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I A Desmontagem
As três peças de uma pista
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A resposta de ontem Quem comprou os folhetos de Leandro Gomes de Barros em 1921? João Martins de Athayde, poeta e editor paraibano estabelecido no Recife, comprou os direitos da viúva de Leandro em 1921. Ele reimprimiu os folhetos como editor-proprietário, muitas vezes sem a assinatura de Leandro na capa, e só o acróstico da estrofe final denunciava quem tinha escrito; a Fundação Casa de Rui Barbosa documentou essas autorias trocadas. |
O manual de 1966 tem autor e título: Ximenes on the Art of the Crossword (Ximenes e a arte da palavra cruzada), lançado pela editora Methuen. Ximenes era o pseudônimo de Derrick Somerset Macnutt, chefe do departamento de clássicos da escola Christ's Hospital, em Horsham, no sul da Inglaterra.
Macnutt assinava a cruzada de domingo do jornal The Observer desde 1939. Herdou a coluna de Edward Powys Mathers, tradutor e poeta, que publicava ali desde 1926 sob o pseudônimo Torquemada, tirado do primeiro inquisidor-geral da Espanha.
As pistas de Torquemada eram famosas pela dificuldade e pela liberdade. Muitas dependiam de alusão literária e associação solta, e o leitor só confirmava a resposta quando via a solução publicada na semana seguinte. Macnutt admirava o mestre e, ainda assim, decidiu amarrar o jogo.
A amarração começa pela anatomia. Toda pista justa, para Ximenes, tem três peças. A primeira é a definição, que fica sempre no começo ou no término da pista, nunca no meio. A segunda é a montagem, o caminho alternativo até as mesmas letras. A terceira é a contagem entre parênteses, que confirma o tamanho da resposta.
A montagem, por sua vez, tem dois componentes. O material são as letras que entram na operação. O indicador é a palavra que diz qual operação fazer com elas, e sem ele o leitor não saberia se deve embaralhar, somar ou procurar.
Um exemplo inventado mostra o indicador trabalhando: “Cidade de amor confuso (4).” A definição é “cidade”. O material é “amor”. O indicador “confuso” pede anagrama (troca da ordem das letras), e AMOR embaralhado vira ROMA.
Outro tipo é a palavra escondida: “Fruta presa na chuva (3).” A definição é “fruta”, o indicador “presa na” avisa que a resposta está dentro de outra palavra, e chUVA guarda UVA. Há ainda a charada (soma de pedaços), como no SOLDADO, e o duplo sentido, em que duas definições diferentes apontam para a mesma palavra.
Em todos os tipos, a pista é uma frase com dois sentidos. Lida de corrido, ela conta uma pequena cena, quase sempre absurda. Desmontada, ela vira uma receita. O ofício do autor das pistas, o setter (quem monta a cruzada), mora no espaço entre as duas leituras.
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Na pista justa, a definição e a montagem chegam às mesmas letras por caminhos separados, e cada caminho se sustenta sem o outro.
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II A Engrenagem
O contrato do jogo limpo
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A obra de Ximenes não inventou o princípio central do jogo limpo. Ele o tomou de um colega, Alistair Ferguson Ritchie, que assinava cruzadas como Afrit no semanário The Listener. No livro Armchair Crosswords (Cruzadas de poltrona), de 1949, Afrit escreveu: “You need not mean what you say, but you must say what you mean” (você não precisa querer dizer o que diz, mas precisa dizer o que quer dizer).
A frase descreve a engrenagem inteira. A leitura de superfície (o sentido aparente da frase, que o leitor vê primeiro) pode enganar à vontade. A leitura cifrada, a da receita, tem de ser exata. O setter pode despistar, mas nunca mentir.
Ximenes transformou o princípio em regras de oficina. A definição precisa ser um equivalente honesto da resposta, na mesma classe gramatical: se a resposta é verbo, a definição é verbo. Um “corre” não define CORRIDA.
O indicador precisa sugerir a operação de fato. “Confuso”, “bagunçado” e “em pedaços” sugerem anagrama; “azul”, sozinho, não sugere nada, e quem usa uma palavra assim obriga o leitor a adivinhar o que o setter tinha na cabeça.
Nenhuma palavra pode sobrar. Cada termo da pista pertence à definição, ao material ou ao indicador, com no máximo um conectivo entre a definição e a montagem, como “dá”, “de” ou dois-pontos. Palavra decorativa, posta só para a frase soar bonita, é contrabando.
E a montagem não pode depender de material sem indicação. Se o setter quer a letra S, precisa apontá-la, por exemplo com “sul” abreviado, e o leitor tem de conseguir refazer o percurso letra por letra.
Com as regras, a dificuldade muda de lugar. O desafio deixa de ser descobrir o que o autor pensava e passa a morar na própria frase, que esconde a receita por trás de uma cena plausível. A pista de Ximenes é difícil e, uma vez resolvida, indiscutível: o leitor sabe que acertou porque os dois caminhos batem.
Macnutt levou o rigor também à correspondência. Os leitores do Observer mandavam pistas para concursos mensais, e ele respondia com notas e comentários técnicos, apontando a palavra que sobrava ou o indicador que não indicava. Gerações de setters aprenderam o ofício nessas cartas.
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A pista justa pode enganar na superfície, mas a receita precisa ser exata: cada palavra tem função, e o leitor confere o acerto sem pedir licença ao autor.
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