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50% escolheram O Jovem Werther. Aqui está.
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Quem Conta Quando o Narrador Cala
Como Goethe tirou a caneta de Werther nas últimas páginas e entregou o desfecho a um editor que costura cartas e testemunhos.
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O editor junta os papéis que Werther deixou
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Nos primeiros dias de novembro de 1772, em Wetzlar, cidade do Sacro Império onde funcionava o tribunal supremo, um jurista chamado Johann Christian Kestner escreveu um relatório minucioso para um amigo de Frankfurt.
O amigo era Johann Wolfgang von Goethe, então com 23 anos. O assunto era Karl Wilhelm Jerusalem, jovem secretário de legação que os dois conheciam e que tinha tirado a própria vida na noite de 29 para 30 de outubro.
A arma era uma pistola do próprio Kestner. Jerusalem mandou um bilhete pedindo as pistolas emprestadas para uma viagem, e Kestner, sem desconfiar de nada, as entregou ao criado.
O relatório reconstrói as últimas horas com o que outras pessoas viram. O criado que levou o bilhete, o vizinho que ouviu o disparo, quem entrou no quarto de manhã. Kestner não assistiu a nada do que conta; ele junta depoimentos e põe em ordem.
Há detalhes de escrivão. Sobre a mesa estava aberta a peça Emilia Galotti, de Gotthold Ephraim Lessing, publicada naquele mesmo ano. Jerusalem viveu até o meio-dia seguinte. O enterro saiu à noite, e o relatório registra quem carregou o caixão e quem não apareceu.
Goethe guardou a carta. Dois anos depois, publicou um romance cujas páginas finais reproduzem quase palavra por palavra vários desses detalhes, inclusive a última linha.
O livro saiu na Feira de Leipzig de 1774 sem o nome do autor na capa, e em poucos meses já circulava em edições piratas pelos estados alemães. Os leitores sabiam de cor as cartas do protagonista.
O romance, porém, é contado em cartas escritas pelo próprio protagonista. Goethe tinha um problema técnico: um narrador em primeira pessoa consegue contar a paixão, a febre e a despedida, mas não consegue contar o momento em que deixa de existir.
A solução dele foi trocar de narrador a poucas páginas do fim. Na faixa I, o instante exato em que a caneta muda de mão.
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I A Desmontagem
I, O narrador que sai pela porta
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Os Sofrimentos do Jovem Werther (Die Leiden des jungen Werthers), romance de Johann Wolfgang von Goethe publicado em 1774, é quase todo escrito por uma única mão. Werther, jovem de boa família, manda cartas ao amigo Wilhelm a partir de 4 de maio de 1771.
Nelas conta que se apaixonou por Lotte, noiva e depois esposa de Albert, um homem correto e paciente. As respostas de Wilhelm nunca aparecem. O leitor ouve uma voz só, sempre no calor da hora, sem ninguém que a corrija.
Existe um editor desde a primeira página, mas ele é discreto. Assina uma nota curta de abertura, diz que reuniu com cuidado tudo o que achou sobre o pobre Werther e pede ao leitor lágrimas para o destino dele. Depois some por mais de cem páginas.
No livro II, quando o inverno de 1772 chega e as cartas ficam curtas e desordenadas, o editor volta com um título próprio: O editor ao leitor. E explica por que precisa entrar:
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“Como eu gostaria que, dos últimos dias notáveis do nosso amigo, restassem testemunhos de próprio punho em número suficiente, para que eu não precisasse interromper com narração a sequência das cartas que ele deixou.”
Johann Wolfgang von Goethe, Os Sofrimentos do Jovem Werther, livro II, 1774
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A frase admite a falha de fonte. Werther escreveu cada vez menos e pior no fim, e o editor passa a reconstituir o que ele não registrou. Diz ter ouvido Lotte, Albert e o criado, gente que viu de perto o que as cartas não contam.
