavra mexida. O leitor atravessa a quebra de página e encontra a mesma frase à espera.
Na ponta de fora, a repetição vem escondida em sinais gráficos. Na de dentro, vem em palavras que o leitor acabou de ler e reconhece de imediato. Os dois tipos trabalham juntos: um amarra o livro inteiro, o outro amarra cada passo.
A escolha combina com o enredo. G.H. passa a manhã inteira parada no mesmo quarto, diante do mesmo inseto. A história avança pouco no espaço e muito no pensamento, e a frase repetida marca o ponto exato em que o pensamento retoma.
O quarto também tem nome e dono. A empregada se chamava Janair e deixou na parede, a carvão, o contorno de um homem, uma mulher e um cachorro. G.H. lê o desenho como um recado para ela, e a descoberta prepara o encontro com a barata poucos minutos depois.
Há também um aviso de leitura. Antes do primeiro capítulo, Clarice pôs uma nota assinada, chamada "A possíveis leitores", pedindo que o livro fosse lido por quem aceita atravessar devagar. A corrente de frases é a forma de obrigar a travessia a ser contínua.
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Cada capítulo de G.H. começa devolvendo ao leitor a frase com que o anterior terminou.
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II A Engrenagem
II, O elo que segura quem lê
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O recurso tem nome na retórica antiga: anadiplose (a figura de linguagem em que o fim de uma frase é repetido no começo da seguinte). Clarice aplicou a figura numa escala rara, na fronteira entre capítulos.
A engrenagem tem três dentes. O primeiro é a continuidade sem resumo. O capítulo novo não precisa lembrar o que aconteceu, porque a frase repetida carrega o último estado da narradora. O leitor entra no ponto exato em que saiu.
O segundo dente é a releitura. A mesma frase, lida duas vezes, pesa diferente. No fim do capítulo, ela conclui; no começo do próximo, ela abre. O leitor que a encontra de novo lê com o fôlego descansado e percebe um sentido que passou batido na primeira vez.
O terceiro dente é o ritmo. Uma frase curta repetida vira batida, como o refrão de uma canção. O leitor aprende o padrão depois de dois ou três capítulos e passa a esperar a volta da frase, e essa espera o puxa para a página seguinte.
A própria Clarice avisou que o livro pedia um leitor disposto a entrar nesse passo. Na nota de abertura, escreveu:
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“Este livro é como um livro qualquer. Mas eu ficaria contente se fosse lido apenas por pessoas de alma já formada.”
Clarice Lispector, A Paixão Segundo G.H., 1964
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O recurso tem um custo. Se a frase repetida for fraca, o leitor lê a mesma fraqueza duas vezes. Então a frase de emenda precisa se sustentar sozinha: ser curta, ter imagem ou tensão, e deixar algo por resolver.
Os leitores do banco desta casa apontam o mesmo mecanismo em textos de trabalho. Doze deles escreveram que uma frase curta e até burocrática, repetida no lugar certo, prende mais que um parágrafo de transição.
O romance foi mal recebido por parte da crítica na estreia e ganhou leitores com os anos. Hoje é estudado em universidades do Brasil e de fora, e a tradução inglesa, The Passion According to G.H., saiu nos Estados Unidos em 1988.
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A frase que se repete na virada não informa nada novo: ela prova ao leitor que o texto não o deixou para trás.
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