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ED 079

A Cidade que Chega pelo Nariz

Como a abertura de O Perfume descreve a Paris de 1738 só por odores e instala o leitor dentro da cena antes que ele saiba onde está.

Homem de perfil, olhos fechados, farejando o ar sobre os telhados de uma Paris do século XVIII, luz lateral quente

O nariz erguido sobre a Paris de 1738

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Em Paris, no verão de 1738, havia um endereço que o próprio romance aponta como o lugar de cheiro mais insuportável do reino inteiro: o Cemitério dos Inocentes, encravado no meio da cidade.

Por séculos a cidade empilhou ali o que não cabia em nenhum outro lugar, e o odor subia das valas para o mercado colado ao muro, onde os peixeiros trabalhavam sem se incomodar.

O livro é O Perfume, de Patrick Süskind, publicado em 1985, e a abertura não começa por esse endereço. Ela começa pela cidade inteira, e começa sem mostrar nada.

Não existe telhado, não existe torre, não existe o rio cortando a paisagem. Não existe uma única cor na primeira descrição longa do romance.

O que existe é uma lista do que cada canto de Paris exalava: estrume, urina, madeira podre, couve estragada, gordura de carneiro. Nada ali exige ter visto a França do século XVIII.

Antes de saber o nome de qualquer personagem, o leitor já respirou a cidade de ponta a ponta, e a respirou de dentro.

O problema que a manobra ataca aparece em qualquer texto que precise instalar o leitor num lugar. Como fazer um endereço existir para quem nunca esteve nele, na primeira página, antes de qualquer enredo?

A saída comum é descrever o que se vê. O escritor escolhe os telhados, a luz da tarde, a largura da rua, e entrega um cartão-postal. O leitor olha o cartão-postal de onde está, que é de fora.

A abertura de O Perfume não oferece nada para olhar. Ela ocupa o único sentido que o leitor não consegue desligar enquanto lê, e o resto da cidade ele monta sozinho.

A engenharia inteira cabe em três movimentos: a lista que sobe da sarjeta ao trono, a régua única que mede todo mundo e o funil que fecha num metro quadrado. Comece pela lista.

Vamos desmontar.

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I  A Desmontagem

A rua, o pátio, a escadaria, o rei

 
 

Comece pela conta bruta, que é a parte medível de fora. O parágrafo que apresenta a cidade não traz uma única imagem visual, e o verbo feder e seus derivados se repetem mais de quinze vezes antes que ele termine.

A repetição não é descuido de tradução, é o esqueleto do trecho. Cada retomada do verbo abre um endereço e fecha o anterior, como quem confere cômodo por cômodo. O trecho começa na altura da rua e vai entrando:

"As ruas fediam a estrume, os pátios fediam a urina, as escadarias fediam a madeira podre e a bosta de rato; as cozinhas, a couve estragada e gordura de carneiro; as salas de estar mal-arejadas fediam a poeira mofada; os dormitórios fediam a lençóis engordurados, a edredons úmidos e ao odor acre dos penicos."

Patrick Süskind, O Perfume, 1985, no parágrafo que abre a descrição da cidade

 

Repare no percurso. Rua, pátio, escadaria, cozinha, sala de estar, quarto. É o caminho de quem entra numa casa, e o texto não avisa em nenhum momento que está entrando.

E repare que ninguém aparece. Não há morador, não há guia, não há câmera subindo a escada. Quem faz o percurso é o leitor, porque é o nariz dele que está sendo puxado de um cômodo para o outro.

Depois da casa, o trecho abre para os ofícios da cidade. Lareiras, curtumes, matadouros, cada um com o próprio cheiro de trabalho, e a Paris que produz alguma coisa entra na conta.

Em seguida a lista vira gente. Bocas, estômagos, roupas suadas, corpos que envelheceram. O leitor que percorria endereços passa a percorrer pessoas sem que a frase mude de forma.

"O camponês fedia como o padre, o aprendiz de artesão como a mulher do mestre, toda a nobreza fedia, sim, até mesmo o rei fedia, fedia como um animal predador, e a rainha como uma cabra velha, tanto no verão como no inverno."

Patrick Süskind, O Perfume, 1985, quando a lista alcança o alto da escala social

 

A subida termina no trono. O ponto mais alto do reino é medido com a mesma régua da sarjeta e devolve o mesmo resultado, e a lista que parecia enfeite se revela um argumento.

Essa construção faz três coisas ao mesmo tempo.

Primeiro, ela dá ao leitor um lugar em vez de uma vista. Cheiro não tem distância de segurança: para sentir, o leitor já precisou deixar a cidade entrar nele. Ninguém observa Paris de fora aqui.

Segundo, ela mede a cidade inteira com uma régua só. Do estrume da rua ao quarto do rei o critério nunca muda, e a igualdade que o romance quer afirmar aparece na estrutura da frase antes de virar tese.

Terceiro, ela usa a memória que o leitor já tem. Cebola, queijo velho, leite azedo, madeira podre. Qualquer pessoa viva já cheirou todas, e o texto não precisa ensinar nenhuma.

 

Observe o movimento final. Depois de cobrir o reino, o trecho se estreita: a cidade mais fétida, o bairro, o cemitério, a banca de peixe onde uma mulher trabalha.

O funil vai do trono a um metro quadrado de mercado, e o personagem nasce ali, no ponto de maior concentração de tudo que foi listado.

É por aí que a abertura aperta. Quando o primeiro nome próprio finalmente chega, o leitor já respira o mesmo ar dele há páginas, e a apresentação vira quase formalidade.