A textura da página muda. Onde antes havia datas e confissões, entram frases em terceira pessoa, notícias de terceiros e trechos soltos achados entre os papéis do morto, alguns sem data, outros datados só pela hora.
O editor também faz o que Werther nunca faria: descreve Werther de fora. Mostra o rapaz visto por Lotte, visto por Albert, visto pelo criado que o serviu. Pela primeira vez no livro, o leitor tem uma segunda opinião sobre o protagonista.
A cena mais longa desse trecho é uma leitura. Werther visita Lotte numa noite em que Albert está fora e lê para ela a tradução que fez dos cantos de Ossian (poemas atribuídos a um bardo escocês antigo, publicados por James Macpherson nos anos 1760).
O editor transcreve a tradução inteira, página após página de lamentos sobre heróis mortos. Quando os dois terminam chorando e Werther a abraça, Lotte se tranca no quarto e manda que ele vá embora. Ele obedece. É a última vez que se veem.
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O editor entra onde a primeira pessoa perde a mão: nos dias que o narrador não tem mais forças para registrar.
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II A Engrenagem
II, Batem as doze
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A peça central do desfecho é a última carta de Werther a Lotte. Ela não é escrita de uma vez. O editor a apresenta em pedaços, cada um com a hora ou a circunstância, e intercala entre eles o que acontecia fora do quarto.
Numa dessas pausas, o criado de Werther leva a Albert um bilhete pedindo as pistolas para uma viagem, o mesmo pretexto que Jerusalem usou com Kestner. Albert manda Lotte entregar. Ela tira o pó das armas com as próprias mãos, tremendo, e não diz nada ao marido.
Werther retoma a carta sabendo que foi ela quem as entregou. As últimas linhas falam das armas e da hora:
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“Estão carregadas. Batem as doze. Seja, então.”
Johann Wolfgang von Goethe, Os Sofrimentos do Jovem Werther, livro II, 1774
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Aqui está o gesto técnico. A primeira pessoa vai até a véspera do ato e para. O disparo não tem narrador que o viveu: o editor informa, com voz de auto de ocorrência (o documento policial que registra um fato), que um vizinho viu o clarão da pólvora e ouviu o estampido, mas, como tudo ficou quieto, não deu importância.
De manhã, o criado entra com a luz e encontra Werther no chão. O editor lista o que se viu: o casaco azul e o colete amarelo, a roupa do primeiro baile com Lotte; o vinho, do qual ele bebeu só um copo; e, aberta sobre a mesa, a Emilia Galotti de Lessing.
O relatório de Kestner tinha a mesma peça sobre a mesa de Jerusalem. Goethe transplantou o objeto do documento real para o documento fictício, e o leitor recebe o detalhe com a mesma secura com que Kestner o anotou.
O editor informa ainda que Werther morreu ao meio-dia, que Albert não conseguiu ir ao enterro e que temeram pela vida de Lotte. O romance termina em duas frases curtas, tiradas da carta de Kestner:
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“Artesãos o carregaram. Nenhum religioso o acompanhou.”
Johann Wolfgang von Goethe, Os Sofrimentos do Jovem Werther, livro II, 1774
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A última linha nega ao morto a cerimônia que a Igreja recusava a quem tirava a própria vida. Quem diz a frase não sofre nem comenta. A dor de cem páginas termina num registro de cartório, e o contraste pesa mais do que qualquer lamento.
Goethe mexeu nesse trecho depois. Na edição revista de 1787, ampliou a parte do editor e acrescentou o caso de um jovem camponês que mata o rival por ciúme, com Werther tentando defender o réu diante do magistrado. A voz documental ganhou mais páginas, e o fim ficou mais observado de fora.
O efeito da forma chegou longe demais. A cidade de Leipzig proibiu o livro em 1775, e o sociólogo americano David Phillips, em 1974, deu o nome de efeito Werther ao aumento de casos de suicídio após notícias amplamente divulgadas sobre o tema.
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A primeira pessoa pode contar tudo, menos o instante em que deixa de existir. Esse fim precisa de outra voz.
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