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Como Panini Coube o Sânscrito em Códigos de 2 Letras

A gramática indiana do século IV a.C. nomeou grupos inteiros de sons com duas letras e encolheu quase 4.000 regras.

Manuscrito em sânscrito da gramática de Panini

Manuscrito da gramática de Panini, em sânscrito

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Tem uma frase que quase todo manual técnico traz logo na página dois: “Para facilitar, segue a lista completa.” A lista volta inteira na página nove, na página vinte e no anexo, porque o autor não confia que o leitor vá lembrar dela.

Pense num regulamento de condomínio. O artigo 4 fala dos “apartamentos 101, 102, 103, 104, 201, 202, 203 e 204”. O artigo 11 repete os oito números. O artigo 17 repete outra vez, com um erro: esqueceu o 203. Ninguém percebe até a primeira briga sobre quem paga a obra do telhado.

Na Índia antiga, um gramático enfrentou o mesmo problema numa escala muito maior. Panini viveu no século IV a.C., em Shalatula, perto da atual cidade de Attock, no Paquistão, e decidiu descrever o sânscrito inteiro: como cada palavra se forma, como os sons mudam quando duas palavras se encostam, como um verbo vira substantivo.

O resultado é a Aṣṭādhyāyī (“Oito Capítulos”), com 3.959 sutras (regras curtas, feitas para decorar) na contagem tradicional. Algumas têm duas palavras. Muitas citam grupos de sons: todas as vogais, todas as consoantes, só as semivogais. Se cada regra listasse os sons por extenso, a obra cresceria muito e ninguém conseguiria guardá-la de cabeça.

E guardar de cabeça era o ponto. A gramática circulou por séculos pela voz, de professor para aluno, antes de ganhar manuscrito. Cada sílaba a mais era uma sílaba a mais para decorar e para errar.

A saída de Panini foi dar nome curto ao grupo. Duas letras bastam para dizer “todas as vogais”; outras duas, “todas as consoantes”. O aluno aprende o código uma vez e o reconhece em centenas de regras, sem nunca reler a lista.

Quem escreve contrato, manual ou relatório tropeça no mesmo ponto do condomínio: repete a lista por medo e abre espaço para a cópia errada. Uma gramática de 2.400 anos mostra outro caminho, com a mecânica toda à vista.

A faixa I abre a tabela de sons que sustenta os códigos, linha por linha.

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I  A Desmontagem

Catorze linhas de sons

 
 

Na abertura da Aṣṭādhyāyī de Panini, antes da primeira regra, a tradição põe uma tabela curta: os Shiva Sutras (as “regras de Shiva”, nome que vem da lenda de que o deus as tocou num tambor). São 14 linhas. Cada uma lista alguns sons do sânscrito e termina numa consoante que não pertence ao grupo: ela é só marcador.

A primeira linha diz “a i u ṇ”. A segunda, “ṛ ḷ k”. A terceira, “e o ṅ”. A quarta, “ai au c”. O ṇ, o k, o ṅ e o c do fim não contam como som; servem de etiqueta para o ponto onde a linha acaba.

Os gramáticos chamam o marcador de it (a letra que “vai embora”, porque some da forma final). Com a tabela pronta, o código se monta assim: pegue um som, junte a ele um marcador, e o grupo abrange os sons entre os dois.

O código “ac” começa no a da linha 1 e corre até o c da linha 4. Ficam dentro a, i, u, ṛ, ḷ, e, o, ai e au: as vogais do sânscrito. Duas letras substituem nove.

O código “hal” começa no ha da linha 5 e vai até o l da linha 14: as consoantes todas. “ik” vai do i até o k da linha 2 e junta i, u, ṛ e ḷ. “yaṇ” recolhe as semivogais y, v, r e l.

Esses códigos têm nome próprio: pratyāhāra (“recolha”, o grupo recolhido entre dois pontos). Panini usa algumas dezenas deles ao longo da obra, e todos saem da mesma tabela de 14 linhas.

A ordem da tabela não segue o alfabeto da escola. O som h aparece duas vezes, na linha 5 e na linha 14, para que um código o pegue e outro o exclua. Panini arrumou a fila de sons para que os grupos usados pelas regras ficassem sempre contíguos, sem buraco entre eles.

A engenharia impressionou quem a estudou no Ocidente. O linguista americano Leonard Bloomfield resumiu o espanto numa resenha:

“Um dos maiores monumentos da inteligência humana.”

Leonard Bloomfield, resenha na revista Language, 1929

 

As primeiras regras já mostram a economia. A regra 1.1.1 diz “vṛddhir ādaic”: chama de vṛddhi (o grau mais forte da vogal) os sons ā, ai e au. O trecho “aic” recolhe ai e au, porque vai do ai até o c da linha 4.

Da vida do autor quase nada se sabe. A data do século IV a.C. é dedução dos estudiosos pela forma da língua e pelos gramáticos que ele cita; a cidade natal vem de tradição registrada séculos depois. Nenhum documento da época fala dele.

