|
|
|
86% escolheram São Bernardo. Aqui está.
|
O Nome Que Paulo Honório Adiou
Por que o narrador de São Bernardo gasta dois capítulos fracassando com um padre e um jornalista antes de se apresentar.
|
A mesa em que Paulo Honório escreveu sozinho
|
| ▼ |
|
Meu nome é tal, tenho tantos anos e trabalho com tal serviço: é assim que quase todo relato em primeira pessoa começa, e é a linha que Graciliano Ramos empurrou para o capítulo 3 de São Bernardo. O romance saiu em 1934, pela editora Ariel, do Rio de Janeiro, narrado por Paulo Honório, dono de uma fazenda no município alagoano de Viçosa.
Os dois capítulos anteriores contam um fracasso. Paulo Honório resolveu escrever a própria história pelo método que usava na lavoura, a divisão do trabalho, e repartiu as tarefas entre conhecidos da vila: o padre Silvestre cuidaria da parte moral e das citações em latim, o advogado João Nogueira da pontuação e da sintaxe (a ordem das palavras na frase), o tipógrafo Arquimedes da composição gráfica, e o jornalista Azevedo Gondim, diretor de um jornal local, redigiria o texto.
O fazendeiro entraria com o plano, com as noções de agricultura e pecuária, com o dinheiro das despesas e com a assinatura na capa. Montou a sociedade como montaria uma empreitada de cerca, com cada sócio pago pela sua parte.
A empreitada desmancha em poucas páginas. O padre sai logo. Nogueira quer o romance na língua de Camões, com a frase montada de trás para diante. Gondim entrega dois capítulos que o patrão recusa aos gritos. No capítulo 2, Paulo Honório abandona o projeto, até que uma noite escuta o pio de uma coruja e começa a escrever sozinho.
Quem redige a própria apresentação num site, numa carta de candidatura ou no primeiro email a um cliente costuma fazer a jogada oposta: põe a identificação na linha de abertura, porque parece o jeito honesto de começar. Graciliano gasta dois capítulos mostrando o narrador tentando terceirizar a própria voz e perdendo, e quando a identificação enfim aparece, quem lê já sabe como aquele homem trata as pessoas que trabalham para ele.
Na faixa I, a briga com Gondim nas palavras do livro, a frase que abre o capítulo 3 na íntegra e o que cada um dos três dados dela conta sobre o narrador.
Continue lendo ↓
|
| |
| | |
|
I A Desmontagem
I, Oitenta e nove quilos no capítulo 3
|
| |
| |
|
São Bernardo, segundo romance do alagoano Graciliano Ramos, abre com um narrador que ainda não sabe escrever o livro que está nas mãos de quem lê. Paulo Honório conta o plano da sociedade literária com a secura com que contaria a compra de um lote de gado: quem faz o quê, quanto custa, em que prazo.
O padre Silvestre sai antes dos outros, e o texto despacha a saída dele em poucas linhas, sem cerimônia e sem drama. João Nogueira vai em seguida, porque exigia um português de gramática antiga que o fazendeiro não aceitava ler. Sobra Gondim, e é com ele que a sociedade quebra.
Gondim traz os capítulos redigidos. Paulo Honório lê e responde assim:
|
|
“Vá para o inferno, Gondim. Você acanalhou o troço. Está pernóstico, está safado, está idiota. Há lá ninguém que fale dessa forma!”
Graciliano Ramos, São Bernardo, 1934.
|
|
| |
|
Pernóstico, na fala do Nordeste, quer dizer pretensioso, cheio de palavra difícil; acanalhar é estragar, rebaixar ao pior. O jornalista se defende com o argumento da literatura de salão da época: conversa, briga e negócio a gente trata naturalmente, mas arranjar palavras com tinta seria outro ofício, e se ele escrevesse como fala, ninguém o leria.
Paulo Honório não discute teoria. Desiste. O capítulo 2 é curto e conta o abandono do plano, a casa da fazenda em silêncio e a noite em que o pio de uma coruja o faz sentar à mesa. Só então vem a abertura do capítulo 3: "Começo declarando que me chamo Paulo Honório, peso oitenta e nove quilos e completei cinquenta anos pelo São Pedro", ou seja, no dia 29 de junho, festa do santo.
Repare nos três dados. Identificação, peso, idade. Nenhum ofício, nenhuma virtude, nenhuma terra natal. Peso é medida de balança, a unidade com que um fazendeiro avalia boi. O homem se apresenta como carga pesada, e quem passou dois capítulos vendo esse homem tratar padre, advogado e jornalista como empregados entende o peso sem que o narrador explique nada.
Graciliano deixa o fracasso visível e esconde o produto dele. Os capítulos de Gondim nunca aparecem no livro; só a reação de quem os recusou chega a quem lê. A prova de que a voz presunçosa não serve é a voz do próprio narrador, seca, de frase curta e verbo de ação, ocupando cada página que o jornalista teria enchido de adjetivo.
|
| |
|
A apresentação adiada funciona porque quem lê chega à identificação já sabendo como aquele homem trata quem trabalha para ele.
|
|
| | |
|
|
| |
|
II A Engrenagem
II, O narrador que falha diante de quem lê
|
| |
| |
|
O procedimento pode ser chamado de credencial pelo fracasso: o narrador ganha autoridade para contar a história mostrando primeiro uma tentativa malsucedida de contá-la. Cada versão descartada vira prova a favor do estilo que sobreviveu.
Três peças fazem a engrenagem girar em São Bernardo.
A primeira é a tentativa ter autor e forma concreta. Gondim tem emprego, prazo e produto entregue. Ninguém ouve falar de uma tentativa vaga de escrever; aparece um jornalista com papel na mão que sai xingado da sala. Fracasso abstrato não credencia narrador nenhum.
A segunda é a recusa sair na voz que vai narrar o livro. Paulo Honório não critica Gondim com termos de crítica literária. Usa quatro adjetivos de feira e uma pergunta sobre como as pessoas falam. A recusa já é amostra do estilo definitivo, ouvida no instante em que o estilo descartado vai para o lixo.
A terceira é o custo da recusa. Ao dispensar os colaboradores, o narrador abre mão da garantia de correção que o advogado e o jornalista ofereciam, e o livro assume o risco: frase curta, vocabulário de fazenda, sintaxe de quem fala. Graciliano sabia quanto custa um parágrafo inchado. Antes do romance, como prefeito de Palmeira dos Índios, escreveu ao governador de Alagoas os relatórios de gestão de 1929 e 1930, que circularam na imprensa pela prosa enxuta.
|
| |
|
Mostre a versão que você jogou fora e diga por que jogou; quem lê passa a confiar na versão que ficou.
|
|
| |
|
A manobra tem limite. Se a tentativa fracassada ocupa espaço demais, o livro vira crônica do fracasso e o narrador nunca chega. Graciliano resolve em dois capítulos curtos, e a apresentação no terceiro encerra o prólogo com a economia que o narrador prometia.
Existe ainda um ganho de estrutura. O narrador que conta como escreveu o livro firma com quem lê um pacto de confissão, e tudo o que vem depois soa como depoimento. Esse pacto sustenta o resto de São Bernardo: a história do ciúme de Paulo Honório pela mulher, a professora Madalena, que acaba tirando a própria vida, deixando o marido sozinho na fazenda, escrevendo à noite.
|
| | |
|