A abertura não mostra Paris ao leitor: coloca o leitor dentro de Paris, e só depois pergunta se ele quer olhar em volta.

 
 
 
 

II  A Engrenagem

O olho fecha, o nariz não

 
 

A manobra tem nome técnico simples, sentido dominante, a escolha de por qual porta do corpo a cena vai entrar, e a lei por trás do efeito cabe numa frase curta:

Não descreva o lugar: escolha o sentido por onde ele entra.

A diferença entre olhar um lugar de longe e já estar respirando dentro dele.

A visão é o sentido da distância. Tudo que o texto entrega em imagem coloca o leitor a alguns metros do assunto, numa sacada confortável, e a sacada é justamente o que a cena não pode ter.

Cheiro, gosto e tato não têm essa folga. Para sentir um cheiro é preciso ter recebido no corpo uma parte física do que está lá fora, e o leitor que sente já está comprometido com a cena.

A assimetria é anatômica e serve como régua de escrita. O olho tem pálpebra, o nariz não tem tampa. Quem lê pode desviar de uma imagem, mas não consegue ser espectador de um cheiro.

A alavanca está na escolha, não na quantidade. O sentido eleito precisa ser o mesmo que a história vai cobrar depois, senão a descrição vira perfume aplicado por fora do texto.

Em O Perfume a escolha não é enfeite. O protagonista tem uma única faculdade excepcional, o olfato, e a abertura treina o leitor no sentido dele antes de o personagem existir na página.

O método cobra um preço, e vale registrar. Sentido escolhido só pelo efeito produz parágrafo bonito e inútil: se a trama não corre por ele, o leitor sente a mão do escritor procurando originalidade.

O leitor não fica sabendo que a cidade fede: ele fede junto, e não tem pálpebra para fechar.

 

Émile Zola montou um mercado inteiro pelo nariz em 1873. Em O Ventre de Paris, os pavilhões das Halles são inventariados por cheiro, e o livro termina com uma passagem em que os queijos são regidos como instrumentos de orquestra.

Marcel Proust usou o gosto como porta em 1913. Em No Caminho de Swann, a madalena molhada no chá devolve a cidade inteira da infância, e o que não voltava pela lembrança voluntária volta pela boca.

Virginia Woolf entregou Londres a um cão em 1933. Em Flush, as ruas viram um mapa de odores, e o leitor que acompanha o animal para de enxergar a cidade e passa a farejá-la.

José Saramago tirou a visão de todo mundo em 1995. Em Ensaio sobre a Cegueira, ninguém enxerga nada, e o leitor atravessa o livro se orientando por som, tato e cheiro junto com os personagens.

Nos quatro casos a régua é a mesma. O que muda não é a quantidade de descrição, é por qual sentido ela chega, e quanto do próprio corpo o texto obriga o leitor a colocar dentro da cena.

 

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III  Na Oficina

Reescreva sua cena sem os olhos

 
 

Troque o sentido pelo qual a cena entra

 

Pegue uma cena sua que já tenha descrição de lugar: a abertura do capítulo, o parágrafo que apresenta a sala de reunião, o trecho da página de vendas que descreve o produto, a legenda que conta a viagem.

Sublinhe tudo que for visual. Cor, tamanho, formato, luz, posição, distância. Na maioria dos textos some quase o parágrafo inteiro, e o que resta é a parte que estava fazendo trabalho de verdade.

Escolha um sentido de contato para ocupar o espaço vago. Cheiro, temperatura, som, textura, gosto. O critério não é preferência sua, é o que a cena cobra de quem está dentro dela.

Prefira o sentido que o personagem usa para trabalhar. Um cozinheiro entra pelo cheiro, um afinador pelo som, um pedreiro pela textura do reboco ainda úmido. A escolha certa apresenta o ofício sem uma linha de apresentação.

Confira se o sentido escolhido sobrevive à cena seguinte. Se ele aparece uma vez e some, era efeito solto; se volta quando o personagem toma uma decisão, virou instrumento da história.

Escreva de três a cinco itens concretos e nomeie coisas que o leitor já teve no corpo. Cloro, café queimado, terra molhada, óleo de motor, cebola crua. Substantivo específico trabalha, adjetivo de sensação não.

A regra é uma só: cheiro ruim não se declara, se nomeia. Fedia a cebola diz o que aconteceu no nariz de quem estava lá; tinha um cheiro desagradável diz apenas que o escritor achou desagradável.

Ordene os itens como percurso, não como lista. A abertura de O Perfume sobe da rua para dentro da casa e da casa para o trono, e a ordem é o que dá movimento a uma sequência de substantivos.

Teste a ordem invertendo dois itens quaisquer. Se o parágrafo continuar igual, você tem uma pilha e não um caminho, e a pilha cansa o leitor antes do terceiro item.

Cheque a economia antes de comemorar. Sentido novo custa espaço, então corte o visual que sobrou em vez de somar uma camada, senão a cena dobra de tamanho para dizer a mesma coisa.

Por último, apague a frase que explica o efeito. Se depois da lista você escreveu que o lugar era insuportável, o leitor já sabia, e a explicação tira dele a descoberta que ele acabou de fazer sozinho.

 
 
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Segundo o texto, qual desses escritores usa o PALADAR, não o olfato, como porta de entrada para a cena?

AVirginia Woolf, em Flush (1933)
BÉmile Zola, em O Ventre de Paris (1873)
CMarcel Proust, em No Caminho de Swann (1913)
DPatrick Süskind, em O Perfume (1985)

Resultado da última edição: 62% acertaram.

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