 

Panini não lista os sons: aponta o primeiro e o marcador, e o leitor completa o grupo.

 
 
 
 

II  A Engrenagem

Por que poupar meia vogal

 
 

O motivo da compressão é a memória. Na Índia do século IV a.C., o saber sério passava de boca em boca. Os Vedas (os hinos sagrados mais antigos do sânscrito) eram decorados com técnicas de repetição que garantiam a cópia exata, sílaba por sílaba, sem papel.

A gramática entrou no mesmo regime. O aluno recitava os sutras até sabê-los de trás para frente, e a explicação vinha depois, falada pelo professor. A regra curta servia de índice; o conteúdo morava na aula.

Nesse sistema, cada sílaba poupada pesa. Numa obra de 3.959 regras, trocar uma lista de nove vogais por duas letras, em dezenas de regras, poupa milhares de sílabas que o aluno não precisa recitar.

A regra 6.1.77 mostra os códigos trabalhando juntos: “iko yaṇ aci”. Em português: um som do grupo ik vira o seu par do grupo yaṇ quando vem antes de um som do grupo ac. Ou seja, i, u, ṛ e ḷ viram y, v, r e l antes de vogal.

É a regra que transforma “dadhi atra” (“a coalhada está aqui”) em “dadhy atra”. Três palavras curtas carregam dezessete sons, e nenhum precisou ser escrito.

Panini somou outro recurso: a anuvṛtti (“continuação”), pela qual uma palavra dita numa regra segue valendo nas seguintes até ser trocada. O termo aparece uma vez e as regras de baixo o herdam em silêncio, como o título de um capítulo.

A economia virou valor da escola. Séculos depois, um gramático de Varanasi registrou o ditado que os alunos repetiam:

“Os gramáticos festejam a economia de meia vogal curta como festejam o nascimento de um filho.”

Nāgeśa Bhaṭṭa, Paribhāṣenduśekhara, início do século XVIII

 

A compressão teve preço. Kātyāyana, gramático posterior, escreveu vārttikas (notas de correção) sobre centenas de regras. Patañjali, no século II a.C., escreveu o Mahābhāṣya (“Grande Comentário”) para explicar o que a regra curta deixava implícito. Sem professor, o código trancava a porta.

Os códigos de Panini funcionam porque cumprem três condições. A tabela vem primeiro. Cada código se define uma vez só. E o leitor nunca precisa adivinhar onde o grupo termina, porque o marcador diz.

 

O código curto só funciona porque a tabela vem primeiro e nunca muda de lugar.

 
 

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III  Na Oficina

O apelido que dispensa a lista

 
 

Contrato, manual, relatório: todo texto técnico tem grupos que voltam. “Os quatro sócios”, “os apartamentos do bloco B”, “os produtos da linha verde”. O impulso é listar os nomes de novo a cada aparição, e cada cópia aumenta a chance de erro.

O método de Panini cabe em qualquer documento com três peças: uma tabela no começo, um nome curto para cada grupo e o uso fixo desse nome até a última página.

Para aplicar, siga quatro passos:

Passo a passo

 

1. Liste, na primeira página, os itens que vão reaparecer, numa ordem só.

2. Dê a cada grupo um nome curto e inconfundível, de uma ou duas palavras, e defina-o ali, junto da lista.

3. No resto do texto, use só o nome. Nunca volte a listar os itens, nem “para facilitar”.

4. Se um grupo mudar, corrija a tabela da primeira página e nada mais.

 

Um exemplo. Na cláusula 1: “Ana Ribeiro, Bruno Sales e Carla Mendes, doravante denominados os Sócios.” Da cláusula 2 à 30, só aparece “os Sócios”. Se Carla deixa a sociedade, muda uma linha, e nenhuma cláusula fica com o nome antigo esquecido.

O apelido precisa de definição explícita. Panini tinha a tabela; um texto que inventa sigla na página 12 sem defini-la, obriga o leitor a voltar páginas, o mesmo problema que exigiu os comentários de Kātyāyana e Patañjali.

Vale também o cuidado com a quantidade. Um documento com dez apelidos novos vira um código para decifrar. Guarde o recurso para os grupos que voltam três vezes ou mais.

“Qual lista você repete em três lugares do mesmo texto?”

 

Teste hoje: abra o último documento longo que você escreveu e marque cada lista de nomes ou itens que aparece mais de uma vez. Anote quantas repetições encontrou. Troque todas por um apelido definido na primeira página e conte de novo: o resultado esperado é zero listas repetidas e nenhuma divergência entre cópias.

 
 
 
Quiz da edição

Quantas linhas têm os Shiva Sutras, a tabela de sons que abre a Aṣṭādhyāyī de Panini?

A9 linhas
B26 linhas
C14 linhas
D20 linhas

Resultado da última edição: 100% acertaram.

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