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50% escolheram O Jovem Werther. Sai em 29/09.
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O Autor Que Virou Testemunha
Como Júlio César escreveu sobre si como César e fez da propaganda de guerra um relatório com cara de imparcial.
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César narra César, e a guerra vira ata
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Em 55 a.C., no Senado de Roma, Marco Pórcio Catão, o Jovem, propôs entregar um general romano aos inimigos. O general era Caio Júlio César, e os inimigos eram germanos.
Na fronteira do Reno, as tropas de César tinham atacado dois povos germânicos, os usípetes e os tencteros, enquanto os chefes deles estavam no acampamento romano para negociar uma trégua. Catão queria que Roma se livrasse da culpa pela palavra quebrada.
O episódio chegou até nós por Plutarco, na Vida de César, escrita por volta do ano 100 da nossa era. A proposta de Catão não passou. O Senado votou sacrifícios de agradecimento aos deuses pela vitória.
César também contou a história. Ela está no livro IV dos Commentarii de Bello Gallico (Comentários sobre a Guerra Gálica), o relato das campanhas que ele comandou na Gália entre 58 e 52 a.C. Na versão dele, os germanos romperam o acordo antes, atacando a cavalaria romana, e a retenção dos chefes foi precaução.
O relato não se exalta nem se defende. Não há "eu decidi", não há "eu temia". Há um general chamado César que recebe notícias, avalia e ordena. O autor escreve sobre si como quem escreve sobre um terceiro, e o texto soa como ata de campanha.
Dois milênios depois, a versão de César é a que se lê nas escolas. Gerações de alunos aprenderam latim traduzindo os capítulos dele, justamente por serem claros, secos e sem enfeite.
A clareza fez do livro um manual de gramática. Também fez dele o documento mais convincente que um comandante já produziu em causa própria, e quase ninguém percebe a defesa enquanto lê.
O mecanismo cabe numa escolha de pessoa gramatical. Na faixa I, a frase de abertura da obra desmontada, e o ponto exato em que o autor sai de cena para virar personagem.
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I A Desmontagem
I, Um general chamado César
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A Guerra das Gálias, obra de Caio Júlio César, reúne sete livros, um por ano de campanha, de 58 a 52 a.C. Um oitavo livro, sobre os anos de 51 e 50 a.C., foi escrito depois por Aulo Hírcio, oficial do estado-maior de César.
O texto abre com uma frase de geógrafo:
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“Gallia est omnis divisa in partes tres (A Gália, toda ela, está dividida em três partes).”
Júlio César, A Guerra das Gálias, livro I, 58 a.C.
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Belgas, aquitanos e celtas ocupam as três partes, e o narrador descreve rios, fronteiras e costumes sem dizer quem fala. Ninguém diz eu nessa abertura, nem nas páginas seguintes.
Quando o comandante entra em cena, no capítulo 7, entra pela terceira pessoa, como entraria um cônsul numa crônica escrita por outro:
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“Quando foi anunciado a César que os helvécios tentavam atravessar a nossa província, ele se apressa em deixar Roma e segue, em marchas tão longas quanto pode, para a Gália Ulterior.”
Júlio César, A Guerra das Gálias, livro I, capítulo 7, 58 a.C.
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São três peças. A primeira é o sujeito: "César", na terceira pessoa. Autor e personagem são a mesma pessoa, mas a gramática os separa. Quem escreve fica fora do quadro, na posição de cronista; quem age fica dentro, observado.
A segunda é o tempo do verbo. Os gramáticos chamam de presente histórico (o presente usado para narrar o passado) o tempo de "se apressa" e "segue". A marcha acontece diante de quem lê, sem a distância de um "apressou-se".
A terceira é o possessivo. A província é nossa, os soldados são nossos. O narrador não diz eu, mas diz nós: fala como Roma, não como César. O general vira personagem, e o autor vira porta-voz da República.
A combinação apaga o interesse pessoal. Um homem contando as próprias vitórias soa vaidoso. Um cronista romano contando o que "César" fez soa como registro.
O gênero ajudava. Commentarius (caderno de notas, memorando) era o nome dos apontamentos que um magistrado deixava para que um historiador, depois, escrevesse a obra acabada. O título promete matéria-prima, não retórica, e quem abre o livro espera relatório.
Hírcio, no prefácio do livro VIII, registrou o efeito: os comentários eram tão aprovados por todos que pareciam ter tirado dos historiadores a chance de escrever sobre aquela guerra, em vez de oferecê-la.
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Na terceira pessoa, o autor deixa de ser suspeito e passa a ser testemunha.
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II A Engrenagem
II, O relatório que faz campanha
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A voz neutra servia a um fim prático. César passou quase nove anos longe de Roma, e o comando na Gália tinha prazo. Os adversários políticos, com Catão à frente, esperavam a volta dele à vida civil para processá-lo pelas ilegalidades do consulado de 59 a.C.
O livro falava por ele no Fórum enquanto ele estava acampado. Quando os livros circularam é assunto que divide os estudiosos. Parte deles defende que saíram ano a ano, como despachos; outra parte, que os sete foram redigidos juntos, no inverno de 52 para 51 a.C.
O texto não traz data, e nenhuma carta da época resolve a disputa. Nas duas hipóteses, o destinatário era o eleitor romano, que decidiria o futuro do general.
Marco Túlio Cícero, adversário político de César, deixou o elogio mais famoso da obra:
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“São nus, retos e graciosos, despidos de todo ornamento de estilo, como de uma veste.”
Marco Túlio Cícero, Brutus, 46 a.C.
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Nu é a palavra que importa. Sem adjetivo de exaltação e sem discurso em primeira pessoa, o texto parece não ter opinião. A opinião mora na seleção dos fatos, onde quase ninguém procura.
Os números mostram o método. No livro I, César diz ter achado no acampamento dos helvécios tábuas em letras gregas com o censo do povo: 368 mil pessoas, 92 mil delas em armas. Depois da derrota, segundo ele, voltaram para casa 110 mil.
A contagem vem só do próprio César, sem fonte independente que a confira. Na voz de ata, o número parece medição de intendência, e ninguém lê a vitória sobre centenas de milhares como bravata.
A terceira pessoa também distribui a culpa. Em 54 a.C., quinze coortes (unidades de cerca de 480 soldados) foram destruídas pelos eburões perto de Aduatuca. César narra a derrota com detalhe, e a culpa recai sobre o legado Quinto Titúrio Sabino, que confiou na promessa do inimigo e saiu do acampamento.
O comandante-geral, que estava longe dali, quase some do trecho. Nas vitórias, o sujeito das frases é "César"; na derrota, é Sabino.
Nem todo contemporâneo aceitou a moldura. Caio Asínio Polião, que serviu sob César, achava que os comentários tinham sido escritos com pouco cuidado e pouco respeito à verdade. A opinião dele sobreviveu em Suetônio, na Vida do Divino Júlio, escrita por volta do ano 121.
Polião acreditava que César teria corrigido o texto se tivesse vivido mais. César foi apunhalado no Senado em 44 a.C., e a correção nunca veio.
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A voz de relatório não esconde a opinião: esconde quem opina.
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